Segredo, sim!
O Auditório de Projecção, por onde passaram inúmeros filmes e comentários, foi pequeno para acolher todos os que queriam assistir à estreia do filme «O Segredo», filme de Edgar Feldman sobre a fuga de Peniche do dirigente comunista António Dias Lourenço.
Um filme comovente, contado ao vivo pelo protagonista da fuga que, de maneira simples e ao mesmo tempo divertida, conta as peripécias por que passou para se evadir do Forte de Peniche, cadeia de alta segurança.
Percorrendo o Forte e o que resta da antiga cadeia, António Dias Lourenço mostrou uma das salas, a única aberta, onde ele e muitos outros camaradas viviam diariamente, ou como um dia, a jogar xadrez com José Magro (num tabuleiro desenhado no chão, porque o jogo era proibido), uma pequena pedra que supostamente fazia mover as peças do xadrez o fez castigar com um mês de «segredo» (cubículo sem luz destinado aos piores castigos). Foi, contudo, daí que engendrou uma fuga que, apesar de todos os contratempos, resultou num êxito.
Um dia antes de fugir, para avisar os seus camaradas de que pensava surgir, ao despejar o seu balde dos dejectos (e seguro de que os guardas não entendiam francês), gritou a Rogério de Carvalho, que se barbeava num espelho pendurado nas grades: Adeus, oh, «je m’en vais!». E foi-se, ou melhor, fugiu! Não nessa noite, como todos ansiosamente esperavam, mas na noite seguinte.
Acabado o filme, viam-se lágrimas nos olhos da assistência, alguns pensando certamente na ambiguidade do nome do filme «O Segredo». Segredo, nome do cubículo de castigo? Ou Segredo que esteve na origem da fuga e assenta no amor ao povo, à luta, ao Partido, na resistência e confiança que não esmorecem?

• MF


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: