Os stoks de comida estão em ruptura, diz a ONU
Palestinianos forçaram fronteira com o Egipto
Brechas não resolvem crise em Gaza
Milhares de palestinianos cruzaram a fronteira com o Egipto em busca de víveres. Apesar de ter aliviado a pressão sobre Gaza, a crise continua depois de o governo egípcio ter reposto o controlo no território.
Ao fim de cinco dias de trânsito humano imparável entre o Sul da Faixa de Gaza e a região limítrofe do Egipto, as autoridades locais anunciaram ter fechado a maior parte dos buracos abertos na fronteira. Resta agora uma única passagem por onde os palestinianos podem entrar no país vizinho, a porta de Salah ad-Din, na qual se concentra um forte dispositivo policial destacado pelo presidente Mubarak visando impedir a liberdade de movimentos registada desde quarta-feira da semana passada, quando os palestinianos forçaram a divisória e penetraram na Península do Sinai.
Sexta-feira, as forças de segurança egípcias ainda tentaram reprimir o fluxo, mas a população e os activistas do Hamas recorreram a bulldozers para abrirem brechas nos muros, permitindo que milhares de pessoas – cerca de 700 mil, segundo estimativas da ONU – adquirissem bens de primeira necessidade em Rafah e El-Arich.
Apesar de ter aliviado a pressão que se abate desde Junho sobre cerca de um milhão e meio de habitantes da Faixa de Gaza, a crise humanitária subsiste no território. De acordo com dados divulgados domingo pelas Nações Unidas, os stocks do Programa Alimentar Mundial no terreno não chegavam para fornecer uma ração completa a dez mil palestinianos.
O cenário repete-se no que aos combustíveis diz respeito, por isso a interrupção no fornecimento de energia eléctrica e abastecimento de água potável às populações mantêm-se durante a maior parte do dia. A situação motivou a aprovação de uma moção no Conselho dos Direitos Humanos da ONU na qual se exige que Israel cesse imediatamente as hostilidades, classificando-as de castigo colectivo e indiscriminado contra os palestinianos.
No mesmo sentido, o Supremo Tribunal de Israel decretou que o país tem de fornecer a Gaza um mínimo de 2,2 milhões de litros de fuel por semana, dando razão aos argumentos apresentados por uma dezena de organizações humanitárias israelitas e palestinianas.

Solução difícil

Entretanto, a Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) liderada por Mahmoud Abbas dispôs-se a exercer o controlo sobre a fronteira de Rafah, medida que obteve o imediato apoio do Egipto.
Previa-se que ontem, no Cairo, o presidente da ANP discutisse a questão com os homólogos locais, mas o Hamas declarou antecipadamente só aceitar uma solução que resulte do diálogo entre facções palestinianas e governo egípcio, excluindo, também, o cumprimento de qualquer acordo que os afaste do processo ou tenha em conta o negociado anteriormente com Israel sobre a matéria.
Recorde-se que Israel se comprometeu, em 2005, sob a égide dos EUA, UE, ONU e Rússia, a abrir o posto fronteiriço constituindo uma parceria com os palestinianos, mas depois da vitória eleitoral do Hamas voltou com a palavra atrás e impôs um severo bloqueio com a cobertura de Washington.

EUA travam CS

Os interesses estratégicos do imperialismo norte-americano são, aliás, o principal foco de conflito no Médio Oriente e o mais forte obstáculo à resolução do diferendo na Palestina. Ainda esta semana a política externa da Casa Branca deu um exemplo disso mesmo ao travar repetidamente no Conselho de Segurança da ONU a aprovação de uma moção de repúdio à política criminosa de Israel.
Desde quinta-feira, 24, várias versões foram apresentadas aos 15 membros do CS, mas nenhuma delas satisfaz a representação diplomática dos EUA, que insiste na tese de que a acção israelita deve ser classificada como de «auto-defesa», colocando no mesmo patamar toda uma população faminta, privada dos mais elementares direitos como o acesso a cuidados mínimos de saúde, educação, água ou saneamento básico, e a máquina de guerra de sionista e os colonatos nos territórios ocupados.

Palestinianos choram Habash

Paralelamente, os palestinianos receberam a notícia da morte de um dos seus mais respeitados líderes, Georges Habash, fundador da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), organização da qual foi secretário-geral durante 30 anos. Habash, 82 anos, faleceu, sábado, em Amã, na Jordânia, na sequência de um ataque cardíaco.
Em 1993, Habash denunciou os acordos de Oslo por considerar que o prometido Estado palestiniano, caso acabasse por se consolidar, seria «uma caricatura» na medida em que resultaria de «concessão atrás de concessão» face a Israel. Os acontecimentos recentes parecem confirmar a sua análise.
Em telegrama enviado à direcção da FPLP, o Secretariado do Comité Central do PCP expressou as «sentidas condolências e a solidariedade dos comunistas portugueses» perante o falecimento do «histórico dirigente do movimento nacional de libertação palestino».
Os comunistas manifestaram ainad «que a causa a que o camarada George Habash entregou toda a sua vida triunfará, que o povo palestino alcançará o seu próprio Estado independente e soberano»


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