• Gustavo Carneiro

O grande desafio da célula é crescer, trazendo mais trabalhadores ao Partido
Na Yazaki Saltano de Ovar
a célula do Partido impõe-se passo a passo
Conquistar terreno à exploração
A célula do Partido na Yazaki Saltano de Ovar é pequena em número mas grande na influência e prestígio que goza junto dos trabalhadores. O seu espaço na empresa foi ganho ao longo do tempo, com a persistência e a têmpera necessárias a quem diariamente trava a luta de classes combatendo a exploração.
«A célula é a organização de base do Partido, é o seu alicerce e o elo fundamental da ligação do Partido com a classe operária, com os trabalhadores, com as massas populares, é o suporte partidário essencial para promover, orientar e desenvolver a luta e a acção de massas.»

Estatutos do PCP, Artigo 46.º


A célula do Partido na Yazaki Saltano de Ovar, empresa multinacional que trabalha para a indústria automóvel, existe já desde o início da década. Mas foi após o XVII Congresso do Partido, quatro anos depois, que a sua actividade se tornou mais regular e intensa.
Américo Rodrigues, membro da célula e dirigente sindical, lembra que antes de a célula funcionar com regularidade era inimaginável falar-se do Partido no interior da empresa. «Agora já não é assim», salienta: «Já há documentos em cima das mesas, editamos o nosso boletim com regularidade e as conversas dão-se.»
Durante a campanha para as eleições presidenciais, chegou-se mesmo a fazer um documento de apoio a Jerónimo de Sousa com as fotografias dos trabalhadores da empresa que apoiavam a candidatura comunista. Nem todos eram do Partido.
Desengane-se quem pensar que o trabalho partidário é fácil na Yazaki. Tratando-se de uma empresa de mão-de-obra intensiva, os contactos têm de ser feitos nos intervalos ou no final dos turnos e «temos que seleccionar muito bem com quem falamos», afirma Américo Rodrigues. Mas uma coisa é certa: «o Partido não pode ficar à porta. E neste momento podemos dizer que o Partido está na empresa.»
Filipe Vintém, responsável pela célula na Direcção da Organização Regional de Aveiro do PCP, acrescenta que noutras empresas da região não há a mesma receptividade aos documentos do Partido que se verifica na Yazaki, quer sejam específicos da empresa quer se trate da propaganda mais geral do Partido. «Isto quer dizer alguma coisa», valorizou o responsável. Por diversas vezes, vendas especiais do Avante! à porta da empresa, resultam em dezenas de exemplares vendidos aos trabalhadores.
Para Américo, o prestígio e o espaço que a célula do Partido ganhou na empresa foram conquistas dos comunistas da Yazaki e do próprio crescimento do Partido a nível nacional. Também a melhoria da ligação com a Comissão Concelhia de Ovar e com a Direcção Regional de Aveiro imprimiu uma dinâmica mais forte ao trabalho da célula.

O desafio de crescer

O maior desafio da célula do Partido na multinacional japonesa é crescer. Mais um camarada foi integrado, recentemente recrutado para a JCP.
Filipe Vintém valoriza o alargamento verificado no trabalho da célula. «Os trabalhadores conhecem-nos e têm contacto connosco, o que é muito importante», salienta. Mas reconhece que nem sempre isso se reflecte em novas adesões ao Partido.
Segundo o responsável, a Yazaki tem «características muito especiais, onde quase não dá para ter contacto com os trabalhadores, nem sequer ao portão». Para evitar estes contactos «indesejáveis», a administração decidiu fazer com que os autocarros especiais que transportam os trabalhadores passassem a entrar no recinto da empresa. Não há muitos anos, lembra Filipe Vintém, nenhum autocarro entrava no portão. Agora, são mais de dez.
Também o momento que se vive na empresa se reflecte na maior ou menor receptividade ao Partido. Se há uns tempos, a luta fervilhava no seu interior, devido ao despedimento colectivo verificado no ano passado, as coisas agora estão mais calmas. Agora, vive-se um período de expectativa quanto ao futuro dos postos de trabalho, afirma o dirigente partidário.
Para Filipe Vintém, «estas são situações que podemos alterar, com a intervenção do Partido e talvez com uma atitude mais ofensiva por parte da célula». Para este ano, está já definido o objectivo de trazer pelo menos mais dois trabalhadores para o Partido. Américo Rodrigues afirma ser fundamental, para cumprir e mesmo superar essa meta, analisar quem são os trabalhadores que mais se destacam na luta e depois abordá-los para virem ao Partido.

