Editorial

«o Governo não suporta a democracia, teme a e dispara ao menor ruído democrático»

O MEDO DA RUA

A tremideira nervosa que se apossou do Governo dá sinais de inquietante agudização - tanto mais inquietante quanto essa tremideira põe a nu um conceito de governação dominado pela arrogância, pela prepotência, por um quero, posso, mando e faço donde emergem frequentes medidas de carácter repressivo e um discurso oficial que, com cada vez maior frequência, ultrapassa os limites do mais elementar respeito democrático e descamba na insolência boçal e pesada de ameaças.
A semana que passou ficou marcada por uma sucessão de ocorrências antidemocráticas, cuja gravidade está na razão directa do ascenso da luta de massas contra a política do Governo e pela exigência de uma política de esquerda.
A poderosa Marcha Liberdade e Democracia, organizada pelo PCP no dia 1 de Março; a impressionante Marcha da Indignação convocada, no dia 8, pelas estruturas de classe dos professores; as muitas outras importantes lutas de empresa entretanto realizadas; e as lutas previstas para o futuro imediato, designadamente a manifestação em greve da Função Pública da próxima sexta feira, evidenciam uma muito clara e positiva determinação de luta dos trabalhadores que enerva e irrita o Governo e que o faz mostrar a sua verdadeira face e é óbvio que este Governo não suporta a democracia, teme a, e dispara ao menor ruído democrático.
A carga da GNR sobre os trabalhadores em greve na ETAR de Sines (repetindo a prática utilizada na Valorsul) é uma carga da política de direita contra a Constituição da República e os direitos, liberdades e garantias que ela consagra da mesma forma que a prisão do eleito autárquico (à semelhança da recente condenação a 75 dias de prisão de um dirigente sindical) é a insistência obsessiva do Governo num caminho fora da Lei Fundamental do País.
Enfim, a repressão crescente praticada em milhares de empresas por um patronato explorador que goza de total impunidade e conta com todo o apoio do Governo, é um exemplo da marca de classe da política de direita e da sua incompatibilidade com o regime democrático legal.

As reacções da ministra da Educação à histórica manifestação dos professores de sábado passado, são bem elucidativas do conceito de governação democrática em vigor: para a ministra, sem margem para dúvidas, a rua não é espaço de exercício democrático pelo que mil, dez mil ou cem mil professores na rua, é para ela exactamente a mesma coisa: nada. Assim o diz contudo, com olhos e voz de quem não perdoa que mais de dois terços do total dos professores que compõem a classe tenham vindo reclamar os seus legítimos direitos...
Também as declarações do ministro Santos Silva, em Chaves, desnudam um conceito de democracia que se aproxima mais do regime que durante 48 anos oprimiu e reprimiu Portugal e os portugueses do que do regime democrático conquistado com a Revolução de Abril.
O ataque ao PCP desferido pelo ministro é todo feito da raiva decorrente do facto de o PCP ser um partido singular, no plano nacional, em matéria de luta pela liberdade, pela democracia, pelos interesses dos trabalhadores, do povo e do Pais luta seguida com total coerência ao longo de 87 anos, marcando a diferença em relação a todos os outros partidos, PS incluído.
O ministro Santos Silva sabe embora finja que não e, sem vergonha, manipule a verdade que essa diferença começou quando o fascismo decretou o fim dos partidos políticos e o único que não acatou a ordem e decidiu mergulhar na clandestinidade e resistir, foi o PCP mostrando inequivocamente ser diferente dos que são todos iguais, nestes incluído o PS.
Contrapondo à democracia avançada de Abril a democracia velha, baseada na exploração e na opressão, que ele pretende impor como modelo único, o ministro é um homem do passado.
E quando ministra e ministro, invocando essa democracia velha, rejeitam a rua como espaço de intervenção democrática, estão de facto, a rejeitar a democracia e a liberdade conquistadas precisamente nas ruas (e que de outra forma não teriam sido conquistadas), nesse momento mais belo, mais avançado e de maior modernidade da História de Portugal que foi a Revolução de Abril.
O medo da rua manifestado pelo Governo e a obsessão doentia com que o expressa, parecem indicar que se trata de um medo duplo e simultâneo: o medo de ser deitado para a rua por efeito daquilo que mais teme as grandes acções de rua das massas trabalhadoras.

O primeiro ministro e os seus ministros podem persistir na sua postura de fechar os olhos e os ouvidos face ao descontentamento generalizado provocado pelas consequências da sua politica.
Podem continuar a «ver» comunistas encapuzados nas centenas e centenas de milhares de portugueses que, das mais diversas formas, expressam o seu protesto e reivindicam os seus legítimos direitos.
Podem, incapazes de conter o nervosismo que os assola, desaustinados, desnorteados, continuar a bolsar insultos, ofensas e calúnias contra o PCP e contra os trabalhadores em luta.
Podem intensificar as práticas e medidas antidemocráticas, persecutórias, repressivas, em claro desprezo pela Constituição da República Portuguesa.
Mas não podem por muitos argumentos anti democráticos a que deitem mãos impedir a continuação da luta de massas.
E a luta de massas como eles muito bem sabem e receiam é, simultaneamente, o caminho da liberdade e da democracia e o caminho para a derrota da politica ao serviço do grande capital e para a sua substituição por uma politica ao serviço dos trabalhadores, do povo e do Pais.


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