Centenário de Joaquim Rafael, tipógrafo clandestino
Uma história de dedicação escrita com letras de chumbo
Faria 100 anos, no dia 14 de Dezembro, Joaquim Rafael, tipógrafo da imprensa clandestina do Partido durante mais de 25 anos. O PCP homenageou este seu destacado militante no sábado, em Rio Tinto, junto à última casa que habitou na clandestinidade e onde se editaram os jornais clandestinos O Têxtil e A Terra e inúmeros manifestos de apelo à luta.
A história do PCP durante os quase cinquenta anos de fascismo está repleta de exemplos de extrema dedicação e fidelidade ao Partido. Muitos foram os comunistas – funcionários e não funcionários, dirigentes e militantes de base – que deram o melhor das suas vidas e, alguns, mesmo a própria vida, pelo seu Partido e pela sua luta por um Portugal democrático e socialista.
Alguns, pela natureza das tarefas que desempenharam, atingiram alguma notoriedade pública. Outros nem tanto, apesar de não ter sido menor a abnegação, a coragem ou o engenho que colocaram ao serviço do Partido. Joaquim Rafael é um destes últimos.
Camponês nascido em Tremês, no distrito de Santarém, vivia em Lisboa quando ingressou no PCP, na sequência da reorganização de 1940-41. Logo em 1943 entrou para o quadro de funcionários do Partido e passou à clandestinidade. Desde então, e até 1974, esteve sempre ligado ao aparelho clandestino de propaganda do PCP. Primeiro, na distribuição. A partir de 1948, foi responsável por montar e assegurar o funcionamento de várias tipografias do Partido em vários pontos do País.
Joaquim Rafael não era tipógrafo de profissão nem tinha qualquer experiência nesta área. Mas em mais de 25 anos de experiência, tornou-se um mestre neste ofício, passando os seus conhecimentos a novos camaradas que iam chegando às tipografias clandestinas.
Das mãos de Joaquim Rafael e da sua companheira Catarina Ramos Machado saíram regularmente as edições do Avante!, de O Militante, de O Camponês. Este último periódico terá sido o primeiro que Joaquim Rafael (Albano, na clandestinidade) imprimiu, a partir do número 19. Até então copiografado, O Camponês passou a ser impresso em Outubro de 1948, numa instalação situada entre vinhedos, onde habitava o casal.
No mesmo ano, a tipografia muda para Santo António da Charneca, no Barreiro, onde se mantém até 1950. Depois, em Lisboa, nos dois anos seguintes, Joaquim e Catarina imprimem o Avante! e O Militante numa casa na Rua do Cruzeiro. Nos anos seguintes, as mudanças sucedem-se, por razões de defesa da tipografia.
No distrito de Lisboa, são várias as casas para onde se mudam, continuando, com ou sem o apoio de mais camaradas, a impressão de vários títulos do Partido, desde o seu órgão central a outros periódicos, como o Tribuna Militar (órgão da Comissão de Unidade Militar) e o Amanhã (jornal de jovens das Juntas Patrióticas da Juventude).
Nos anos 70, Joaquim Rafael e Catarina Ramos Machado seguiram para Rio Tinto, no Porto, onde se ocuparam da impressão de O Têxtil e A Terra. O 25 de Abril veio encontrar este militante revolucionário debilitado por uma grave doença que haveria de o vitimar em Julho desse ano. O funeral, realizado em Vale de Vargo no dia 24 desse mês, partiu do Hospital de Beja e, pelas terras que atravessou, era saudado com dor pelas populações. Em Vale de Vargo juntaram-se cinco mil pessoas.
No adeus, em frente à casa da família, tomaram da palavra históricos dirigentes do PCP – Francisco Miguel, Georgete Ferreira e António Dias Lourenço, à data director do Avante!. Este último afirmou, na ocasião, que a «história gloriosa do nosso Partido é feita por homens da têmpera de Joaquim Rafael, por vezes em tarefas pouco conhecidas mas sem as quais a acção do Partido não poderia realizar-se com êxito». Prosseguindo, disse aos presentes que «o vosso jornal O Camponês, os milhares e milhares das suas letrinhas de chumbo passaram pelas mãos de Joaquim Rafael».
Francisco Miguel diria depois que «a juventude tem na sua imagem uma craveira na qual se pode aferir para as tarefas que tem diante de si».
A vida de Joaquim Rafael e da sua companheira (que ainda vive) fica marcada pelo feito notável de nunca a PIDE ter conseguido localizar nenhuma das tipografias em que trabalhou e das quais saíram diversos exemplares dos mais importantes e destacados periódicos da imprensa clandestina portuguesa.

