Editorial

Esta crise – como todas elas – encerra lições

SOBRESSALTOS

Os sobressaltos da crise financeira mundial não param. A seguir ao anúncio da «injecção» dos 700 mil milhões de dólares por parte da administração americana para remendar o buraco das falências de grandes – enormes! – grupos financeiros dos Estados Unidos, as bolsas, do lado de lá como do lado de cá do Atlântico, após um ligeiro arrepio de «confiança», voltaram ao chamado «terreno negativo» e, no princípio da semana, a Europa foi abalada com perdas recorde no valor das acções, atingindo as descidas quase dez por cento nos índices nacionais. Foi o caso de Portugal, cujo PSI20 bateu nos 9,87, a maior queda de sempre. Num sobe-e-desce em que o «desce» leva a melhor, a crise não dá mostras de se submeter às receitas apressadamente inventadas pelos estados cuja política se subordina aos interesses do capital.
Os milhares de milhões injectados para favorecer uma liquidez que não tem suporte na riqueza produtiva dos países serão pagos pelos trabalhadores e pelo povo, mas não vencerão a doença crónica de que padece o capitalismo.

Na Europa, onde quem verdadeiramente manda tentou tomar o comando das operações, a incidência da crise financeira sobre a economia em geral já mostrou os seus efeitos. Milhares de milhões de euros já foram disponibilizados para «sair da crise», tanto na Grã-Bretanha como nos países do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo). Enquanto os mais fracos procuram uma concertação «europeia», os mais fortes – caso da Alemanha, por exemplo – arredam tal hipótese e dizem claramente, como Angela Merkel, que cada um se amanhe. Com reuniões separadas no tempo por «castas» – primeiro o «directório» dos grandes (Grã-Bretanha, Alemanha, França e Itália), depois a zona euro e por fim os vinte e sete da Europa «toda», mostram dificuldade em rubricar uma solução comum. Esta procura «escalonada» de uma decisão comum revela, por outro lado, o verdadeiro rosto de uma União Europeia que só é União para favorecer os maiores e que se constrói apoiando-se na subserviência e na submissão dos mais fracos.
São, entretanto, os trabalhadores que já estão a pagar a crise financeira e a respectiva recessão económica. Uma recessão que já não é preciso aguardar, como demonstra o exemplo paradigmático do encerramento da Autoeuropa – por «cinco dias». O cortejo dos salários e subsídios em atraso, de falências, de encerramento de empresas, de despedimentos a acrescentar ao numeroso exército de desempregados, já aí está.

Esta crise, como todas elas – para quem as veja com a objectividade marxista-leninista – encerra lições. E uma delas, apesar de algumas teses que persistem à «esquerda» professando confiança numa mudança desta Europa num espaço democrático, é a de que, de facto, esta Europa não é reformável. Outra é a de que o capitalismo não consegue, dada a sua natureza exploradora, encontrar soluções que resolvam quaisquer dos problemas maiores que a humanidade enfrenta.
Falando recentemente sobre a crise e as medidas urgentes para lhe fazer face, o Secretário-geral do PCP, numa declaração silenciada pela maioria da comunicação social a mando do capital, afirmou ser «uma mistificação afirmar-se que a crise se deve à ganância de alguns (...) como se a busca do lucro não fosse inerente ao sistema capitalista». E Jerónimo de Sousa acentuou ainda que a crise se não explica apenas «pelo rebentamento da bolha do subprime». «Na verdade», explicitou, «a crescente financeirização da economia mundial em detrimento da produção real, a prática especulativa dos grandes senhores do dinheiro, aos quais tudo é permitido, a crescente desvalorização dos salários e a sua substituição pelo incentivo e facilitação do endividamento, são aspectos incontornáveis da grave situação a que chegámos».
«O PCP considera que esta crise põe também em evidência a falsidade dos dogmas do neoliberalismo, do “menos Estado”, do “Estado não intervencionista”, a “mão invisível do mercado”, do “mercado regulador”». E não deixou de apontar: «O capitalismo revela mais uma vez a sua natureza e as suas profundas contradições.»

E entramos aqui no terreno da luta, como o próprio dirigente comunista explicitou na sua declaração proferida no final do dia nacional de luta, convocado pela CGTP-IN, salientando a participação de muitos «milhares de trabalhadores, do sector público e privado, em greves, paralisações e acções de rua», trabalhadores que «manifestaram o seu repúdio à intenção do Governo PS de alteração para pior do Código do Trabalho, e exigiram o aumento de salários e o combate à precariedade».
À proposta de que sejam os trabalhadores a pagar a crise do capital, como Sócrates e o Presidente da República fazem, mais ou menos veladamente, os trabalhadores exigem o cumprimento dos seus direitos duramente conquistados. Como se prova e comprova – com as garantias dadas pelo primeiro-ministro e pelo titular das Finanças, que afirmam a toda a hora que os depósitos bancários «estão garantidos» –, dinheiro não falta para ajudar a minorar a crise a banqueiros e afins, mas falta sempre para o funcionamento dos serviços públicos da saúde, dos transportes, da habitação, da educação, dos salários e das pensões.
Por toda a Europa – sem falar do resto do mundo – a luta de classes atinge novo vigor, e numerosas batalhas deflagram contra as políticas de direita. Como foi o caso na Bélgica, esta segunda-feira, onde uma jornada de protesto se transformou rapidamente numa greve geral que paralisou o país, exigindo a recuperação do poder de compra.
Em Portugal, os comunistas, que retiram lições da história – mesmo daquela que decorre sob os nossos olhos – estão empenhados na luta. Ao mesmo tempo que, preparando o XVIII Congresso, reforçam o Partido, força insubstituível para uma alternativa de esquerda que abra os horizontes do socialismo.


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