Sócrates nada disse sobre o que preocupa os portugueses
Moção de censura do PCP ao Governo
Muitas razões para condenar política anti-social
A moção de censura do PCP ao Governo foi chumbada pela maioria PS, com a abstenção do PSD e CDS/PP e os votos favoráveis das restantes bancadas. Esse resultado, com a actual composição parlamentar, era inevitável. Nada que tenha reduzido o alcance ou o efeito político pretendido pelos comunistas. No País, a moção foi compreendida, aceite e acarinhada. Mereceu o respeito dos trabalhadores e do povo. Porque deu voz ao seu protesto, ao seu descontentamento e à sua revolta.
O debate e a forma como este decorreu encarregaram-se, aliás, de comprovar a justeza e a oportunidade desta iniciativa parlamentar do PCP.
«Três anos é um tempo curto na nossa vida. Mas é tempo suficiente para avaliar, julgar e censurar este Governo que tornou o País mais desigual, injusto e menos democrático», sublinhou logo no arranque do debate o Secretário-geral do PCP (ver extractos da sua intervenção nesta página), firme na condenação a uma política que em sua opinião trouxe «acrescidos e escusados sacrifícios e dificuldades para a generalidade dos portugueses», agudizando simultaneamente os principais problemas sociais.
Foi essa realidade que o Grupo Parlamentar do PCP transportou de forma muito documentada para o debate da moção de censura, que «veio no tempo certo», como salientou o seu presidente, Bernardino Soares, convicto de que não faltam «muitas e boas razões» para condenar de forma global a política do Executivo PS.
Reflectindo o sentimento popular de contestação, foi esse quadro detalhado sobre a situação do País que preencheu as muitas intervenções dos deputados comunistas. Falaram do aumento do custo de vida, dos baixos salários e reformas, do desemprego, da destruição de serviços públicos essenciais, dos ataques aos direitos e liberdades, das inaceitáveis alterações que agravam a legislação laboral.
E pondo o acento tónico na necessidade de travar esta política, defenderam com veemência uma ruptura que abra caminho a uma nova política.
Tudo isto perante um primeiro-ministro que mostrou uma vez mais lidar mal com a crítica e que se tornou useiro e vezeiro no recurso a um truque já muito batido: ignora as questões concretas que lhe são colocadas e divaga sobre o que lhe convém, em exercícios de pura propaganda e auto-elogio. Acrescenta-lhe quase sempre uma boa dose de vitimização («O PCP há 30 anos que faz do PS o seu inimigo», é uma frase feita disso exemplo), revelando ainda um jeito especial para distorcer e caricaturar as posições dos adversários, sem falar das cada vez mais frequentes tiradas de pendor anticomunista.
Ouviu-se assim o chefe do Governo, em resposta às críticas do PCP, afirmar que os comunistas o que querem é «pressionar e condicionar» o movimento sindical, repetindo que a moção de censura é dirigida não ao Governo mas contra a concertação social.
E conseguiu a proeza de nada dizer sobre a censura política nos planos económico e social que logo no início do debate fora feita em termos exaustivos por Jerónimo de Sousa.
«Um silêncio de chumbo», como de resto o dirigente comunista observou, não deixando de chamar a atenção para o facto de Sócrates nada ter dito sobre as questões que preocupam os portugueses.
Como é o caso, sublinhado por Bernardino Soares, do «espectro da fome», do «medo da “panela rapada”», consequência de uma pobreza, «escondida ou assumida» que se agrava de forma dramática, enquanto, paralelamente, «há quem beneficie da desgraçada política deste Governo», como sucede com a banca e os grandes grupos económicos.


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