• Hugo Janeiro

«O processo actual é de libertação nacional, tendo como horizonte a construção do Socialismo»
Entrevista com Yul Jabour, membro do Bureau Político do PC da Venezuela
Firmeza e unidade para construir o socialismo
A campanha para as eleições regionais e municipais de 23 de Novembro domina neste momento a vida política na Venezuela. A um mês do país voltar às urnas, publicamos uma entrevista com Yul Jabour, realizada durante a Festa do Avante!, na qual o membro do Bureau Político do PCV aponta a firmeza política e a unidade como fundamentais na concretização do objectivo estratégico de construção do socialismo.
Avante!: A Venezuela vai realizar eleições regionais e municipais no próximo dia 23 de Novembro. Para o sufrágio, o Partido Comunista da Venezuela apresentou-se pela unidade das forças revolucionárias. O que é a Aliança Patriótica?

Yul Jabour
: Nestas eleições elegemos quer os governadores quer os presidentes de câmara e os eleitos autárquicos, quer ainda os deputados regionais. Com outros partidos empenhados no processo revolucionário, temos vindo a trabalhar pela Aliança Patriótica (AP), na qual propomos uma discussão mais ampla e não apenas em torno da conjuntura eleitoral.
Para nós a AP é uma aliança estratégica onde deve ser possível discutir questões políticas, de Estado, isto é, um espaço com capacidade de orientação política do processo revolucionário liderado pelo presidente Hugo Chávez Frias, e, portanto, algo mais do que o debate que decorreu nos últimos meses, centrado, sobretudo, nas candidaturas eleitorais.
Da parte do Partido Comunista da Venezuela tem sido essa a conduta, uma prática de desenvolvimento e aprofundamento da Aliança Patriótica.

É nesse contexto que se apresentam as candidaturas ao próximo sufrágio no país?

No que ao respeita ao tema eleitoral, que é o que neste momento domina a vida política no país, lográmos alcançar a unidade das forças revolucionárias em torno da maioria das candidaturas, não de todas, mas da maioria.
Digamos que temos cerca de 60 por cento de candidaturas unitárias para os cargos de governadores, e 73 por cento no total das candidaturas à liderança dos municípios, que são no total 330. Garantimos também uma importante percentagem de consenso no que toca às candidaturas a deputados regionais.
Neste quadro, o PCV e outras forças estão a apoiar seis candidatos a governadores distintos dos que são apoiados pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), dois dos quais são militantes comunistas. Com o PSUV, enfrentamos batalhas eleitorais em 16 candidaturas a governador.

Em relação à aliança estratégica. Quais são os pontos que o PCV considera fundamentais nessa coligação visando o objectivo de fundo?

Bem, seguramente do ponto de vista estratégico tem um papel central o debate sobre como avançar para o socialismo; quais são as bases desse projecto revolucionário e qual o papel do movimento dos trabalhadores venezuelanos. Quanto à classe operária, que nós pensamos que deve ser a vanguarda do processo em curso, importa apurar que papel lhe cabe no quadro da unidade, qual é o sujeito político e social central da actual revolução bolivariana. Todos estes são elementos que temos procurado abordar no seio da AP porque entendemos que existem condições para discutir e avançar.
A nossa análise é que o processo actual é de libertação nacional, tendo como horizonte a construção do Socialismo. Ou seja, estão a consolidar-se algumas bases para que seja possível construir uma sociedade socialista, mas ela, hoje, ainda não existe.
A questão é que estando em curso um processo que tem potencial para solidificar as referidas bases, parece-nos importante discutir o projecto socialista e os factores capazes de impulsionar o que se pretende construir, até porque existem entre as forças revolucionárias abordagens diferentes sobre a mesma questão e, assim, seria profícuo que cada um apresentasse à discussão o que sustenta para a Venezuela.
Nós, o Partido Comunista da Venezuela, propomos o socialismo científico e, em consequência, entendemos que as forças da Aliança Patriótica se devem envolver na discussão da proposta de cada um dos seus componentes e como, conjuntamente, alcançar tal objectivo.
Uns dizem que querem o socialismo do século XXI, outros rejeitam as experiências do século XX e da Revolução de Outubro. Então é também essa discussão que julgamos que se deve dinamizar.
Naturalmente, este debate deve ter lugar quer ao nível nacional, quer ao nível internacional, onde outros temas, como o mundo de hoje e as relações internacionais, a hegemonia imperialista e o papel da Venezuela, têm igualmente toda a pertinência.

Quais as linhas de orientação que leva a cabo o PCV no que toca ao reforço do Partido entre os trabalhadores, a juventude e a respeito da luta de massas?

