Editorial

«Fazer sinal à esquerda e virar à direita»

CONDUÇÃO PERIGOSA

A prática de uma política de direita por um partido que se diz de esquerda, coloca os seus executores perante múltiplos desafios. Não apenas, nem essencialmente, os que têm a ver com sobressaltos que eventualmente assomem às suas consciências – já que, quem opta por uma prática oposta àquela que apregoa, fá-lo certamente… em consciência.
Os maiores desafios hão-de situar-se fundamentalmente na tentativa de explicação da contradição evidente e óbvia que é a de uma suposta opção política de esquerda se exibir, em matéria governativa, tão à direita (no mínimo) como a direita que assumidamente assim optou. Aí trata-se de explicar o inexplicável - coisa difícil mesmo com o recurso às mais inventivas escapatórias.
Que assim é, mostra-o a experiência de vários partidos nessas circunstâncias por esse mundo fora - e, em Portugal, a experiência concreta do PS e a sua perigosa prática de condução, fazendo sinal para a esquerda e virando sempre à direita.
Iniciador, há trinta e dois anos – com o Governo presidido por Mário Soares - da política de direita que tem vindo a destruir o que de mais positivo, avançado, moderno e progressista nos trouxe a revolução de Abril em todas as áreas da vida nacional, o PS tem tido um papel decisivo no desenvolvimento dessa política – nos governos, aplicando-a impiedosamente; na «oposição», apoiando-a sistematicamente.
E é paralelamente a essa prática concreta que, regra geral recorrendo a proclamações sonantes, vai invocando a sua suposta condição de partido de esquerda... como se tal invocação bastasse para anular a insolúvel contradição e lograsse esconder a brutal realidade.

Desde há muito tempo, e ultimamente com crescente frequência, os dirigentes do PS, especialmente quando o seu partido está no Governo, respondem aos argumentos dos seus interlocutores com uma declaração-tipo clássica: «Nessa matéria, o PS não recebe lições de ninguém» - fórmula com a qual se descartam de responder de facto ao que está em discussão e que lhes permite ostentar uma postura de altaneira e fingida superioridade. E mostra a realidade que tantas são as «matérias» em causa que bem pode dizer-se que o PS não recebe lições de ninguém seja sobre que matéria for. Mais e pior do que isso: o PS não só não recebe lições de ninguém sobre nada, como dá lições a toda a gente sobre tudo…
Estamos lembrados do tom e da pose com que Mário Soares afastava de si qualquer lição e proferia a inevitável declaração-tipo, arvorando uma irritação cuidadosamente ensaiada se o que estava em causa era a democracia e os princípios democráticos, matéria sobre a qual ele sempre se apresentou como mestre carregado de reluzentes galões - particularmente quando, pela prática política e governativa, desprezava e violava de forma brutal esses mesmos princípios. E o mesmo se passou com o primeiro-ministro António Guterres, useiro e vezeiro no recurso ao mesmo arsenal argumentativo e de pose.
E em ambos os casos, o que na realidade acontecia é que enquanto repeliam, grandíloquos, todas as lições que tinham a ver com os interesses dos trabalhadores, do povo e do País, prodigalizavam efusivas lições em matéria de aplicação da anti-social, anti-popular e anti-democrática política de direita, logrando, nas questões essenciais ir sempre mais longe e mais fundo do que os governos do PSD.

E assim é, aliás num estádio muito mais avançado de malfeitorias, com o actual Governo PS/José Sócrates. O que há de novo (digamos assim) na situação actual é que a tal declaração-tipo - recorrente no discurso de Sócrates – passou a ser muleta oratória de vários dos seus subalternos, que o imitam na frase, nos gestos e, até, em alguns casos, no tom de voz - a confirmar que até no pior pano cai a nódoa…
Há dias, a propósito das novas leis contra a corrupção, lá veio o ministro de serviço afirmar que «nessa matéria o PS não recebe lições de ninguém» - curiosamente, desta vez disparando contra um colega de partido...; antes tinham sido outros, nomeadamente um que, rejeitando lições de democracia se auto-proclamou professor da cadeira, tornando pública a dívida contraída pelo povo português para com os que lhe deram a liberdade e a democracia, que foram, como fez o favor de ensinar, uns quantos dirigentes do PS - escolhidos de entre aquele naipe de reservistas a que é uso recorrer nestas alturas e que, por isso mesmo, constituem autênticos seguros de vida de esquerda do PS.
Sublinhe-se que em todos estes casos, a referida declaração-tipo é repetida como se se tratasse de verdade universal, incontestável e incontestada – bastando para isso ser proferida por quem é…

Entretanto, e como a incontornável realidade evidencia, o Governo PS/Sócrates prossegue a sua política de violação constante e brutal dos direitos de quem trabalha e vive do seu trabalho; de destruição de serviços públicos essenciais; de agravamento das condições de vida da imensa maioria dos portugueses – e de crescimento escandaloso das fortunas da imensa minoria; de empobrecimento do conteúdo democrático do regime; de submissão do País aos ditames do imperialismo internacional com o envolvimento em guerras de ocupação à custa de centenas de milhares de vítimas inocentes - e tudo isto, e muito mais, feito em ostensivo desprezo e desrespeito pela Constituição da República Portuguesa.
Mas sem receber lições de ninguém sobre nada...
A não ser, é claro, as lições emanadas dos centros de decisão do grande capital nacional e internacional – que essas são para ouvir atentamente e para cumprir religiosamente. Como o estado do País mostra.


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