As políticas do BCE conduziram a economia para um beco
Principais economias contraem-se
Europa mergulha na recessão
Um ano após o rebentamento da bolha imobiliária nos EUA, que provocou uma crise financeira sem precedentes a nível mundial cujos efeitos persistem, as principais economias da UE contraem-se, trazendo a recessão à zona euro.
O gabinete de estatísticas europeu, Eurostat, anunciou dia 14, que o conjunto dos 15 países da zona euro registou uma diminuição do Produto Interno Bruto de 0,2 por cento em relação ao primeiro trimestre do ano.
Trata-se do pior resultado registado desde a criação da zona euro em 1999, que já tinha chegado ao crescimento nulo no segundo semestre de 2003.
Embora tecnicamente a recessão só comece após dois trimestres consecutivos de redução do PIB, a verdade é que mesmo os especialistas da Comissão Europeia reconhecem que «os sinais são negativos».
O pessimismo decorre sobretudo do facto de as grandes economias europeias terem já entrado na zona vermelha. Entre Abril e Junho, a França (0,3%) e a Alemanha (-0,5%) registaram uma diminuição da actividade económica. A Itália (-0,3%), Holanda (0,0%), Irlanda (-0,2%), Dinamarca (-0,6), Suécia (0,0%), Estónia (-0,9%) e Letónia (-0,5%) têm as economias estagnadas ou já em recessão.
Também a Grã-Bretanha (0,2%), está ameaçada de recessão segundo a previsão divulgada na segunda-feira, pela Câmara de Comércio Britânica. Este organismo sublinha que a crise virá o mais tardar até ao início do próximo ano, mas o cenário poderá agravar-se caso o Banco de Inglaterra não reduza as taxas de juro. O desemprego deverá afectar mais cerca de 300 mil pessoas nos próximos 18 meses, ultrapassando os dois milhões de desempregados, referiu a mesma entidade.
Quanto aos restantes países da UE, de acordo com o Eurostat, à excepção da Eslováquia (1,9%) e da Lituânia (1,1%), a variação do crescimento está apenas algumas décimas acima do zero, como é o caso da Espanha (0,1%) que apresenta o menor crescimento dos últimos 15 anos.
Com 0,4 por cento, a ligeira subida da economia portuguesa face ao trimestre anterior
(-0,1%), não chega para afastar o perigo de recessão e torna praticamente impossível o alcance do objectivo de 1,5 por cento fixado pelo governo para 2008.

Crise económica e inflação recorde

Entre as razões da actual crise económica, os analistas referem o desinvestimento por parte das empresas e das famílias, cujo poder de compra tem sido sistematicamente reduzido pelas políticas de «contenção» salarial e sugado pelas subidas acentuadas das taxas de juro e dos preços dos produtos básicos, da energia e combustíveis.
Durante anos, os responsáveis do Banco Central Europeu limitaram o investimento público, apostaram na subida das taxas de juro e na moderação salarial, alegando a necessidade de controlar a inflação.
Em resultado destas políticas, o euro disparou face ao dólar dificultando as exportações europeias; o consumo das famílias diminuiu e as empresas foram confrontadas com dificuldades acrescidas no acesso ao crédito.
Mas a maior demonstração da total falência das teses do BCE, apenas preocupado em defender os interesses do capital financeiro, está no facto de que, apesar da sua retórica, a inflação disparou para níveis nunca antes observados desde a criação da zona euro, ultrapassando os quatro por cento, ao mesmo tempo que a economia se encaminhava para a recessão.
Agora, os gurus do BCE estão perante uma equação perigosa entre inflação e crescimento. Caso insistam na subida dos juros para travar a escalada dos preços, a economia mergulhará mais profundamente na recessão e dias ainda mais difíceis virão para os povos da Europa.

Resposta comum?

Alarmado com a degradação da economia, o primeiro-ministro francês, François Fillon, veio a público, na segunda-feira, 18, reclamar «uma resposta coordenada dos diferentes países europeus» à crise, considerando que cabe à França, que preside à União Europeia, «suscitar o debate em torno da coordenação das políticas económicas».
«Numa Europa unificada no plano económico, numa zona euro unificada no plano monetário, deve haver uma resposta coordenada», considerou o governante sem fazer nenhuma proposta concreta, embora lembrando que «é a primeira vez desde a criação do euro que a zona euro regista um resultado trimestral negativo».


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