Editorial

«Soares foi o actor principal da ofensiva visando liquidar a CGTP-IN»

O VELHO SONHO

Previsível, Mário Soares retoma, no DN de 29/1, o seu velho sonho de «quebrar a espinha à Intersindical».
Fá-lo repetindo o discurso velho de mais de três décadas e trilhando os mesmíssimos caminhos de então – e, como então, tendo sempre o PCP como alvo.
Lá vem todo o palavreado clássico, desde as «novas realidades» à «correia de transmissão», passando pela «cartilha stalinista»e pela «cabeça enterrada na areia»; lá vêm as usuais manipulações dos factos; lá vêm, bolsadas pela usual ausência de pudor, as falsidades boçais e provocatórias, género: «os comunistas querem excluir da CGTP os sindicalistas que não pertençam ao partido», etc, etc, etc.
Enfim, é Soares igual a si próprio: provocador com décadas de experiência, demagogo assumido, mentiroso que sabe estar a mentir – e desvendando, talvez sem disso se aperceber, que os seus reais objectivos, coincidem, hoje como no passado, com os do grande capital.
Não surpreende, por isso, que, sobre o Movimento Sindical Unitário, ele escreva e sonhe, hoje, o que escrevia e sonhava há 33 anos.
Soares adoptou há muito, como meio de vida, a defesa do capitalismo explorador e, como maneira de estar na vida, o anticomunismo visceral.
Assim, a força organizada dos trabalhadores constituiu sempre, para ele, o mais poderoso obstáculo à concretização dos seus desígnios.

Na memória de milhões de trabalhadores portugueses, permanece imperecível o papel de Soares na liderança da contra-revolução: o seu ódio e o seu ataque às conquistas de Abril; as santas alianças com a direita e a extrema-direita - que não se eximiram de recorrer ao terrorismo bombista quando o acharam necessário, sempre com abundantes apoios políticos e financeiros do capitalismo internacional; a política de direita que ele iniciou em 1976 – política de recuperação capitalista, agrária e imperialista que, no desrespeito da Constituição, desencadeou o processo de privatizações, a ofensiva contra a Reforma Agrária e o brutal ataque aos direitos dos trabalhadores: política a que os sucessivos governos PS(D) têm dado a devida continuidade devidamente aplaudida por Soares.
Recorde-se que o actual código do trabalho tem as suas raízes essenciais na política anti-laboral iniciada por Soares em 1976: os despedimentos sem justa causa, os salários em atraso, o congelamento de salários e os brutais aumentos do custo de vida, a precariedade, as limitações ao direito à greve, o ataque à contratação colectiva, a repressão nas empresas, o ataque à organização sindical, as perseguições e despedimentos de dirigentes e activistas sindicais e de membros de CT’s – tudo isto teve início nos governos Soares que, assim, está ligado a tudo o que de pior aconteceu aos trabalhadores portugueses após o 25 de Abril.

Soares foi o actor principal da ofensiva visando enfraquecer, dividir e liquidar a Intersindical, força organizada dos trabalhadores portugueses que tem constituído uma poderosa barreira aos desígnios exploradores e opressores do grande capital. E são conhecidas as derrotas sucessivas que sofreu nessa tarefa.
A «Carta Aberta» (anunciada em 26/4/76) - primeira grande tentativa organizada de liquidar a CGTP e que teve em Soares o seu principal mentor – foi um fracasso. E Soares viu-se obrigado a pedir mais ajudas e mais apoios: encontrou-os onde era de esperar: na direita e na extrema-direita nacionais e nas centrais internacionais do divisionismo sindical.
Essas tentativas de enfraquecimento e divisão do movimento sindical caminharam a par e passo com a ofensiva contra as conquistas da revolução de Abril, iniciada pelo governo PS/Soares, sempre fortemente apoiado política e financeiramente pelo capitalismo internacional, pelo patronato e pela reacção.
São conhecidas as ingerências de centrais sindicais internacionais, pela mão de Soares, na vida sindical portuguesa: a CISL, com o seu «escritório» montado em Lisboa logo a seguir ao 25 de Abril e com os seus «seminários de formação sindical»; a norte-americana AFL-CIO, que aqui começou a trabalhar logo a 27 de Abril de 74 (reunindo clandestinamente com quem Soares muito bem sabe) e que, a dada altura, informava no seu jornal, num linguajar nada sindicalista mas muito político, que «houve conversações em Washington com as lideranças dos dois mais importantes partidos políticos portugueses»; que «se estabeleceram contactos com o movimento sindical português»; que «sindicatos e partidos políticos não comunistas da Europa ocidental têm estado activos em Portugal a fim de corrigir as distorções» a que o movimento sindical fora submetido pelos comunistas - e a AFL-CIO garantia uma «ajuda sem limites» ao divisionismo sindical em Portugal. Via Mário Soares, obviamente.
Depois foi – é Soares quem o diz - «a criação da UGT, com base num acordo político entre PS e PSD, negociado por Sá Carneiro e por mim» e «onde a grande figura, por parte do PS, seria Maldonado Gonelha».

Ao longo dos tempos, foi objectivo de Soares liquidar o MSU português, amarrá-lo às centrais internacionais do divisionismo sindical e transformá-lo, de facto, numa correia de transmissão dos interesses do grande capital – sempre ao som da monocórdica cantilena da «liberdade sindical».
Ao longo dos tempos, os trabalhadores portugueses, organizados na sua central de classe, derrotaram clamorosamente esse objectivo de Soares, mostrando-lhe que o conteúdo fundamental da liberdade sindical é a liberdade de os trabalhadores decidirem, com completa independência, sobre a sua organização, direcção e orientações.

Só um despudor total e absoluto pode levar uma pessoa com o currículo acima resumido a escrever o que Soares escreveu no DN de 29/1.
Mas o texto – com os seus 33 anos de idade - é o exemplo mais evidente do fracasso dos objectivos do seu autor. Um fracasso que, mais uma vez, se repetirá.


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