Trabalhadores confiam nos comunistas
Mobilizar para a luta pelo emprego

Dos cinco activistas sindicais existentes na Yazaki – entre dirigentes e delegados – quatro são militantes do PCP. Américo Rodrigues foi, juntamente com outro, que já não trabalha na empresa, o primeiro delegado sindical da Yazaki. Corria o ano de 1996. Benjamim Rodrigues entrou cerca de dois anos depois.
Para os dois comunistas, também o sindicato teve que forçar a sua entrada na empresa. Ao início, lembra Américo Rodrigues, até no parque a administração pretendia impedir que os activistas sindicais fizessem o seu trabalho.
«A realização de plenários também foi uma conquista, antes não se faziam», recorda o sindicalista. Quando se começaram a fazer, a administração «arranjou» outro sindicato para impedir que os plenários se realizassem, pois na altura tinha que haver acordo entre todos os sindicatos. O mesmo se passava com as eleições sindicais. Antes impedidas, hoje são uma realidade.
Certo é que, actualmente, o sindicato é uma presença constante e forte na Yazaki. «Já conseguimos influenciar de forma a fazermos grandes lutas», destaca Américo Rodrigues, lembrando algumas concentrações com milhares de trabalhadores e os cortes de estrada.
A última foi no ano passado, quando a empresa pretendeu levar a cabo um despedimento colectivo de 500 trabalhadores. O Partido e o sindicato trabalharam intensamente para que aquele despedimento não avançasse. Houve plenários e concentrações. Arménio Rodrigues destaca que «ainda conseguimos defender mais de cem postos de trabalho».
Em sua opinião, os trabalhadores que estiveram directamente ligados ao processo do despedimento «perceberam a nossa luta em defesa dos postos de trabalho», apesar de ter havido aqueles que preferiram sair. «E mesmo para esses conseguimos que saíssem com valores mais altos do que aqueles que a empresa propunha», valoriza o dirigente sindical.

Aprender sempre

Para Outubro, está previsto outro despedimento, já confirmado à estrutura sindical. «Aprendemos muito com o último despedimento e vamos trabalhar para que não se repita uma situação semelhante», avança Américo Rodrigues.
Em Novembro passado, na empresa de componentes eléctricos, que funciona ao lado da empresa-mãe e onde há apenas um representante sindical, a administração quis aplicar uma alteração de horários, impondo as 12 horas de trabalho. Foram feitos comunicados e houve plenários em todos os turnos, muito participados. Ao ver a dimensão da contestação e perante a ameaça de luta, a administração recuou.
Também deste processo os comunistas retiraram lições. Se por um lado, o receio da administração testemunha a força do sindicato na empresa, por outro lado «não soubemos potenciar bem esta vitória». Muitos trabalhadores, garantem, não associaram esse recuo ao temor da sua luta. «Quando os trabalhadores não estão envolvidos directamente na luta, é mais complicado perceberem que aquela vitória também é resultado da luta», conclui Filipe Vintém.
Actualmente, vive-se uma situação de expectativa. Filipe Vintém considera que os trabalhadores da Yazaki temem pelo seu futuro e retraem-se, «pensando que assim defendem melhor o seu posto de trabalho». Prosseguindo, o responsável realça que os trabalhadores «recordam o que aconteceu com o despedimento dos seus colegas da fábrica de Serzedo, em Gaia, e vêem a situação em que estão os que saíram da fábrica de Ovar e que supostamente teriam emprego assegurado no Centro Comercial Dolce Vita». Na melhor das hipóteses, garante, estão lá dez por cento deles.
Mas todos acreditam que voltará a haver grandes lutas na Yazaki ainda este ano, quando estiver para avançar o despedimento.

Resistir à perseguição

A administração da Yazaki Saltano convive mal com a influência do sindicato e do Partido junto dos trabalhadores. E tem tentado, por todas as formas, quebrar a vontade aos principais activistas. Os métodos, esses, são dos mais variados, da perseguição à sedução, vale tudo.
Benjamim Rodrigues travou, no ano passado, uma forte luta com a administração, que o queria despedir. O pretexto foi a sua recusa, juntamente com outra trabalhadora – igualmente membro das estruturas sindicais e da célula do Partido – em deixar o turno da noite e transferirem-se para a fábrica de Gaia.
Ao início, «nem nos queriam deixar entrar na fábrica», conta Benjamim. Depois, foram ambos postos numa sala sem fazer nada e impedidos de entrar na zona de produção, com o argumento de que o seu posto de trabalho se encontrava «extinto». Das 17 à 1 da manhã, recorda. E sem receber o salário.
Forçada a desistir do seu despedimento, a administração da Yazaki castigou Benjamim durante um mês. Em Julho, Benjamim Rodrigues regressou ao trabalho, não sem antes lhe terem oferecido «o que quisesse» para sair. Recusou.
A outra trabalhadora foi mesmo despedida, dando início a uma intensa batalha na empresa e nos tribunais pela sua reintegração. «Eles foram recorrendo das decisões dos tribunais para a reintegração da Sara porque estavam prestes a avançar com o despedimento colectivo e eles sabiam que se ela fosse reintegrada isso daria mais força aos trabalhadores para lutar pelos postos de trabalho», afirma Benjamim. Após o despedimento colectivo, a militante comunista e activista sindical acabaria por ser reintegrada.
Américo Rodrigues lembra que todos os sindicalistas da empresa já foram «convidados a sair». Ele já o foi duas vezes a troco de dinheiro. Também recusou. Durante dois anos, «estive sem fazer nada ou a desempenhar funções que não eram as minhas. Até me puseram a cortar pinheirinhos na zona atrás da fábrica».
No ano passado, a administração não conseguiu despedir os representantes sindicais. Mas, apesar disso, deixou mossa, ao atacar os sectores onde tinha havido mais contestação. No final do ano, vão voltar a tentar atingir as estruturas dos trabalhadores. E nessa altura, haverá luta!


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