Europeus anunciaram «ajudas» na ordem dos 1700 mil milhões de euros
Crise capitalista
Governos seguram sistema em ruptura
Os chefes de Estado da UE agendaram para ontem e hoje uma reunião com o objectivo de continuarem a dar uma resposta conjunta à crise capitalista. A iniciativa ocorre dias depois dos governos terem injectado 1700 mil milhões de euros no sistema.
O encontro precede um outro realizado domingo, em Paris, entre os membros da zona euro, no qual se decidiu incrementar as injecções maciças de capital no sistema financeiro, e avançar para com garantias por parte dos Estados às operações de financiamento entre os bancos. No caso de Portugal, o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, anunciou um montante seguro de 20 mil milhões de euros.
Apesar da euforia generalizada que as medidas dos governos europeus motivaram na abertura das transacções nos mercados bolsistas, ainda é cedo para gritar bonança face à tempestade de desvalorizações que assolou as principais praças mundiais de acções, onde se bateram pela negativa vários recordes históricos.
Fruto da acção concertada, a taxa Euribor, principal referência para as operações de financiamento entre as entidades bancárias, registou uma redução, ainda que tímida e insuficiente dadas as graves dificuldades que enfrentam os trabalhadores e as famílias, os que, afinal, estão a pagar os custos da crise.
No sentido inverso, o preço do barril de petróleo, que na sexta-feira chegou a ser negociado a valores semelhantes aos de Setembro do ano passado, voltou a subir nos dois primeiros dias desta semana.

Torneira aberta

Anteontem o Banco Central Europeu injectou mais 98,4 mil milhões de dólares no sistema financeiro a uma taxa de 0,20 pontos percentuais. No leilão participaram 67 entidades bancárias, informou o BCE.
Esta não foi, no entanto, a única intervenção das instituições e Estados capitalistas para salvarem um sistema em ruptura. No total, em dois dias, os executivos europeus anunciaram «ajudas» na ordem dos 1700 mil milhões de euros para os maiores bancos.
A Alemanha e a França avançaram com 480 e 360 mil milhões de euros, respectivamente; a Holanda com 200 mil milhões; a Espanha e a Áustria com 100 mil milhões; a Itália tem preparados 40 mil milhões; e a Inglaterra, depois de ter disponibilizado 380 mil milhões de euros na semana passada, anunciou outros 47 mil milhões só para resgatar de apuros o Royal Bank of Scotland, o Lloyds e o HBOS.
Do outro lado do Atlântico, a orientação é igualmente a política de torneira aberta para o capital financeiro. Depois de na quarta-feira o secretário do Tesouro dos EUA ter declarado que se esperam mais falências e que a crise ainda não acabou, o governo norte-americano confirmou uma intervenção nos nove principais bancos do país. Citigroup, Goldman Sachs, Wells Fargo, JP Morgan Chase, Bank of América, Merrill Lynch, Morgan Stanley, State Street Corp e Bank of New York Mellon Corp, acolhem da Casa Branca um investimento na ordem dos 125 mil milhões de euros.
Exemplos de mãos largas para o capital especulativo são também a Austrália, cujo governo Trabalhista injectou 5,4 mil milhões de euros no sistema, e a Noruega, cujo Banco Nacional emitiu obrigações do Estado no valor de 41 mil milhões de euros. Os bancos noruegueses podem usar as obrigações estatais neste valor como garantias dos respectivos créditos até 2012.

Onda de fusões

Entretanto, a par da incerteza sobre as consequências da crise, um dos cenários prováveis é a realização de várias fusões e aquisições. No Velho Continente, o grupo espanhol Santander comprou esta semana o Sovereign Bancorp por 1,4 mil milhões de euros, ao passo que na América do Norte, o litígio entre os gigantes Citigroup e Wells Fargo para a aquisição do Wachovia terminou a favor do Fargo, com a Reserva Federal a autorizar a aquisição do falido Wachovia por cerca de 15 mil milhões de dólares.
No que à indústria diz respeito, são constantes as informações que dão nota de uma possível fusão entre as construtoras automóveis General Motors e Chrysler. O negócio pode fazer-se através da troca de participações no capital de ambas.

À tripa forra

Mas a crise capitalista não é para todos. Particularmente chocantes foram os casos divulgados durante a semana passada respeitantes a bancos e instituições financeiras intervencionados, onde executivos, administradores e convidados continuam a gozar a vida à tripa forra.
O Dexia, que recebeu da França, da Bélgica e do Luxemburgo 6400 milhões, pagou, quinta-feira, dia 9, um jantar de luxo a duas centenas de pessoas num hotel a condizer no principado do Mónaco. Contenção, só mesmo nas palavra, uma vez que devido à crise o presidente do Dexia decidiu não fazer nenhuma intervenção.
No luxo monegasco fez também a festa o Fortis, e, nos EUA, os executivos da seguradora AIG/Life decidiram comemorar a salvação da falência – evitada à custa de mais de 60 mil milhões de euros de Washington – gastando num resort californiano, entre banquetes, SPA e golfe, qualquer coisa como 320 mil euros.

Desemprego e pobreza avançam

Sorte diferente da dos gestores do capital financeiro têm os trabalhadores e o povo norte-americano. Dados recentes indicam que o desemprego no país ultrapassa os 6 por cento, um aumento muito significativo quando comparado com a taxa registada em 2001, 3,9 por cento.
Projecções conservadoras adiantam que até ao final deste ano, cerca de um milhão de pessoas podem ter perdido o emprego. Neste contexto, não é de estranhar que os números da Academia Nacional de Ciências dos EUA indiquem que os pobres no país superam os 41 milhões.


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