O grito de solidariedade para com a Bolívia tem um impressivo significado
América Latina contra o golpe fascista na Bolívia
Solidariedade anti-imperialista
Mais de uma dezena de países da América Latina solidarizaram-se com o governo e o povo da Bolívia e repudiaram a ingerência imperialista no país, mergulhado na violência promovida pela oligarquia local com o apoio directo dos EUA.
As reacções mais fortes ao plano de golpe de Estado em marcha contra o presidente boliviano, Evo Morales, vieram da Venezuela e das Honduras, isto depois de a Bolívia ter expulso, faz hoje uma semana, o embaixador dos EUA, Philip Goldberg, contra quem sobejam provas de instigação à força e à secessão regional com o objectivo de derrubar Morales (ver caixa).
Na República Bolivariana, o presidente Hugo Chávez ordenou o despejo do representante diplomático da Casa Branca, Patrick Duddy, e retirou o homólogo venezuelano de Washington, Bernardo Álvarez.
Perante uma multidão reunida num comício do Partido Socialista Unido da Venezuela, na localidade de Puerto Cabello, Chávez não apenas manifestou inteira solidariedade para com o governo e povo da Bolívia, como apelou à conjugação de esforços no subcontinente para enfrentar o imperialismo.
Em resposta ao apelo, as Honduras – país que no passado dia 25 de Agosto se juntou a Cuba, Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Dominica na Alternativa Bolivariana para as Américas, ALBA – adiou a recepção das credenciais do novo embaixador norte-americano.
A medida foi essencialmente um gesto de protesto, explicou depois o presidente, Manuel Zelaya, que não pretende inquinar as relações diplomáticas com os EUA, até porque as Honduras dependem economicamente do vizinho do Norte (principal mercado para os seus produtos, sobretudo depois da entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio, e onde vivem mais de um milhão de imigrantes hondurenhos, cujas remessas em dinheiro são a principal fonte de receitas do país), e, internamente, Zelaya enfrenta a oposição conservadora que já prepara as eleições de 2009.
Aos repúdios da Venezuela, Honduras e demais países da ALBA, juntaram-se os expressos pelos executivos do Brasil, Chile, Paraguai, Equador, Peru, Uruguai e Argentina.
Pesem as diferenças de políticas concretas e de objectivo estratégico dos que assumem o poder nestes países, o uníssono grito de solidariedade para com a Bolívia vindo de tantas nações latino-americanas tem um impressivo significado, pelo que traduz de reforço das posições anti-imperialistas, e pelo potencial de libertação de energias favoráveis a projectos progressistas, de justiça social e afirmação da soberania. Sobretudo se considerarmos que, no mesmo dia, 11 de Setembro, há 35 anos, Salvador Allende e o povo do Chile não gozavam da mesma correlação de forças.

Lei Marcial

Entretanto, no terreno, o governo boliviano foi obrigado a decretar a Lei Marcial no departamento de Pando. De acordo com o ministro da Defesa, Walker San Miguel, a medida excepcional visa responder com eficácia à onda de violência desencadeada naquela região, cuja chefia chega ao topo da hierarquia local e ao governador, Leopoldo Fernández, acusou.
San Miguel revelou ainda que se avolumam indícios da entrada de grupos armados estrangeiros através daquela parcela de território, os quais, presumiu, estariam acantonados nos Estados brasileiros da Rondónia e do Acre, limítrofes da fronteira boliviana e onde proliferam os mercenários a soldo dos grandes proprietários rurais.
Não deixa de ser curioso que, ao início da noite de sábado, 13, a BBC – Brasil (que segundo o seu sítio Internet tem uma enviada especial em Santa Cruz) tenha reproduzido as declarações do director da Associação Nacional de Produtores de Soja da Bolívia e vice-presidente da Câmara de Comércio Boliviana-Brasileira, o brasileiro Nilson Medina.
Manifestando preocupação com a situação caótica, com as «invasões de terras», e assegurando que aos que detêm propriedade na Bolívia, para se protegerem, só lhes resta «trabalhar», Medina acabou por confessar que «se o governo [da Bolívia] impuser a Constituição, como já está a impor, e insistir na questão do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos, ocorrerão mais confrontos e as consequências serão imprevisíveis».
O latifundiário mostrou-se particularmente preocupado com as normas sobre a Reforma Agrária contidas no texto fundamental e, disse, com os agrários brasileiros das regiões de Pando, Beni e Santa Cruz. Esta última, estima Medina, acolhe entre 250 a 300 proprietários daquela nacionalidade.
Recorde-se que em Pando, na semana passada, pelo menos 30 camponeses sem-terra morreram quando a marcha pacífica que integravam em direcção à capital da região, Cobija, foi atacada por paramilitares e funcionários do governo local. O seu único «crime» era apoiarem Morales, o governo da Bolívia, a democratização da terra, da instrução, dos recursos naturais e da participação política e cívica na vida do país.

