• Correia da Fonseca

Uma entrevista diferente
No estado a que chegou a televisão portuguesa, os programas de entrevistas com figuras mais ou menos públicas ainda são dos momentos com maior interesse, mesmo considerando que os entrevistados são recrutados num limitado universo dominado por aquilo que talvez possa ser designado por establishment. De qualquer modo, não é mau e em princípio até é proveitoso que ouçamos o que nos querem dizer esses convidados para os estúdios das três operadoras nacionais de TV, mesmo que a presença de alguns deles se repita para além do que a natural resistência à náusea aconselha. Apenas se torna necessário, como bem se compreende, que os ouçamos com as cautelas que as circunstâncias imponham, sabendo quem são, de onde vêm e para onde querem ir. Para além desta precaução, e apenas para que entendamos o motivo por que entrevistas, debates e momentos equiparáveis, se tornaram mais frequentes de há uns anos a esta parte, e apenas porque entender as coisas é sempre saudável, convém lembrar que este tipo de programas é barato, pode ocupar um significativo tempo de emissão, e que a vida está cara também para as estações de televisão. Mas também não é decerto irrelevante que a escolha dos convidados, no antecipado conhecimento da área ideológica em que eles se situam, pode ser um bom contributo para a lavagem de cérebros a que os media permanentemente se aplicam com objectivos de que só não se apercebem os distraídos: abominação dos comunistas e do comunismo, «pluralismo» limitado à área que supostamente o merece e que se reduz aos súbditos aliás numerosos da «economia de mercado», pseudónimo galante do capitalismo, e da democracia de «modelo atlântico».

As palavras de Carpeaux

Neste quadro capaz de ser um pouco deprimente, mas que o será ainda mais se não nos lembrarmos de que a todos os tipos de opressão corresponde sempre um movimento de indignação que esclarece e motiva, ocorrem excepções. Algumas delas acontecem por força de regras de cariz institucional, como são designadamente as entrevistas a Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP. Outras, mais raras, decorrem de motivações outras, em princípio mais nobres, e tendem a ir ao encontro da prática de um verdadeiro pluralismo. É neste último caso que sem dúvida se inscreve a recente entrevista a Miguel Urbano Rodrigues incluída no programa «Dia D» da SIC-Notícias. Nós todos, leitores deste jornal e militantes deste Partido, sabemos em maior ou menor grau quem é o Miguel Urbano, aprendemos a admirar a sua qualidade de intelectual e de militante comunista e, assim, ao assistirmos a esta entrevista apenas teremos tido oportunidade de reavivar a memória se porventura ela se tiver desgastado um pouco. Porém, para outros telespectadores aquele «Dia D» pode ter sido uma revelação: o discreto brilho das palavras do entrevistado, a apenas entremostrada vastidão da sua cultura, a tranquila firmeza das convicções apoiadas simultaneamente num rigoroso sentido ético e nas suas muitas sabedorias, o conhecimento das coisas não apenas pelos livros mas também pelo directo conhecimento da vida, foram um espectáculo que apetece qualificar como de uma grandeza arrasadora que aliás pareceu impressionar a própria jornalista. Terminada a entrevista, foi inevitável desejar que ela se prolongasse por um período tempo pelo menos igual ao já decorrido, tanto fora o que ali tínhamos aprendido e tão gratificante havia sido o contacto, ainda que apenas pela TV, com um homem daquela evidente grandeza. Para mais, sabendo-se como as coisas são, é improvável que tão cedo não se tenha oportunidade de voltar a ver e ouvir Miguel Urbano Rodrigues na TV; de onde, no final da entrevista, um sentimento de antecipada saudade. Por mim, ocorreu-me uma frase que, um dia, o crítico literário Otto Maria Carpeaux, austríaco naturalizado brasileiro, escreveu a propósito de José Lins do Rego: “Lembremo-nos bem. Nunca mais veremos um homem assim”.


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