Quando o presidente Chávez apelou à unidade em 15 de Dezembro de 2006, o PCV – apesar de ter acabado de realizar uma reunião magna em Julho de 2006 –, convocou um congresso extraordinário para discutir, fundamentalmente, qual deveria ser o partido da revolução. Ali decidiu-se por mais de 90 por cento dos votos militantes que o PCV se devia manter como organização marxista-leninista, onde se trabalha para impulsionar a luta de classes, para fortalecer e organizar a classe operária como vanguarda do processo revolucionário bolivariano, e, em consequência, dinamizar os sectores mais progressistas da sociedade e os mais comprometidos com o actual processo, visando, da nossa parte, a construção do socialismo.
De lá para cá temos vindo a crescer muito. Temos estado ao lado das lutas dos trabalhadores e da população em geral, como, recentemente, ilustra o caso da nacionalização da maior siderurgia da Venezuela e uma das mais importantes do mundo, a SIDOR, Siderurgia de Orinoco. Estivemos nas lutas dos trabalhadores da SIDOR, cujas reivindicações não eram apenas económicas, eram políticas e sociais, e logo o Partido Comunista deixou claro no debate público que decorreu sobre esta matéria, que as reivindicações dos trabalhadores deveriam ser concretizadas.
Neste momento, o PCV dinamiza ao nível nacional um debate sobre a constituição dos conselhos de trabalhadores, a reforma da legislação laboral e o aprofundamento dos direitos; desenvolve o trabalho de massas ao nível das mulheres e da juventude, onde a nossa organização juvenil é a única com presença organizada ao nível nacional nos sectores estudantis; não descuramos o trabalho a nível internacional convocando, por exemplo, várias organizações andinas para uma iniciativa anti-imperialista na Venezuela.

O Partido Comunista do Brasil apoiou recentemente a formação de uma central sindical com o fito de fortalecer o sindicalismo de classe no país. Na Venezuela esse é um caminho viável?

Na Venezuela existem distintas correntes sindicais, cinco, seis, incluindo as que apoiam o processo revolucionário. A corrente que apoiamos é a de classe, denominada Cruz Villegas, onde há um importante dirigente comunista e sindical.
O que temos dito é que urge promover o debate tendo como objectivo um congresso unitário. Há distintas correntes, como te disse, e para o futuro o que importa é ir debatendo, avançando, consolidando até ao tal congresso de unidade dos trabalhadores.

Em relação à ameaça do imperialismo face à Venezuela, patente na reactivação da IV Frota…

Bem, isso é a resposta do imperialismo norte-americano que procura manter a sua hegemonia política num continente onde historicamente sempre a teve, mas no qual, actualmente, se processam profundas mudanças que não respondem imediatamente à sua política.
Independentemente do tipo de processos revolucionários sejam liderados pela classe operária ou pela pequena burguesia – segundo a nossa análise é o que se passa no caso da Venezuela, o que exige a acumulação de forças no sentido de converter a classe operária em vanguarda do processo –, eles não respondem à política externa dos EUA, o que, obviamente, leva a que o imperialismo implemente políticas militaristas, de guerra, de terrorismo de Estado, suportadas por governos títeres, como o da Colômbia, ou tratando de criminalizar as lutas e as reivindicações políticas e sociais.

É uma resposta contra essa hegemonia do imperialismo de que falas os processos de integração regional?

Os processos de cooperação em curso, que o PCV apoia, são, neste momento, nesta fase, os que visam romper com essa mesma hegemonia no subcontinente. Visam romper com a ditadura do FMI e do Banco Mundial através da criação do Banco do Sul; visam romper com a hegemonia energética, por via da Petrocaribe; visam romper com as economias absolutamente neoliberais. São tudo isto, mas temos que considerar que o que se está a realizar é entre países onde subsiste muito do sistema capitalista de produção, logo são fundamentalmente instrumentos de ruptura com o imperialismo. Assim, chegamos à necessidade de olhar para outros mecanismos no futuro.
Não obstante, nesta fase é central, é uma prioridade para a Venezuela aproveitar os seus recursos e cooperar no sentido de quebrar o domínio imperialista.

Essa campanha de terrorismo imperialista está mais forte na América Latina?

Adquiriu formas distintas. Uma é a tal criminalização dos partidos mais consequentes, mais comprometidos e empenhados nas transformações sociais e políticas, tratando de os vincular com movimentos de libertação nacional que Washington, por sua vez, classifica como «terroristas». Nós, comunistas venezuelanos, não acompanhamos essa linha porque se trata de uma forma de manter a hegemonia imperialista na região.
A segunda forma são os Tratados de Livre Comércio impostos a diversos países, gorada que foi a ALCA.
Uma terceira via, é a que se está a implementar na América Latina através da social-democracia, que ganhou novo impulso no actual contexto com a promoção do socialismo light, «moderado», contrapondo estas visões ao que chamam de socialismo «radical». Esta é outra «guerra».


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