Apelos à intervenção

Paralelamente, no sentido de conter a «violência fascista cujo objectivo é acabar com a democracia e dividir o país», como defeniu Evo Morales, o presidente reuniu com o governador de Tarija, Mário Cossio, que no encontro representou também os eleitos de Pando, Beni, Santa Cruz e Chuquisaca, as restantes «autonomias insurrectas».
Do encontro nada ou quase nada resultou a não ser a vontade do chefe de Estado em pôr termo à violência, e um reiterado apelo à pacificação e ao diálogo dirigido aos que instigam os confrontos. Como tal, a busca sincera de uma solução por parte de Morales parece ter caído, mais uma vez, no pântano das obscuras garantias da reacção.
Contundentes e absolutamente claras, sem dúvida, foram as palavras que o líder do autodenominado Comité Cívico de Santa Cruz, Branko Marincovik, proferiu enquanto Morales e Cossio trocavam argumentos.
Para Marinkovic, a situação é de tal forma aguda, que o que se exige é o envio por parte das Nações Unidas de uma força de interposição que pacifique o país, precisamente um dos desenlaces que, com o expulso embaixador dos EUA, Goldberg, a direita fascista e os oligarcas vinham urdindo nas semanas precedentes.

Goldberg, o «especialista»

No decurso da luta de classes que se desenrola na Bolívia, o agora ex-embaixador dos EUA no país desempenhou um papel central, facto que, aliás, não causa estranheza, quer porque Philipe Goldberg é o que se pode considerar um «especialista» em fomentar conflitos étnico-regionais ao interesse do capital internacional – disso faz prova o seu currículo na Bósnia, entre 1994 e 1996, enquanto responsável pela matéria no departamento de Estado; no Kosovo, entre 2004 e 2006, tendo como resultado a secessão da província face à Sérvia e o espezinhamento do Direito Internacional; e na perseguição ao ex-presidente sérvio Slobodan Milosevic, morto nos calabouços do Tribunal Penal Internacional, em Haia, na Holanda, em circunstâncias que ainda importa apurar –, quer porque a potência imperialista da qual é diplomata estava habituada, até à entrada em funções de Evo Morales, a ter um escritório da CIA no palácio presidencial, pelo qual passavam as decisões antes de se tornarem oficiais. Morales divulgou o facto em Abril deste ano e ninguém desmentiu o presidente. Nem podiam.

Provas irrefutáveis

A atestar a justeza da expulsão de Goldberg da Bolívia, estão as provas apresentadas por quatro deputados do Movimento para o Socialismo (MAS), disponíveis na página do Partido Comunista do Brasil em www.vermelho.org.br.
Segundo os dados apresentados, Goldberg chegou a La Paz, faz no próximo dia 13 de Outubro dois anos, com o objectivo de reagrupar as forças reaccionárias derrotadas nas presidenciais de Dezembro de 2005. A «reorganização» foi feita em torno dos governadores, que desde logo começaram a falar em federalismo, e da direita parlamentar do «Podemos», liderada por Jorge Quiroga, caída em descrédito mas ainda capaz de colocar entraves à ratificação da nova Constituição e aprovar o referendo revogatório.
Este referendo, ocorrido no passado dia 10 de Agosto, não só confirmou Evo Morales na presidência com mais 14 por cento dos votos que em 2005 – correspondendo, em dois anos e meio de mandato, ao reforço da sua posição eleitoral em 8 das 9 regiões, e a vitórias em 95 das 112 províncias –, como ainda revogou os mandatos de dois governadores, isto apesar da campanha mediática suja paga pelos EUA, facto do qual existem também provas indesmentíveis.
Goldberg acabou ver esta jogada política derrotada pelo voto popular. Face a nova derrota, avançou para a alternativa: bloqueios de estradas e gasodutos, asfixia económica, invasão e destruição de edifícios públicos e emissoras estatais, provocação das forças de segurança para que estas intervenham avolumando o conflito e as vítimas, e, onde possível, desalojamento dos militares das regiões «insurrectas» propiciando a entrada no território de «forças internacionais de manutenção de paz», como no Kosovo, cujo papel seria de «interposição» até à declaração de independência.
Neste sentido, desde meados de Agosto que Goldberg se desdobra em contactos. Com Savina Cuellar, governadora de Chuquisaca que prontamente exigiu a demissão de Morales; com Rubén Costas (e mais quatro congressistas norte-americanos), governador de Santa Cruz, e um dos arquitectos das «greves cívicas» que se sucedem.
O afã norte-americano em derrubar o governo de Morales é tal que não tolera distracções e exige total entrega aos objectivos traçados.
Momentaneamente mais interessados em abrir as portas da Feira de Actividades Económicas de Santa Cruz, cuja inauguração estava agendada para amanhã, no final de Agosto os empresários secessionistas apostavam num conflito de intensidade reduzida, mas Goldberg não perdoou e, de acordo com os parlamentares do MAS, terá metido Branko Marinkovic num avião rumo aos EUA, certamente para instruções em jeito de puxão de orelhas do patrão.
Certo é que desde que Marinkovic regressou, a 9 de Setembro, a violência da fascista União Juvenil de Santa Cruz e de outros grupos armados tem-se intensificado.


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