«Pior cego é o que não quer ver»
Forte demonstração de confiança
Trabalhadores repudiaram a indiferença do Governo
Congratulando-se com a forte participação «em plenários, em reuniões de empresa, em protestos generalizados e solidários, com greves, paralisações parcelares, plenários, manifestações e outras acções», a CGTP-IN considerou que o protesto deu «importantes sinais» quanto à disponibilidade dos trabalhadores para «continuarem a luta com esperança e confiança no futuro».
«Pior cego é o que não quer ver», acusou o Sindicato dos Trabalhadores da Função Pública do Sul e Açores, a propósito da tentativa do Governo, no dia da acção, para diminuir a real expressão, força e significado desta luta.
Na moção aprovada em todas as acções de dia 1, os trabalhadores assumiram o compromisso de prosseguir a luta, já esta semana, entre os dias 6 e 10, em tribunas públicas a decorrer em Lisboa, Porto, Coimbra, Évora e Faro, convocadas pela central, por «Trabalho com direitos, progresso e desenvolvimento».
A adesão ao dia nacional de luta de centenas de milhares de trabalhadores dos sectores público e privado, na data do 38.º aniversário da central sindical, é a prova «inequívoca da indignação face à revisão do Código do Trabalho, ao aumento da precariedade e das «injustiças consubstanciadas nas políticas laborais, sociais e económicas que o patronato e o Governo vão impondo», considerou a central.
«Pior cego é o que não quer ver», concluiu, também num comunicado, o Sindicato dos Trabalhadores da Função Pública, a propósito da forma como o Governo tentou diminuir e menosprezar a verdadeira força do protesto que se sentiu por todo o País, apesar do «clima intimidatório» imposto por chefias, administradores e patrões, denunciado pelas estruturas sindicais, tanto no sector público como no privado.
«Quem andou pelos hospitais, centros de saúde, escolas, serviços de Segurança Social ou outros serviços públicos, rapidamente percebe que os trabalhadores da Administração Pública rejeitam a politica de Sócrates e o seu Governo», salientava o sindicato, saudando a «expressiva adesão» no sector que, segundo a Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública, atingiu os 75 por cento, com particular incidência na recolha de lixos, confirmada pelo Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local, que confirmou uma adesão com iguais proporções nas autarquias e recordou que a adesão à greve «não está dissociada da exigência de aumentos reais nos salários e de uma Administração Pública de qualidade, isenta e aos serviço de todos, desígnio que o actual Governo claramente renega, em benefício dos intentos lucrativos dos poderosos».
De regresso às aulas, os professores efectuaram plenários, distribuíram panfletos e recolheram assinaturas para um abaixo-assinado entre a classe docente, contra a divisão da sua carreira em duas. Reafirmaram total disponibilidade para prosseguir a luta contra o que a Fenprof considera ser o maior ataque à escola pública democrática desde o 25 e Abril de 1974. No domingo, Dia Mundial do Professor, voltaram às ruas onde distribuíram panfletos com o lema, «Os professores contam», onde alertaram para as graves consequências, para o País, da reforma do ensino público encetada pelo Governo PS. Quase todos os estabelecimentos de ensino foram também afectados pela quase total adesão dos não docentes, os auxiliares de acção educativa.

Dois dias de luta

Os enfermeiros, os trabalhadores dos CTT e os da transportadora fluvial que liga Lisboa ao Barreiro, Soflusa, cumpriram dois dias de greve, iniciados dia 30.
Contra a precariedade e o desemprego, poucos foram os profissionais de enfermagem que não participaram nas lutas e concentrações organizadas pelo Sindicato dos Enfermeiros Portugueses. Por todo o País, segundo o sindicato, a adesão foi de cem por cento nos centros de saúde e na maior parte dos restantes estabelecimentos, onde foram cumpridos os serviços mínimos e pouco mais.
Os enfermeiros efectuaram uma assembleia-geral, antecedida de conferências de imprensa em todas as regiões e seguida de uma concentração nacional, em Lisboa, diante do Ministério da Saúde, onde cerca de mil repudiaram a política de saúde do Governo PS.
Nos Correios, a luta foi também para exigir que a administração negoceie o Acordo de Empresa que tem recusado negociar com o Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações. Centenas de trabalhadores concentraram-se em protesto, em Lisboa, diante da administração, depois de o Sindicato ter anunciado uma adesão de 56,4 por cento. A adesão não foi maior, segundo o sindicato, porque muitos trabalhadores têm sido «ameaçados, pressionados e aliciados com falsas promessas e dinheiro», acusou o sindicato. Este ano, já foram cumpridos cinco dias de greve nos CTT.
Uma justa revisão salarial que assegure uma melhoria do poder de compra é o motivo da luta na Soflusa, que teve mais um ponto alto na greve, nos dias 30 e 1. A adesão total impediu que se tenham efectuado ligações fluviais, anunciou o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário e o Sindicato dos Trabalhadores da Marinha Mercante.

Apelo à luta e à resistência

Porque «É preciso lutar», «É tempo de resistir» e de afirmar «Propostas e caminhos de mudança», na moção aprovada nos plenários e concentrações, os trabalhadores exigiram aumentos reais dos salários e do poder de compra, repudiaram o desemprego, a precariedade e a actual revisão do Código do Trabalho, mas também sugeriram propostas que comprovam a possibilidade de um «outro rumo» que proporcione «Um Portugal desenvolvido».
Foi exigida a revogação do factor de sustentabilidade introduzido pelo Governo no cálculo das reformas e prestações da Segurança Social, que resultou em diminuições dos respectivos valores, a revisão dos critérios de actualização para proporcionar o aumento das reformas e a indexação do subsídio de desemprego ao salário mínimo líquido, prolongando o subsídio de desemprego.
Para ajudar as famílias com mais dificuldades, foi proposta uma actualização dos escalões do IRS tendo em conta a inflação verificada e um aumento para 800 euros, na dedução à colecta das despesas com educação e formação.
Os trabalhadores também consideram fundamental lutar por «um Estado que preste serviços públicos para todos», por «uma escola pública com qualidade, que combata as dificuldades e o insucesso», e por «um Serviço Nacional de Saúde em que todos tenham um médico e enfermeiro de família».
A moção exige igualmente que passem a ser «rigorosamente observados» os impactos do aumento de bens essenciais e dos aumentos das taxas de juro nos créditos para habitação.
Ficou ainda um apelo à participação, já esta semana, entre os dias 6 e 10, nas tribunas públicas, por «Trabalho com direitos, progresso e desenvolvimento», a decorrer em Lisboa, Porto, Coimbra, Évora e Faro.


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