Administração qualifica acordo como «derrota» da DB e ameaça retaliar
Alemanha
Maquinistas alcançam acordo
Após cerca de dez meses de intensa luta reivindicativa, os maquinistas da companhia de caminhos-de-ferro alemães Deustche Bahn (DB) alcançaram, na passada semana, as bases de um acordo salarial com a administração.
Este princípio de acordo, firmado no dia 13, poderá pôr termo a um dos mais prolongados e duros conflitos laborais da história da DB. As negociações prosseguem até ao fim deste mês e até assinatura final nada está garantido.
Contudo, as declarações de Manfred Schell, presidente do sindicato dos maquinistas (GDL), indicam claramente que foi alcançada uma base sólida de entendimento com a administração: «As grandes linhas estão definidas, os pontos de desacordo estão em vias de desaparecer»
Desde Março de 2007 que os maquinistas, organizados no pequeno sindicato GDL, reclamavam substanciais revalorizações salariais que, nalguns casos, implicavam aumentos de 31 por cento.
Tendo recusado o acordo de empresa firmado em Junho pelos dois sindicatos maioritários (GDBA e Transnet), estes profissionais resistiram às pressões e proibições dos tribunais, realizando uma série de greves nas linhas regionais e urbanas.
Depois de uma longa batalha judicial pelo reconhecimento do direito à greve, os maquinistas puderam finalmente, em Novembro, realizar a maior greve nacional de sempre no sector, que paralisou durante dois dias todo o tráfego ferroviário, incluindo o transporte de mercadorias.

Vitória dos trabalhadores

A firmeza e determinação demonstradas pelos trabalhadores e a iminência de novas greves no início do novo ano obrigaram a administração a sentar-se à mesa no final de Dezembro para fazer algumas importantes concessões.
Embora longe dos 31 por cento de aumentos reclamados pelo GDL, a empresa concordou com a revalorização global de 11 por cento, faseados em aumentos de oito por cento em Março próximo e de mais três por cento em Setembro. Para além disso o acordo prevê o pagamento de um prémio extraordinário de 800 euros.
Em paralelo, o GDL obteve uma redução do horário semanal de trabalho, de 41 para 40 horas, e, sobretudo, alcançou a sua principal reivindicação: o estabelecimento de uma convenção colectiva específica para a classe dos maquinistas.
Manifestando o seu desagrado pelas concessões feitas aos maquinistas, o presidente da Deustche Bahn calculou que a nova tabela salarial custará vários milhares de milhões de euros nos próximos cinco anos: «A nossa estrutura salarial deixará de ser competitiva», declarou Hartmut Mehdorn, citado pelo jornal francês Le Monde (17.01). E ameaçou despedir trabalhadores, aumentar o preço dos bilhetes e «deslocalizar empregos para regiões com mais baixos salários». Estas serão algumas das soluções que, segundo Mehdorn, a empresa pública alemã irá estudar para diminuir os custos de funcionamento. Este acordo, acrescentou ainda o responsável, é uma «derrota» para a DB e destina-se unicamente a «evitar novas greves».
Condenando as declarações de Mehdorn, os dois sindicatos maioritários da empresa (GDBA e o Transnet), num comunicado comum divulgado dia 15, avisaram que recorrerão «a todos os meios» para impedir eventuais despedimentos.
Por outro lado, estes dois sindicatos poderão exigir a reabertura de negociações salariais, valendo-se da cláusula incluída no acordo de Junho que prevê a renegociação caso o GDL venha a obter condições mais vantajosas do que os 4,5 por cento então estabelecidos.

Reivindicações em alta

Depois de vários anos a sofrer reduções reais dos salários, prolongamentos do horário de trabalho sem compensações e perda de importantes direitos de protecção e segurança social, os sindicatos alemães começaram o ano com um espírito combativo, colocando alto a fasquia das reivindicações salariais.
Na função pública, o sindicato dos serviços Ver.di e a federação dos funcionários alemães (DBB) deram o tom reclamando uma valorização de oito por cento para os cerca de 1,3 milhões de trabalhadores. O início das negociações está marcado para o fim do mês, mas os sindicatos já falam em greves para pressionar as autoridades governamentais.
Noutros sectores, a orientação definida pelos sindicatos é semelhante. O poderoso sindicato dos metalúrgicos, IG Metall, exige oito por cento de aumento salarial para um universo de 93 mil trabalhadores. No sector químico, que emprega 520 mil pessoas, o IG BCE definiu uma actualização de sete por cento a ser negociada em finais de Fevereiro. Na indústria têxtil e na agricultura as organizações do trabalho exigem aumentos na ordem dos 5,5 por cento, enquanto os médicos municipais já iniciaram as negociações salariais, reclamando uma subida de 10 por cento.
Os sindicatos querem interromper a política de moderação salarial imposta há vários anos, argumentando que os trabalhadores também devem beneficiar com o regresso do crescimento da economia.
Em 2007, a Alemanha registou um crescimento do produto interno bruto de 2,5 por cento e alcançou o equilíbrio das contas públicas. É pois tempo de aumentar os salários, tanto mais que o poder de compra tem sido duramente afectado pela tendência de subida generalizada dos preços dos bens e serviços.


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