• Miguel Inácio

Espaço da Ciência e Tecnologias aborda os cinco sentidos
«Sentir a vida, transformar o mundo»
Com o lema «Sentir a vida, transformar o mundo», o Espaço da Ciência e Tecnologias vai, este ano, acolher uma exposição sobre os cinco sentidos (visão, audição, olfacto, paladar e tacto). Em entrevista ao Avante!Augusto Flor, Sílvia Silva, Joana Dinis, Anabela Silva, Alice Figueira, Aurora e Patrícia Barbado desvendaram os «segredos» do espaço, um dos mais interactivos e procurados, durante os três dias, pelos visitantes da Festa.
«Através dos cinco sentidos temos a capacidade e a percepção da vida e do mundo que nos rodeia. No entanto, não basta percepcionar e compreender, temos, de igual forma, que transformar o que está mal no mundo», afirmou Augusto Flor, referindo que o tema foi escolhido tendo em conta, como não poderia deixar de ser, «os aspectos de ordem e de oportunidade política».
Sobre a exposição, sublinhou que a estrutura do espaço parte do ponto de vista da ciência e da tecnologia. «Vamos demonstrar o composição, a organização, a estrutura, a sistematização de cada um dos sentidos, a influência que eles têm na nossa vida, em todos os nossos comportamentos e atitudes, e também o que acontece na ausência deles», acentuou, dando o exemplo da deficiência, congénita ou provocada, «por sinistralidade no trabalho, rodoviária ou por uma qualquer causa».
Naquele espaço, que, assim como na edição anterior, fica junto ao lago, vai ser possível ver e analisar «sentido a sentido». «Não é apenas ciência pela ciência ou tecnologia pela tecnologia, é isto visto num todo, de uma forma integrada, que tenha a ver com a vida», disse Augusto Flor.
A primeira parte da exposição vai focar os sentidos e o cérebro. «Percepcionamos através dos sentidos, mas depois queremos assimilá-los para o cérebro», explicou Sílvia Silva, acrescentando: «Temos cinco áreas que dizem respeito a cada um dos sentidos, que iremos abordar, numa perspectiva científica, como é que é constituído o órgão sensorial, como é que funciona, como é que se faz a ponte entre os sentidos e o cérebro, o que acontece na limitação ou na ausência de um destes sentidos».
O visitante poderá ainda perceber como funcionam os sentidos nos outros animais. «Queremos que seja dada uma perspectiva bastante geral do tema, fazendo a ponte entre as áreas áreas: a fisiologia, a fisionomia, a química, a física», disse ainda Sílvia Silva.

Reagir a sensações

Existem ainda outros sentidos, considerados auxiliares, que também terão destaque na exposição. «Vamos tentar explicar como é que o nosso organismo reage a outras sensações e como é que os outros sentidos se relacionam com os principais», frisou Joana Dinis, dando o exemplo das reacções às variações de temperatura, à dor, à fome, à sede e ao equilíbrio.
Na exposição, em colaboração com o Núcleo de Física do Instituto Superior Técnico, vão também se realizar experiências, nomeadamente com o som e a luz. «Explorar como é que eles (os sentidos) funcionam, dando exemplos práticos. Perceber coisas que aparentam ser obvias e que, normalmente, não ligamos muito a elas», destacou.
Com a colaboração do professor Máximo Ferreira, o visitante da Festa do Avante! tem ainda a possibilidade de observar o céu e os astros.

Avanços tecnológicos

Numa perspectiva cientifica e tecnológica dos cinco sentidos, vão ainda ser abordados os avanços tecnológicos e a forma como estes poderão contribuir para a melhoria da qualidade de vida do ser humano, nomeadamente o olho e o ouvido biónico. «Esta tecnologia tem a convergência de várias ciências como a biologia, a física, a informática e a economia», comentou Anabela Silva.
Na exposição haverá, de igual forma, referência sobre às curiosidades de cada sentido. No caso dos invisuais, por exemplo, «como é que eles utilizam o tacto para a leitura». «Os pontos do sistema braille têm uma distância que é para os receptores não se confundirem», informou.
Os sentidos dos animais também vão estar presentes nesta mostra. «O chamado “terceiro olho” dos répteis, no centro da cabeça, funciona como um relógio biológico que controla a reprodução e a hibernação», revelou Anabela Silva.
Ali, os mais pequenos encontrarão ainda um espaço, relacionado com o tema, com jogos e ateliers.

