Editorial

A luta de massas é a linha principal do combate

A FEBRE E A MUDANÇA

A semana «acordou» de novo febril, na sua cama de crise financeira – e já muito também económica – que tem roído as entranhas do capitalismo internacional e nacional. Animadíssimos, os órgãos de comunicação social do Governo e do patronato deram conta da «euforia» das bolsas, que subiram logo que lhes cheirou que os Estados «se tinham entendido» para verter na banca muitos milhares de milhões – os tais milhões que sonegaram no apoio aos trabalhadores e aos povos, às pequenas e médias empresas, à agricultura dos países mais fracos e dependentes, às indústrias, ao investimento público. A lista é muito extensa para que a desenrolemos aqui, mas toda a gente sabe, principalmente os trabalhadores – com ou sem contrato ou desempregados – e as populações, os jovens e as mulheres, os pensionistas e idosos, toda a gente sabe o quanto tem doído a política de direita que vem favorecendo sistematicamente o grande capital nacional e internacional. E de novo, os milhões que o Estado vai procurar nos bolsos – e no prato e nos medicamentos e na escola – de quem trabalha, vão direitinhos aos grandes, aos banqueiros e gordos accionistas, àqueles que ganham o suor do trabalho de quem é explorado. E que especulam com esse suor multiplicando o dinheiro através de operações financeiras que há muito deixaram de ter suporte produtivo. Talvez, quem sabe, os Amorins e os Belmiros, com a bolsa em alta, tenham recuperado os milhões que «perderam». É mesmo de apostar que, neste estertor financeiro, os maiores tenham procedido, com as ajudas preciosas dos governos em quem mandam, a uma vertiginosa acumulação e concentração de capital.

Referindo-nos especificamente a Portugal – não esquecendo, porém, que isto anda tudo ligado, basta atentar na submissão que o País sofre em relação aos grandes da União Europeia e ao imperialismo em geral – mais uma vez, neste caso do financiamento da banca, se revela o carinho dispensado à grande finança. Vinte mil milhões de euros foi quanto Sócrates pôs à disposição das instituições financeiras que por cá operam. O que lhe valeu a grata quebra de silêncio de Manuela Ferreira Leite, a muda que recupera a voz para apoiar a «patriótica» iniciativa governamental. O apelidado «bloco central de interesses», que deveria mais propriamente chamar-se bloco de direita ao serviço do capital, entende-se para mais uma cavadela no buraco que vai minando o País.
Agora, do que se fala – do que falam os órgãos de comunicação social, dos «generalistas» aos especializados – é das «benfeitorias que o Orçamento do Estado para 2009 vai anunciar. Embora entregue anteontem apenas na Assembleia da República, a propaganda começou mais cedo. Pode afirmar-se que a campanha eleitoral já anda aí. Com sondagens, promessas e... «medidas».

Enquanto as verdadeiras medidas não chegam, recordemos as promessas e profissões de fé feitas por Sócrates há menos de três anos. Disse o então empossado primeiro-ministro que tinha a honra de presidir a um Governo emanado de uma «profunda vontade de mudança», «não a favor de uma mera alternância mas a favor de um novo projecto político alternativo».
Ficaram os eleitores, nos anos subsequentes, a saber que, apesar das prevenções dos comunistas, haviam eleito uma maioria absoluta para lhes dar cabo, absolutamente, da vida e das esperança de um futuro melhor.
O pretexto do cumprimento do défice e de todas as outras directivas europeias que o Governo português não pôs em causa, deram origem a uma mais negra sequela das políticas até então seguidas pelos seus parceiros «à direita», o PSD e o CDS.
Disse também Sócrates que: «Uma economia dinâmica e uma sociedade mais justa não dispensam serviços públicos de qualidade, nem podem prescindir de um Estado com políticas activas de crescimento, de emprego, de redução das desigualdades sociais.» «Só os ricos», disse ainda, cinicamente, «se podem permitir um Estado pobre e só os poderosos convivem bem com um Estado fraco». E prometeu ainda, a par com a criação de 150 mil postos de trabalho, a «luta contra as desigualdades e contra a pobreza».
Vale a pena comentar? Registemos apenas que os «serviços públicos de qualidade» sofreram, nestes três anos, o mais feroz ataque, com o encerramento de escolas, de hospitais, de maternidades, de centros de saúde. Que o desemprego aumentou substancialmente. Que o Código do Trabalho pretende ir muito mais longe do que os anteriores governos de direita, destruindo a parca estabilidade do emprego e arrancando à força os direitos dos trabalhadores tão duramente conquistados na luta de classes. Quanto às desigualdades, nunca o País viu o fosso alargar-se tanto, com as grandes fortunas a entrar nas listas internacionais dos ricos, e os pobres tão numerosos e desprotegidos.

Por tudo isso sabemos, sem ainda ter lido exaustivamente as copiosas páginas do OE de 2009, quanto valem os anúncios de benfeitorias, vindos de quem vêm. A prática é que vale e não as promessas vãs feitas à beira de um ano eleitoral. E, para os comunistas, que não enjeitam, antes valorizam, as grandes batalhas eleitorais, tempo de intensa actividade política, de propaganda e de esclarecimento do eleitorado, a luta de massas é a linha principal do combate em que nos empenhamos. É nesse terreno que os trabalhadores e o povo tomam consciência da sua força, que se traduz na capacidade de resistir e de lutar, de alcançar vitórias, ainda que parciais, nesta longa jornada que abrirá caminho a uma sociedade expurgada do capitalismo e da exploração.
A crise profunda que o capitalismo atravessa e a capacidade de responder acertadamente aos problemas que não deixará de trazer aos trabalhadores e ao povo é matéria fecunda para a acção que o PCP desenvolve no âmbito da campanha «É tempo de lutar, é tempo de mudar» que alastra ao País inteiro. E é matéria fértil para as reflexões que o Partido vem fazendo no âmbito da preparação do XVIII Congresso.


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