É cada vez mais difícil a acção de quem trabalha e isso reflecte-se no acesso e criação de cultura e lazer
Avanteatro
<font color=0094E0>Palco de intervenção cultural e política</font>
A cinco semanas da abertura da Festa do Avante!, redobram-se os esforços para que nos dias 5, 6 e 7 de Setembro a Quinta da Atalaia abra as portas aos milhares de pessoas que durante três dias participam na maior iniciativa política e cultural do País. No Avanteatro ultima-se o programa dos espectáculos que este ano vão do teatro à dança, passando pela música e pelo o cinema documental, fazendo do chapitô da Festa um palco de intervenção política e cultural, revelaram Manuel Mendonça e Pedro Lago em conversa com o Avante!.
Aberto às artes de palco nas suas várias modalidades, o Avanteatro afirma-se mais uma vez na Festa como um espaço multifacetado, capaz de acolher diversas expressões artísticas sem as compartimentar, pelo contrário, fazendo-as convergir de forma harmoniosa.
Talvez assim seja porque desde a primeira Festa do Avante!, na base do projecto, ano após ano, esteja a marca fraterna do contributo militante, «estejam os actores, técnicos e outros profissionais de teatro que desde sempre participam aos vários níveis do funcionamento do Avanteatro» e com o Partido ousam concretizar a Festa, recebendo como principal gratificação «a adesão esmagadora do público», prova inequívoca da «apetência dos visitantes para os espectáculos que apresentamos», explica Manuel Mendonça.
O caminho percorrido até aos dias de hoje é longo e feito de uma história exaltante. Desde os tempos em que «nos palcos das organizações se representavam pequenos quadros das peças de teatro que estavam em cena», passando pela criação de um espaço próprio, há já largos anos, até à confirmação do Avanteatro como pólo divulgador «do melhor que fazem alguns grupos e companhias espalhados por esse país fora», lembra o membro do Colectivo do Avanteatro.

Uma montra das artes e do país

Essa é, aliás, uma das características que mais sobressaem. O Avanteatro como montra que proporciona «visibilidade às artes em Portugal, seja no campo da música, do teatro, da dança, ou outro, uma vez que são milhares de pessoas que por aqui passam ficando a par de projectos que de outra forma lhes seriam estranhos», porque, nota ainda Manuel Mendonça, «na imprensa, rádio e televisão, dão um conhecimento escasso do muito que se faz, e, assim, projectos com grande qualidade são votados ao esquecimento».
«É importante que o Centro Dramático do Algarve traga à Festa O Príncipe de Spandau, uma vez que nós, comunistas, temos a obrigação de furar esse cerco montado pelos órgãos de comunicação social dominante em torno das actividades culturais, e dar às companhias a visibilidade e o ânimo necessário para continuarem», exemplifica.
«Há um esforço muito grande da Festa, neste caso particular do Avanteatro, em conseguir uma diversidade regional como forma de afirmação de uma cultura que está ostracizada, abandonada pelo poder, e que nós tudo fazemos para que se valorize trazendo, nesta edição, grupos de Palmela, do Pinhal Novo, de Almada, de Lisboa, de Linda-a-Velha, de Coimbra, de Leiria ou do Algarve» complementa Pedro Lago, da Direcção da Festa do Avante!.
«Qualquer peça levada à cena na Festa tem sala invariavelmente cheia, e isso prova que há público para todo o tipo de espectáculos, assim lhes sejam proporcionadas condições materiais para usufruírem da cultura, e gozem os profissionais do sector de condições laborais», acrescenta.
«É cada vez mais difícil a acção de quem trabalha e isso reflecte-se no acesso e criação de cultura e lazer. Da nossa parte procuramos remar contra a maré e, de certa forma, com o Avanteatro na Festa penso que conseguimos», considera ainda Pedro Lago.

Variedade e qualidade

A qualidade e a diversificação dos projectos que ocupam durante três dias o palco do Avanteatro são critérios fundamentais na construção do programa, garantem Pedro Lago e Manuel Mendonça.
Em destaque estarão O Tinteiro, levado à cena pelo Grupo de Teatro Intervalo, e Obviamente demito-o!, pela Barraca, peças que visam assinalar, respectivamente, os 47 anos da fundação do Teatro Moderno de Lisboa e os 50 anos da campanha de Arlindo Vicente e Humberto Delgado para as presidenciais de 1958 (ver caixa).
Sublinhado, igualmente, para o teatro de rua com o Comedor de Pecados, da Projectos de Intervenção Artística (PIA), e pelo já referido Centro Dramático do Algarve, para O Príncipe de Spandau, «uma denúncia do que foi o nazi-fascismo, e qual é o tratamento que alguns dos seus mentores tiveram quando se pensava que se havia conseguido acabar com Hitler e seus capangas», revela Manuel Mendonça sobre a peça.
Num tempo em que o branqueamento da história pretende reabilitar o fascismo e os valores ultra-conservadores, importa continuar a combater «o racismo, a xenofobia e criminalização das culturas e dos povos com diferentes maneiras de estar, agir e expressar-se», aduz Manuel Mendonça, por isso vêm bem a propósito outros dois trabalhos presentes este ano no Avanteatro.
«A comédia do verdadeiro Santo António, trazida pelo GEFAC - um grupo importante na divulgação da música e das artes de espectáculo popular -, e representada em mirandês, dialecto que o fascismo reprimiu, mas que hoje é reconhecido e ensinado nas escolas; e, ao nível da dança, o Íman, projecto que assenta na valorização da multiculturalidade, feito com jovens da Cova da Moura na base da dinâmica que estes já tinham, há cerca de dois anos, na Associação Cultural Moinho da Juventude onde cultivavam o gosto pelo hip hop e pelas danças africanas», explica.
«É também este o papel do teatro, ser ao mesmo tempo mágico e incómodo, mantendo o condão de afrontar o poder instituído através da força da palavra e do ser humano a contar uma história», conclui Manuel Mendonça.


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