A ciência e as artes

Porque a arte está, directamente, relacionada com a ciência e a tecnologia, no auditório do espaço vão passar vários filmes onde se exploram os sentidos. «Janela da Alma», «Luzes da Ribalta», «O Céu de Lisboa», «Filhos do Silêncio», «A Música e o Silêncio», «Perfume de Mulher», «Como Água para o Chocolate», «O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante», «Tampopo – Os Brutos Também Comem Esparguete», «Os Cinco Sentidos», «Chocolate» e «Um Toque de Canela», são algumas das películas a exibir.
Alice Vieira salientou ainda que vão estar expostas várias obras literárias, nomeadamente de José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira), de Alberto Caeiro (Guardados de Rebanhos) e de Virgílio Ferreira (A Esplanada sobre o Mar).
«E os olhos que vêem o cinema; os ouvidos que escutam a música; os dedos que sentem as formas; o gosto das palavras; o cheiro dos lírios do campo, estão presentes nas nossas memórias e nas nossas emoções perante o mundo que se vê, se sente, se ouve... e lá está a ciência a estudar o olho, a língua, o ouvido.. e como tudo se equilibra, mesmo quando falha algum...», proseou.
Por todo o espaço, ainda numa componente artística, estará patente um conjunto de esculturas, feitas com rede e ligadura de gesso, de autoria de Aurora Bargado. «O olfacto, a visão e a audição são em tamanhos grandes (80 centímetros). Para o tacto fiz mãos, com várias posições. Vai ainda ser executada uma cabeça, grande, para retratar o cérebro», revelou. O objectivo, adiantou, «é que estas peças tenham impacto quando as pessoas visitarem a exposição».

Mais e melhor

O espaço da exposição vai sofrer alterações. Com o objectivo de minimizar os vários problemas, ao grupo de trabalho juntou-se Patrícia Bargado. Segundo nos explicou, este ano, será resolvida, pelo menos espera-se, «a questão do barulho, da iluminação e da organização do espaço». «Na saída, por exemplo, a porta é mais pequena, para que as pessoas não tenham a tendência de entrar», apontou.

Ciência com componente política

No decorrer da entrevista, Augusto Flor destacou a «forte» componente política no Espaço da Ciência e Tecnologias, «de conhecimento mas também de construção da opinião política e das posições do Partido».
Nesse sentido, será abordada, inevitavelmente, a área da saúde, «desde as listas de espera até às questões das especialidades». «No fundo, tudo aquilo que tem a ver com os cinco sentidos e as respostas que a sociedade, nomeadamente o Serviço Nacional de Saúde, oferece ao cidadão», afirmou.
Numa outra área, do ponto de vista político, falar-se-à de deficiência. «No caso dos sinistralizados no trabalho, vamos ver como funciona a tabela de incapacidades das seguradoras. Iremos ainda apresentar um exemplo de como a luta de uma família permitiu que o Estado cedesse a aquisição de um equipamento tecnológico, altamente sofisticado, que permitiu a uma jovem surda-muda passasse a ouvir», revelou Augusto Flor.
Por fim, na exposição, a economia estará em destaque. «É através da economia e dos seus indicadores que nos apercebemos da importância da tecnologia ao serviço do ser humano. Hoje, existem tecnologias que, por razões de ordem económica e de classe não estão acessíveis a toda a gente», criticou.
Para o debate político, Augusto Flor valorizou a cooperação de algumas instituições ligadas à deficiência, ao trabalho, ao emprego, «não só na sua presença como na sua participação». «Teremos, certamente, três debates, um sobre “a ciência e a tecnologia ao serviço do ser humano” outro sobre “as questões da deficiência” e um outro sobre “a saúde”», revelou.
Para além de um momento de poesia, acontecerá uma conferência, a cargo do professor e astrónomo Máximo Ferreira, sobre os cinco sentidos. «Como é que nós, seres humanos, através dos nossos sentidos, nos apercebemos, percepcionamos toda a complexidade que a astronomia nos pode transmitir e também o inverso. E também como ela se reflecte através dos nossos sentidos», sublinhou.
No final da exposição, com os olhos postos no futuro, sendo este um instrumento de trabalho, será editado um CD com o teor da exposição.


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