Festa do Livro
Novidades e clássicos
Gustavo Carneiro

À semelhança dos outros espaços da Festa do Avante!, a Festa do Livro também deixou a sensação de estar sempre a transbordar. Independentemente da hora ou das atracções musicais que estivessem a actuar em qualquer um dos palcos da Atalaia. Jovens e nem tanto, militantes comunistas ou não, foram muitos os que a visitaram, porque os livros eram para todos os gostos e carteiras.
Como não podia deixar de ser, os clássicos do marxismo-leninismo tinham um lugar de destaque, logo à entrada da grande tenda. O primeiro tomo, de três que serão lançados, das Obras Escolhidas dos autores do Manifesto do Partido Comunista (cujos 160 anos de publicação se assinalou na Festa) foi uma das principais atracções para aqueles que entendem que transformar o mundo requer não só empenho e militância mas também muito estudo. E também, porque não, para alguns outros que não sendo comunistas, ou disso não tendo ainda consciência, consideram fundamental nos dias de hoje o conhecimento do pensamento de Karl Marx e Friedrich Engels.
O lançamento de Marx, Engels e o Desenvolvimento Histórico do Marxismo, de Lenine, suscitou igualmente o interesse dos visitantes. Esta obra, da responsabilidade das Edições Avante!, reúne textos do revolucionário russo onde se expõem traços essenciais da doutrina de Marx e Engels. A concepção materialista da história, a luta de classes, a teoria marxista do valor, a mais-valia e o socialismo são algumas das teorias explanadas genialmente por Lenine. Explicando e difundindo o marxismo, Lenine disseca também as suas perversões – o revisionismo e o reformismo.
Nas estantes dedicadas aos clássicos, havia muitos mais títulos disponíveis: do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, ao Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, de Lenine, passando por muitas outras obras destes autores.
Também Álvaro Cunhal voltou a estar em destaque. A estante onde se encontrava o primeiro volume das suas Obras Escolhidas (1935-1947) foi uma das mais procuradas. A reedição do seu livro A Questão do Estado, Questão Central de Cada Revolução, com prefácio de José Casanova, continuou a ser muito solicitada, apesar de não se tratar de uma obra recente. Porém, intemporal. Noutra obra, também muito pretendida, Lenine é o protagonista. Trata-se de Lenine e a Revolução, do catedrático francês Jean Salem, um interessante estudo sobre a actualidade do pensamento e da acção de Vladimir Ilitch Ulianov – Lenine.
Mas não só de doutrina política se fez a Festa do Livro. A literatura de combate voltou a estar em destaque. Várias obras da Colecção Resistência, das Edições Avante!, suscitaram novamente a procura dos visitantes. Destaque especial, mas não único, para os romances, contos e novelas de Manuel Tiago, pseudónimo literário de Álvaro Cunhal. Mas igualmente para muitos outros autores, nacionais e estrangeiros, que aliaram os seus dotes literários à sua determinação em contribuir, também dessa forma, para a transformação revolucionária da sociedade.
Em dezenas de mesas, milhares de títulos despertaram também a curiosidade e o interesse dos visitantes-leitores. Os temas e estilos eram quase tão variados como os próprios interessados. Dos romances à poesia, dos livros técnicos à literatura infantil, de tudo se fez, mais uma vez, a Festa do Livro.

Justas homenagens

Rogério Ribeiro e José Saramago foram duas figuras em destaque nesta edição da Festa do Avante!. Um e outro evocados no espaço mais nobre da Festa, o Pavilhão Central (ver páginas 6 e 7), a Festa do Livro não deixou passar em claro as homenagens a estes dois destacados militantes comunistas.
José Saramago, nos dez anos da atribuição do Prémio Nobel, voltou a ser um dos autores mais procurados pelos visitantes e os livros ilustrados por Rogério Ribeiro mereceram também um lugar especial. Até Amanhã, Camaradas, de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal, O Ano de 1993, de José Saramago, e Crónicas, de Fernão Lopes, eram as obras presentes magistralmente ilustradas pelo pintor comunista, recentemente falecido. Também foi possível adquirir serigrafias de Rogério Ribeiro de algumas gravuras criadas para a obra de Manuel Tiago.

