35 mil não têm médico de família
Odivelas marcha pela saúde
«Sócrates recua, a culpa é toda tua!»
Cerca de meio milhar de pessoas marchou, sábado, pela melhoria dos cuidados de saúde em Odivelas e em defesa do Serviço Nacional de Saúde. Jerónimo de Sousa juntou-se ao protesto e discursou no encerramento da iniciativa.
À hora marcada para o arranque da Marcha pela Saúde, já o Largo D. Diniz, na malha mais antiga de Odivelas, acolhia centenas de militantes comunistas, activistas da CDU e populares. A tarde estava reservada para o protesto e o povo em magotes afiava argumentos.
Junto ao carro de som que apelava à participação na jornada de luta, os cartazes, bandeiras e panos foram desaparecendo para ressurgirem num colorido de conteúdo reivindicativo contra a política de direita na área da saúde. A freguesia de Olival Basto denuncia que a nova ministra dá continuidade à velha política; a população da Ramada afirma que é urgente uma política diferente para os 18 mil habitantes sem equipamento de saúde; em Fanhões, dizem, o povo já não se ilude e quer mais e melhor saúde; Caneças tem sete mil utentes sem médico de família, e na Póvoa de St.º Adrião as populações desesperam pelo almejado centro de saúde.
No último minuto, um «convidado» especial não quis faltar ao apelo da organização concelhia da CDU. Um Sócrates cabeçudo com nariz comprido que junto ao palco do comício haveria de descerrar a placa do virtual novo centro de saúde de Odivelas. Como se ilustrava em cartazes levados em mão durante a Marcha, é mais uma mentira de um primeiro-ministro que pensa iludir-nos com o Aldrabex.

Desgoverno na saúde

Durante o percurso pelas principais artérias da cidade, os manifestantes fizeram ouvir palavras de ordem como «A saúde é uma desgraça, o Governo acha graça» ou «Sócrates recua, a culpa é toda tua!». E com inteira razão o diziam, ou não estivéssemos nós num concelho onde o desgoverno no sector se traduz em números arrasadores: 35.000 pessoas sem médico de família; uma média de 1 médico para cada 2265 utentes; um pediatra para 22 mil crianças; 1 otorrino para quase 160 mil utentes; 65 mil mulheres sem especialistas em obstetrícia ou ginecologia; carência de 35 médicos e 74 enfermeiros para uma cobertura normal da população; incapacidade de prestação de cuidados junto dos idosos e falta até de um aparelho de RaioX.
A juntar a tudo isto, «a degradação dos Centros de Saúde existentes ultrapassa os limites da dignidade tanto para os profissionais como para os utentes. Há salas onde chove, andares sem casas de banho, prédios sem elevador ou com escadas de acesso que dificultam a mobilidade de pessoas idosas, portadores de deficiência motora e de quem leva crianças em carrinho de bebé», disse a vereadora Maria da Luz Nogueira no comício após a Marcha.
Para a eleita da CDU na CM de Odivelas, os contratos-programa assinados antes de actos eleitorais, em 2001 e depois em 2006, pelo anterior ministro da tutela, Correia de Campos, não passaram de «promessas e mentiras», e a prova é que dos centros de saúde de Odivelas, Póvoa de St.º Adrião e Olival Basto nem sinal, resistindo apenas os terrenos doados pela Câmara de Loures ainda durante os mandatos da CDU.
Acresce, segundo a autarca, que este Governo PS «se esqueceu de incluir nos orçamentos de Estado para 2007 e 2008 verbas para a sua construção», isto apesar das repetidas propostas dos deputados do PCP chumbadas pelo PS e PSD, partidos que, ao nível central e local, são «os responsáveis pela situação em que se encontra o estado da saúde neste concelho», sustentou.
«A população de Odivelas está farta de promessas e quer medidas concretas», sublinhou Maria da Luz Nogueira colhendo a aprovação dos presentes que subscreveram igualmente a exigência popular à nova ministra da Saúde – mais importante que a substituição das pessoas é a alteração das políticas.

Jerónimo de Sousa
Lutar pelo direito à saúde

«A Marcha pela Saúde que acabámos de realizar e que juntou centenas de pessoas aqui no concelho de Odivelas é a expressão do descontentamento que reina em Portugal quanto ao estado da saúde», disse Jerónimo de Sousa intervindo no final da iniciativa.
Para o secretário-geral do PCP, concentrações e manifestações realizadas de Norte a Sul do país demonstram que cresce entre a população a consciência «de que o que está em causa já não é apenas o acesso a um determinado serviço público de saúde, mas o próprio direito à saúde».
Consagrado constitucionalmente no ano de 1979, o SNS sempre foi «uma “espinha atravessada na garganta” daqueles que olham para a saúde como um negócio», lembrou o líder comunista, por isso, explicou, «defendem o abandono do Estado das suas responsabilidades constitucionais abrindo caminho ao investimento privado, mas com uma condição: é que o Estado se transforme no principal cliente», cenário que, no concreto, garante aos grupos económicos os muitos milhões de euros que o SNS movimento anualmente, acrescentou.
Neste contexto de «ataque sistemático ao SNS como parte de uma estratégia mais vasta de encerrar serviços públicos», destacou ainda Jerónimo de Sousa, «o actual Governo ficará associado ao período mais negro da ofensiva contra o SNS e, simultaneamente, ao período em que mais se avançou na privatização de serviços e no licenciamento de unidades privadas», orientação política que deixa evidente que o executivo PS/Sócrates «nesta matéria como noutras, segue a cartilha neoliberal da UE».

Exige-se mudança de política

As consequências da política de direita na área da saúde estão à vista de todos: «as despesas do SNS crescem mais na medida em que aumenta a promiscuidade entre o público e o privado e a parte mais significativa dos aumentos está na contratação de serviços ao exterior; aumentam os custos para as famílias, em grande medida devido às taxas moderadoras, à perda de qualidade dos serviços prestados, menos medicina preventiva e mais medicina curativa, com custos bastante superiores; mais de 700.000 portugueses continuam a não ter médico de família e mais de 220.000 portugueses continuam em lista de espera para uma cirurgia; na política do medicamento os portugueses continuam a pagar mais, quer pela política de descomparticipação, quer pelo aumento dos preços dos medicamentos e das margens de comercialização, particularmente na indústria», denunciou Jerónimo de Sousa.
Com a mudança de ministro «o Governo procura transmitir a ideia de que agora vai ser diferente», sublinhou o dirigente comunista, mas «não nos iludamos, pode mudar o estilo mas o conteúdo, esse, mantém-se intacto», aduziu.
Assim, «é um imperativo nacional assegurar o direito à saúde, não deixando que a luta se esgote na resolução, ou não, do problema imediato», enfatizou o secretário-geral do Partido, para quem, é «importante a luta contra o encerramento deste ou daquele serviço, pela construção do novo centro de saúde, pelo alargamento do número de utentes com médico de família, mas tudo isto será insuficiente se o Estado não garantir um SNS universal, geral e gratuito, realizado no quadro do serviço público», concluiu.


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