Homenagem em Rio Tinto
Uma casa igual às outras

O número 112 da Rua Eça de Queiroz, em Rio Tinto, é um prédio normal, igual a tantos outros da mesma rua, e de outras ruas da cidade e de tantas outras cidades do País. Mas ali funcionou, entre 1970 e 1973, a tipografia clandestina da Direcção da Organização Regional do Norte, que agregava então 10 distritos, de Coimbra a Bragança.
À frente dessa tipografia estava Joaquim Rafael e a sua companheira, Catarina Machado. Ali se editaram diversos números de O Têxtil e A Terra e manifestos de apelo às lutas de massas realizadas na região nos anos finais da ditadura.
Foi precisamente junto à porta da casa que, no sábado, 29, se juntaram dezenas de pessoas a assinalar o centésimo aniversário do militante comunista Joaquim Rafael. Entre eles, estavam a filha Mariana, o genro e os netos. Mas também camaradas que com eles partilharam tarefas, angústias e alegrias naturais da luta clandestina. E muitos outros, de todas as idades e formações, que não tendo conhecido o homenageado não deixaram de se associar a esta evocação, promovida pela Comissão Concelhia de Gondomar e pela Direcção da Organização Regional do Porto do Partido.
Margarida Tengarrinha, que conheceu e trabalhou com Joaquim Rafael e Catarina Machado, lembra que a saída dos tipógrafos desta casa deveu-se à necessidade de Joaquim Rafael ser tratado à doença «provocada pelo chumbo da tipografia, que o levaria à morte, cerca de um ano depois». Mas, destacou, «ainda teve a alegria de presenciar a Revolução do 25 de Abril, para a realização da qual tanto contribuiu com o seu trabalho esforçado».
E Joaquim Rafael teve noção desse seu contributo, afirmou Margarida Tengarrinha. Teve a noção de como o seu «trabalho obscuro nesta tipografia contribuiu para o desencadear das lutas que vinham crescendo e aumentando a força e a consciência das massas contra o fascismo e as guerras coloniais». Lutas que, prosseguiu, são indissociáveis da consciencialização dos capitães de Abril e da organização do Movimento das Forças Armadas».
A breve intervenção terminou com a afirmação de que com a homenagem a estes dois heróis do Partido se «cumpre um dever que nos é grato: recordar os humildes e obscuros heróis de uma luta sem tréguas que derrubou o fascismo em Portugal».