Cinco novos livros das Edições Avante!
Lançamentos e apresentações

Das cinco obras lançadas pelas Edições Avante! nesta Festa, quatro delas foram alvo de lançamentos, todos no sábado: 50 anos de Economia e Militância, de Sérgio Ribeiro; Princípios Elementares da Propaganda de Guerra, de Anne Morelli; Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, com prefácio de Álvaro Cunhal e ilustrações originais de João Abel Manta; e O Socialismo Traído, dos norte-americanos Roger Keeran e Thomas Kenny.
Foram ainda apresentadas mais duas obras de outras editoras: Lá Longe Onde o Sol Castiga Mais – A Guerra Colonial Contada às Crianças, de Jorge Ribeiro, foi apresentado sábado à noite por Alice Vieira; e, já no domingo, César Príncipe participou, com Soares Novais, na apresentação de dois livros de poesia da sua autoria – Correio Vermelho e Lucíadas.

Edição de luxo de um escritor «maltratado e esquecido»

A edição de Quando os Lobos Uivam despertou uma curiosidade especial. Até porque não é todos os dias que se reúne num mesmo volume um romance notável de Aquilino Ribeiro, um texto inédito de Álvaro Cunhal e vinte ilustrações de João Abel Manta. Pois esta edição, comemorativa do 50.º aniversário da 1.ª edição, tem tudo isso.
Na apresentação, Manuel Gusmão lembrou que esta edição é um importante contributo das Edições Avante! para o conhecimento do intelectual republicano, liberal e antifascista que foi Aquilino Ribeiro. Nesta obra, prosseguiu o professor universitário e membro do Comité Central, Aquilino não fala dos camponeses serranos mas sim «por eles». Para Manuel Gusmão, a luta destes camponeses «tocou fundo» o velho escritor. Este livro tem ainda o mérito de descrever de forma «implacável» o funcionamento dos tribunais plenários do fascismo e de estabelecer uma ligação entre o sistema judicial fascista e as classes dominantes do País.
«Para aqueles que dizem que o realismo sacrifica a forma ao conteúdo, Quando os Lobos Uivam é disto um desmentido», acrescentou Manuel Gusmão.
No prefácio, Álvaro Cunhal lembrava o «sucesso fulminante» do livro. «Quando a polícia correu a aprendê-lo, dos 9 000 exemplares da primeira tiragem restavam apenas 32 nas livrarias. Os fascistas não se contentaram porém com impedir nova edição. Aquilino foi processado e enviado ao mesmo “odioso” Tribunal Plenário, que corajosamente desmascarara no seu romance».
Manuel Augusto Araújo valorizou também esta edição, realçando que para além de recuperar um «escritor maltratado e esquecido» (como o são também Ferreira de Castro ou Alves Redol) recupera também a «boa pintura», numa alusão às gravuras de João Abel Manta.

Nascer uma e outra vez...

«Aquilo de que mais gosto de fazer é contar histórias.» Foram estas as primeiras palavras de Sérgio Ribeiro na apresentação do seu livro 50 Anos de Economia e Militância, na tarde de sábado. O autor do livro revelou que o livro pretende responder a uma pergunta: «Quantas vezes nasce um homem?» Da sua parte, confessou, nasceu pela segunda vez há 50 anos, quando tomou a decisão «importantíssima» de entrar para o PCP. «Passei a ser um novo homem sendo o mesmo que era dantes», realçou. Outros momentos decisivos da sua vida, como a prisão ou a participação activa na defesa do Partido constituíram outros tantos nascimentos.
Já José Casanova, que apresentou o livro, considerou que este não o surpreendeu. «Está bem escrito, mas já sabíamos que o Sérgio escrevia bem.» A coerência, verticalidade e dignidade expressas no livro também não causaram surpresa ao membro da Comissão Política, pois era precisamente isso que se esperava do autor.
Sérgio Ribeiro, lembrou José Casanova, «foi um dos que lutaram e resistiram» ao fascismo. E sofreram consequências dessa resistência. O livro, prosseguiu o director do Avante!, «fala dos nossos medos, das nossas angústias, das nossas coragens e cobardias». Que, assume, eram comuns a todos os que se encontravam nas difíceis condições da prisão. Alguns cometeram erros, realça. «Mas o maior erro é não agir por medo de errar», concluiu.

