Editorial

A esperança que decorre da confiança na luta de massas»

TEMPO DE ESPERANÇA?

Na sua Mensagem de Ano Novo, o Presidente da República, apreciando a evolução da situação do País no ano que passou, qualificou de «tempo de esperança», este que vivemos.
Tal «esperança» decorre, naturalmente, da visão optimista do PR no que respeita à evolução por ele detectada em 2007 – uma visão que, ao contrário do que prognosticaram diversos analistas e politólogos, apresenta sensíveis convergências com a apreciação feita há uma semana pelo primeiro-ministro José Sócrates.
Como não podia deixar de ser, a «Presidência Portuguesa» teve honras de destaque, embora sem novidades na apreciação: com efeito, o PR limitou-se a expressar o seu «regozijo» pelo «êxito» da dita Presidência e a repetir a estafada e monocórdica oração de louvor com a qual, desde há semanas, temos vindo a ser flagelados: o prestígio de Portugal nos píncaros da Europa etc, etc.
Sobre as consequências trágicas - para os trabalhadores, o povo e o País - do que, no decorrer da dita «Presidência Portuguesa», foi decidido, o PR não se pronunciou – certamente porque, também aí – não obstante o golpe vibrado na independência e soberania nacional - apenas vê aspectos positivos.
Nas restantes áreas abordadas na «mensagem», as coisas, segundo o PR, melhoraram. «Não tanto como desejaríamos», é certo, mas não se pode querer tudo, não é verdade?...: «melhorou o crescimento da nossa economia»; «há sinais positivos na educação das crianças e jovens»; e, em matéria de Saúde, «seria importante que os portugueses percebessem para onde vai o País» nessa matéria – já que, se perceberem, «poderão avaliar melhor aquilo que tem sido feito»...
Em resumo: o ano que passou foi positivo, mas é preciso que o que aí vem seja ainda mais positivo – para o que, diz o PR, «todos temos que dar o nosso melhor» porque «é preciso o trabalho e a determinação de todos».
Finalmente, o PR sublinhou a gravidade de dois dos problemas que mais o preocupam: «a baixa natalidade» e «os mortos em acidentes rodoviários».

Minutos antes de ouvirmos a Mensagem do PR, os vários canais de televisão davam notícia dos aumentos dos preços dos bens essenciais e de serviços públicos básicos, que vão entrar em vigor este mês.
Trata-se de aumentos brutais e sempre acima (em vários casos muito acima) da taxa de inflação prevista pelo Governo – previsão que, como sabemos, fica sempre abaixo da realidade. O que significa que as já tão degradadas condições de vida da imensa maioria dos portugueses vão degradar-se ainda mais neste «tempo de esperança» anunciado pelo PR.
Aumentos do pão, do queijo, do leite, da manteiga, do azeite, do arroz, do açúcar, da massa, da cerveja, do tabaco; aumentos dos transportes públicos e das portagens; aumentos das prestações das casas; aumentos da electricidade, da água e do gás; aumentos das taxas moderadoras. Enfim, aumentos de tudo o que é indispensável à sobrevivência das pessoas e que, por isso, vão aumentar o número de pobres e dos que passam fome – dos excluídos da esperança.
É claro que quando os telejornais anunciaram estes aumentos, o PR já tinha a sua «mensagem» escrita e, nisso residirá, provavelmente, o facto de, não apenas não ter dedicado uma só palavra a tamanha calamidade, como ter ousado qualificar de «esperança» este tempo que vivemos...
A não ser que no pensamento do PR estivesse como destinatária dessa «esperança» a imensa minoria de portugueses composta pelos chefes dos grandes grupos económicos e financeiros e pelos seus amplos staffs, aí incluídos os governantes – isto, apesar da crítica, aliás tímida e inócua, aos altos salários dos gestores...

«Devemos concentrar-nos no que é essencial» - disse o PR, a dada altura.
E foi, certamente, obedecendo ao seu conceito de «essencial», que não falou nos ataques aos direitos dos trabalhadores; nas perseguições, chantagens e represálias de que são vítimas os que, no uso de direitos consagrados na Constituição da República Portuguesa lutam por melhores condições de trabalho e salariais; no desemprego que atingiu, em 2007, o seu índice mais elevado desde o 25 de Abril; nesse brutal atentado aos direitos humanos que é a precariedade – que atinge já mais de um milhão e meio de trabalhadores.
Foi, certamente, na obediência a esse conceito de «essencial» que, em matéria de saúde, o PR apelou aos portugueses para que percebessem «o que está sendo feito»: encerramento de centros de saúde, de maternidades, de urgências e serviços de atendimento permanente – encerramentos cirúrgicos, na medida em que ocorrem precisamente onde mais precisos são e mais falta fazem.
Foi, certamente, a partir desse conceito de «essencial» que o PR não disse uma palavra sobre os contínuos ataques, no decorrer do ano de 2007, à Constituição da República Portuguesa – de cujo cumprimento ele jurou, em acto de posse, ser garante - através de uma prática política que afronta e despreza a Lei Fundamental do País e que tem vindo a conduzir ao crescente empobrecimento do conteúdo democrático do regime: limitações e violações crescentes aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, intimidações à actuação dos sindicatos, atentados à liberdade de expressão e ao direito de propaganda.

Tempo de esperança? Sem dúvida. Não a «esperança» anunciada pelo PR, mas a esperança que decorre da confiança na luta dos trabalhadores, das populações, dos estudantes, dos micro, pequenos e médios empresários, dos reformados e pensionistas, enfim, de todos os que são vítimas desta política de direita. Luta que no ano que passou atingiu níveis dos mais elevados de sempre. Luta que no ano agora iniciado se perspectiva ainda mais forte.


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