Manifestantes acusaram EUA e aliados de crimes de guerra
Supremo Tribunal e protestos contrariam Bush
Aumenta o repúdio a Guantanamo e à ocupação
O Supremo Tribunal dos EUA decidiu que os detidos de Guantanamo têm direito a recorrer nos tribunais civis norte-americanos, contrariando a administração Bush, contestada na Europa pelos crimes cometidos na chamada «guerra contra o terrorismo» e no Iraque pela chantagem visando manutenção da ocupação.
Dias depois de um tribunal militar instalado em Guantanamo ter começado a julgar cinco presumíveis envolvidos nos atentados de 11 de Setembro em Nova Iorque, entre os quais Khalid Sheikh Mohammed, tido como o cabecilha da operação, a máxima instância judicial norte-americana deslegitima o julgamento iniciado na base naval.
A decisão tomada quinta-feira, 12, pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos, representa um duro golpe contra a administração Bush e a interpretação da Casa Branca no que concerne aos direitos dos detidos em Guantanamo, não apenas pelo seu conteúdo, mas também pela consistência com dois acórdãos anteriores sobre a mesma matéria.
O que o Supremo aprovou, por cinco votos contra quatro, foi a suspensão de uma lei, em vigor desde 2006, usada por Washington para impedir que os 270 presos possam recorrer aos tribunais civis. «As leis e a Constituição são pensadas para sobreviver, e continuar em vigor, mesmo durante circunstâncias extraordinárias», disseram os juízes.
Reagindo à decisão que abrange os 270 homens em cativeiro desde 2001, a Alta Comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Louise Arbor, considerou que agora os detidos têm caminho aberto para contestarem no sistema judicial regular dos EUA a sua permanência em Guantanamo, e que a apreciação sobre a situação deve ser o mais célere possível.
A sentença do Supremo surgiu na mesma semana em que o Comité da ONU para os Direitos da Criança criticou os EUA por manterem encarcerados no Iraque, Afeganistão e Guantanamo várias crianças.
De acordo com os dados divulgados por Radhika Coomaraswamy, representante especial das Nações Unidas, só no Iraque encontram-se presas mais de 1500 crianças, um terço das quais sob vigilância directa do exército norte-americano.
Acresce, de acordo com Coomaraswamy, que os menores são considerados por Washington como prisioneiros de guerra e julgados em tribunais militares sem qualquer contemplação pelos direitos fundamentais inerentes a qualquer ser humano e pelo facto de se tratarem de meninos soldados.

Ocupantes e aliados

Entretanto, esta semana, George W. Bush chegou a Inglaterra para uma visita ao fiel aliado nas guerras de invasão e ocupação do Iraque e Afeganistão, naquela que será muito provavelmente a sua última visita oficial antes de abandonar a sala oval.
Para além de uma operação de (chá)rme com a monarca Isabel II no Castelo de Windsor, o presidente norte-americano jantou com Gordon Brown na residência do primeiro-ministro britânico. Como entrada, Bush brindou Brown com uma entrevista no The Observer onde afirma estar «confiante de que, tal como eu, [Brown] escutará os nossos comandantes para assegurar que os sacrifícios feitos até agora não tenham sido em vão», isto é, é melhor o governo de Londres nem equacionar o estabelecimento de um calendário para a retirada do Iraque.
Na capital inglesa e na capital da Irlanda do Norte, Belfast, onde Bush também esteve, ocorreram manifestações de repúdio ao presidente norte-americano, acusando-o de, juntamente com Blair, ser responsável por crimes de guerra no Iraque, Afeganistão, nas prisões secretas do Leste da Europa e do Magrebe, e exigindo o fim das ocupações e o encerramento imediato de Guantanamo.

Milhares contra governo e ocupação

Os protestos que acompanharam a passagem de Bush pela Europa sucederam à manifestação que, no passado dia 6, milhares de iraquianos realizaram na cidade de Kerbala, a Sul de Bagdad.
Os populares contestaram veementemente um possível pacto entre os EUA e o governo colaboracionista do Iraque cujo objectivo é perpetuar a presença norte-americana no território. Os termos do alegado pacto legitimariam a manutenção no Iraque de mais de 150 mil soldados, cerca de 50 bases militares e milhares de mercenários gozando de imunidade legal e liberdade de actuação.
Fontes do governo iraquiano informaram que o acordo não será aceite, mas segundo o The Independente, os EUA têm um valioso trunfo. O periódico britânico noticiou que no Banco da Reserva Federal de Novo Iorque, Washington mantém cativos qualquer coisa como 50 mil milhões de dólares do Iraque, montante que estará supostamente a ser usado como forma de pressão sobre Bagdad para que subscreva a condição de país eternamente ocupado.


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