Derrota do socialismo na URSS não era inevitável

Uma das apresentações a merecer um mais vivo debate foi a do livro de Roger Keeran e Thomas Kenny O Socialismo Traído, com a presença dos autores. Roger Keeran começou por explicitar algumas das ideias-chave da obra. «O colapso da URSS não se deveu a nenhuma crise do socialismo», afirmou, realçando que em 1985 não havia nenhuma crise naquele país: «Não havia nenhum sintoma de crise económica», lembrou. Havia descontentamento relativamente a algumas questões, mas nada que se pudesse comparar a uma crise, garantiu o historiador norte-americano.
Assim, em sua opinião e segundo os dados recolhidos, a derrota do socialismo foi provocada pela «solução» aplicada por Gorbatchov. Segundo Keeran, Gorbatchov aplicou medidas revisionistas, importando ideias do Ocidente capitalista. Em sua opinião, na segunda metade dos anos 80 triunfaram as teses de Buckarine derrotadas na década de 30. Em causa estavam questões como o reforço ou apagamento do Partido e do seu papel e o fortalecimento do sector económico do Estado ou de sectores capitalistas. Gorbatchov optou pelas segundas hipóteses.
Para os autores do livro, o desenvolvimento de uma «segunda economia», paralela, iniciada sob Kruschtchov, provocou desigualdades, pôs em causa a planificação socialista e levou à corrupção de largos sectores do Partido. Assim se criava a base social de apoio para a destruição do socialismo.
Thomas Kenny afirmou a sua convicção de que não era inevitável o «colapso da URSS». Para este economista, existiram também causas externas, como a política dos EUA de forçar a economia soviética ao colapso pela corrida aos armamentos ou de forçar a sua intervenção no Afeganistão.
Do público vieram importantes contributos para este debate, que terá forçosamente de prosseguir.

Manipulação de armas na mão

«Infelizmente, é um livro de enorme actualidade», afirmou Jorge Cadima, na apresentação de
Princípios Elementares da Propaganda de Guerra, de Anne Morelli. Nesse livro, a autora parte do livro do pacifista inglês da primeira metade do século XX, Arthur Ponsonby, que traçou as linhas gerais da propaganda de guerra utilizadas no primeiro conflito mundial, para concluir que estes são princípios imutáveis ainda hoje utilizados.
A diabolização do oponente, dando-lhe um rosto, esquecendo assim que a guerra afecta milhões, é uma das técnicas. Lembre-se de Milosevic ou de Saddam, realçou Jorge Cadima. «O inimigo provoca conscientemente atrocidades. Se nós cometemos erros é involuntariamente» é outros desses princípios. Os «danos colaterais» da NATO na Jugoslávia e os «massacres» sérvios sobre os albaneses são disto prova. Segundo Jorge Cadima, das tais centenas de milhares de mortos albaneses de que tanto se falou, apenas foram encontrados três mil corpos, de todos os lados do conflito, grande parte dos quais mortos em combate.
«O inimigo utiliza armas não autorizadas» é outros dos princípios propagandísticos enunciados por Ponsonby. A agressão contra o Iraque ou o previsível ataque contra o Irão têm por base esta mentira...

Sons

Na tenda ao lado, a Festa do Disco também acolheu muitos visitantes que ali se deslocavam em busca da melhor música que se faz e fez no País e no mundo – seja pop, rock, jazz ou clássica – a preços convidativos. Para além dos CD e dos DVD, muita gente ali acorreu para adquirir discos em vinil. Também as camisolas e os posters despertaram o interesse de muitos visitantes.


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