Exposição no Centro de Trabalho

A festa continuou no Centro de Trabalho de Rio Tinto, algumas ruas abaixo da antiga tipografia. No interior, uma exposição contava aspectos relevantes da vida de Joaquim Rafael e da sua companheira. Era notória a presença de alguns destacados militantes comunistas, como António Dias Lourenço, e os antigos tipógrafos clandestinos Raul e Maria Júlia Costa e Carlos Pires. O responsável pela Direcção da Organização Regional do Norte nos anos em que Joaquim Rafael ali trabalhou, Carlos Costa, não pôde estar presente, mas saudou a iniciativa.
Margarida Tengarrinha voltou a proferir algumas palavras, para destacar o seu entusiasmo pelo trabalho de tipógrafo clandestino e pelo seu alcance político. Este entusiasmo, realçou, «soube transmiti-lo aos camaradas a quem ensinou e que com ele aprenderam, não só a trabalhar naqueles prelos primitivos mas também a perceber a razão e a necessidade da imprensa clandestina num país em que todos os órgãos de informação estavam submetidos à mais feroz censura».
E foram muitos os camaradas que ensinou ao longo dos anos. Entre os quais a própria filha, a mais nova tipógrafa do Partido. Joaquim Rafael, continuou Margarida Tengarrinha, «foi de facto o professor de várias gerações de tipógrafos, a quem deu o exemplo da extraordinária dedicação e espírito de sacrifício necessários e todo o alcance desta tarefa muito dura». O isolamento, pela necessidade de defesa, era uma dura prova. Mas era necessário, pois a «procura e assalto das tipografias clandestinas era uma das prioridades da PIDE».
Uma característica de Joaquim Rafael era a sua «enorme capacidade de se integrar, naturalmente, no local onde se encontrasse, ser aceite como conhecido e amigo». A sua «natural afabilidade» inspirava confiança, relevou a oradora, destacando a importância desta característica para a actividade clandestina.
A terminar, Margarida Tengarrinha realçou a justeza da homenagem a Joaquim Rafael e Catarina Machado pela sua dedicação à luta pela liberdade e pelo socialismo. E destacou ainda a sua importância, em tempos de campanhas para criminalizar o comunismo e mascarar os crimes do capitalismo.

O coração da luta popular

Disse José Moreira, funcionário clandestino do Partido assassinado pela PIDE, que a «tipografia clandestina é o coração da luta popular». E é bem verdade, ou era, nas condições de luta clandestina.
Margarida Tengarrinha deu apenas alguns exemplos, referentes à tipografia de Rio Tinto e aos tipógrafos Joaquim Rafael e Catarina Machado entre 1970 e 1973.
Para além de jornais partidários e de unidade (e noutras tipografias saíram das suas mãos o Avante! e O Militante), da tipografia de Rio Tinto, saíram diversos manifestos de apelo à luta. A 31 de Janeiro de 1970, realizou-se no Porto uma grande manifestação. Em luta estiveram também os operários da Efacec, da Sonafi e da Fábrica do Cobre, entre outras. Estas lutas, afirmou Margarida Tengarrinha, «dinamizaram a participação dos trabalhadores metalúrgicos, têxteis e bancários do Porto na criação da Intersindical. Os apelos saíram das mãos de Joaquim Rafael e da sua companheira.
No ano seguinte, foram as greves do tecelões de Fafe, dos pescadores da Póvoa do Varzim, dos operários têxteis da Covilhã a ocuparem os dias aos dois tipógrafos. No dia 6 de Março, recordou Margarida Tengarrinha, foi lançado um documento sobre o 50.º aniversário do Partido, que foi celebrado com bandeiras vermelhas colocadas na Ponte da Arrábida e em fios eléctricos junto a várias fábricas. No 1.º de Maio, vinte mil pessoas participaram no desfile no Porto, ao apelo do PCP, lançado por centenas de milhares de manifestos executados no número 112 da Rua Eça de Queiroz.
Em 1972, foram muitas as lutas travadas. Em Braga, os dois mil operários da Grundig ocuparam a fábrica durante três dias. Os quatro mil trabalhadores dos Transportes Colectivos do Porto entraram em greve.
A 15 de Abril, mais de quarenta mil pessoas protestaram contra a carestia de vida e as guerras coloniais e por aumento dos salários. A preparação desta impressionante manifestação, relatou a oradora, decorreu entre Fevereiro e Abril. Na tipografia, foram impressos mais de 260 mil documentos. Lembrando que «o principal trabalho de mobilização foi feito pelos organismos do Partido nos locais de trabalho, entre a juventude e os estudantes e população em geral», realçou que os materiais foram todos produzidos na tipografia.
No ano seguinte, as lutas continuaram no Norte do País. Lutas que, organizadas e dirigidas pelo Partido, foram «em grande parte acompanhadas ou incentivadas por documentos e outros materiais impressos nesta tipografia, que assim participou no crescendo de lutas que iria culminar no Movimento dos Capitães, nesse mesmo ano, ponto de partida para a Revolução do 25 de Abril».


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: