Edições Avante! lançam Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro
Quando as palavras são armas
Tal como anunciámos na semana passada, voltamos hoje à sessão de apresentação da edição comemorativa dos 50 anos da publicação de Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, realizada no dia 9, no auditório da Biblioteca Nacional, em Lisboa. A edição, publicada pelas Edições Avante!, reúne para além do texto integral da obra de Aquilino Ribeiro, pinturas originais do pintor João Abel Manta e um prefácio inédito de Álvaro Cunhal. Participaram na sessão Jerónimo de Sousa, Manuel Gusmão, Manuel Augusto Araújo, Aquilino Ribeiro Machado e o editor Francisco Melo. O pintor João Abel Manta também esteve presente.
«Quando os Lobos Uivam surge como uma expressão literária do homem que fez opção, que transformou as palavras em armas de arremesso que atingiam e vulnerabilizavam os opressores mas simultaneamente davam mais esperança e mais força a quem lutava contra a opressão», afirmou, a encerrar a sessão, o Secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa.
Aquilino Ribeiro, realçou o dirigente comunista, «não chegou a ver a liberdade brilhar de novo em 25 de Abril de 1974, mas fez a sua parte». Este romance fica, então, como o «momento culminante da sua vida de escritor e de lutador da democracia». Para Jerónimo de Sousa, Aquilino «não se ficou pela visão contemplativa da sua obra, à espera do reconhecimento». Pelo contrário, sabia que, «para além do seu tempo, alguém, outros continuariam aquele sonho que perpassa pela sua obra, qual escultor que cinzela a palavra rude e genuína do seu povo, dando-lhe sentido e valor perene».
Antes de Jerónimo de Sousa, já o escritor e membro do Comité Central do PCP Manuel Gusmão realçara que a narrativa da obra «constitui a expressão escrita da fala das gentes das terras serranas». Aquilino fala, «por amplificação, como Manuel e seu pai Teotónio Louvadeus falam» e estabelece uma «intensa cumplicidade com eles»: a narrativa «não se limita a falar deles, mas fala com eles e, de alguma forma, por eles».
Manuel Gusmão resumiu, em seguida, a obra. Ao regressar à sua casa, na região serrana, após dez anos de emigração no Brasil, Manuel Louvadeus fica a saber da intenção do governo fascista de levar por diante um plano de repovoamento florestal consistindo, no fundamental, numa expropriação de terras da serra que os camponeses há muito consideravam como sua propriedade colectiva. O capítulo final, revelou Gusmão, retrata o regresso de Manuel Louvadeus ao Brasil, após sair da prisão. «Perseguindo um sonho impossível e deixando os seus com uma promessa utópica exangue; e a floresta plantada na serra expropriada aos camponeses, pela força das armas e pela repressão política, será incendiada.»

Romancista social

Vários são os capítulos que retratam o «poder violento do Estado fascista e a resistência popular». Em três deles, a narrativa concentra-se no julgamento pelo Tribunal Plenário dos «cabecilhas» ou «cabeças de motim» dos camponeses, recorda Manuel Gusmão. Nestes capítulos, a história não se fica apenas pela «rendibilidade literária ou dramática das “cenas de tribunal”». Pelo contrário, «os meios discursivos, narrativos e retóricos utilizados tornam manifesta a intenção de denúncia do disfuncionamento de um aparelho judicial ao serviço de um domínio de classe».
O processo judicial narrado «junta a acusação dos camponeses com a acusação de um grupo de operários têxteis que organizaram uma greve». Desta forma, valoriza Manuel Gusmão, o romance «consegue designar as classes fundamentais da luta pela democracia e contra o fascismo, assim como consegue mostrar a função repressiva das tentativas de esconjuro da força política que aterroriza as “boas almas”: o PCP».
O professor universitário remeteu ainda para o prefácio de Álvaro Cunhal (ver texto nestas páginas), para revelar a leitura que o dirigente comunista fazia de Aquilino Ribeiro e da sua obra. Segundo Cunhal, as «grandes lutas de 1958 tocaram fundo o velho escritor. O seu amor pelo povo fez-lhe sentir de novo a necessidade de lutar a seu lado». Desta forma, o «estilista, o prosador regionalista, transforma-se num romancista social, realista e revolucionário».
Intervindo no debate acerca da forma e do conteúdo, Álvaro Cunhal escreveria mesmo que «para os escritores burgueses que afirmam que as intenções sociais nas obras de arte sacrificaram a forma ao conteúdo, Quando os Lobos Uivam é um nítido desmentido».
Aquilino Ribeiro Machado, filho do escritor, que se confessou «embaraçado» por falar do pai, lembra-o como um homem «avesso a homenagens, cumprimentos e admiração». Mas, realçou, neste caso, sentir-se-ia «agradado e agradecido» com esta homenagem. A edição comemorativa seria, certamente, guardada em lugar de destaque na sua grande biblioteca.

Aquilino Ribeiro recebeu carta de presos políticos
Um documento histórico

Na exposição patente junto ao auditório onde se realizou o lançamento da obra, estavam diversos materiais de inquestionável valor histórico. Manuscritos originais de Quando os Lobos Uivam, notícias de jornais estrangeiros sobre o julgamento do escritor após a sua publicação – Le Monde, Combat, Estado de São Paulo, Portugal Democrático, entre outros –, notas pessoais sobre o processo judicial e uma reprodução da mensagem enviada pelos presos políticos do Forte de Peniche a Aquilino Ribeiro, lida, na sessão, por Jerónimo de Sousa. Transcrevemos na íntegra essa mensagem:
«Senhor Aquilino Ribeiro, neste ano de 1963, em que perfaz meio século de labor literário, queira escutar mais esta voz que se vem juntar ao coro amigo que o saúda – voz que chega do fundo duma prisão, falando pela boca de mais de uma centena de portugueses encarcerados, há longos anos, pelo único crime de muito amarem a liberdade do seu povo, o progresso da sua Pátria, a Paz no mundo.
«Outros dirão dos méritos do escritor, da pujança do seu estilo, da verdade das personagens que criou, da seiva espessa que lhe sobe das raízes mergulhadas no povo e na terra, e vai florescer em fecunda alegria de viver nas páginas dos seus livros. Outros dirão ainda do acordo exemplar entre o homem e o artista, e da íntima comunhão da sua vida com as vicissitudes da vida nacional nos últimos 50 anos. Outros dirão – e nós estamos também entre os que celebram a glória do escritor, sem dúvida uma das figuras cimeiras da nossa história literária.
«Mas outra é a especial saudação que o nosso coração e o nosso pensamento nos ditam e aqui lhe trazemos. Queremos saudar o cidadão corajoso e íntegro, que não se vendeu nem dobrou aos poderosos e aos tiranos, que denunciou com desassombro a torpe mentira dos tribunais políticos e a ferocidade da repressão policial, que exaltou a revolta popular, e que soube fazer frente, com o cajado firme da sua pena de escritor, aos lobos fascistas que assolam os povoados da nossa terra.
«Queremos saudar o intelectual generoso e lúcido, que tantas vezes soube erguer alto a sua voz em defesa da paz, contra o furor dos fautores da guerra. Queremos saudar o homem viril e fraterno, pela sua inabalável confiança nas forças populares e no destino dos homens, nas suas conquistas científicas e no seu progresso moral, e confiança que o leva, em meio da noite fascista e ao cabo de setenta anos duma vida tantas vezes dura, a saber ainda olhar em frente, olhar para o sol, e apontar aos companheiros a visão estimulante do futuro radioso da humanidade.
«Senhor Aquilino Ribeiro: Longa vida lhe desejamos! Para que possa prosseguir por muitos anos ainda no seu belo trabalho criador. Para que a sua figura altiva de lutador se possa manter presente na frente de combate pela Democracia, a Justiça e a Paz. E para que, sobretudo, em breve possa ver o sol esplendoroso da Liberdade brilhar de novo e para sempre sobre o nosso querido Portugal.
«Os presos políticos do Forte de Peniche».

Um artista para lá do seu tempo

Coube a Manuel Augusto Araújo falar sobre as pinturas de João Abel Manta que ilustram a edição comemorativa de Quando os Lobos Uivam. Para o orador, a palavra «ilustrar» pode trazer uma certa ambiguidade: é que João Abel Manta «não usa o texto literário para enfocar situações que transpõe para desenhos ou pinturas». Pelo contrário, afirmou, «utiliza o texto literário para propor uma leitura crítica que ajuda a esclarecer o escrito, engrandecendo-o».
A primeira pintura que surge na obra é um retrato do escritor. Segundo Manuel Augusto Araújo, é um retrato «distinto dos desenhos a carvão dos anos 40/50 onde o artista, ainda jovem, já evidencia um virtuosismo que irá apurar com o correr dos anos, sem nunca dele ficar prisioneiro».
Aquilino Ribeiro tinha sido pintado pelo seu pai, Abel Manta, em 1936: «Aquilino Ribeiro pintado por Abel Manta, está sentado, olha-nos com severidade luminosa mas com bonomia, segurando um livro anunciador de muitos outros. Aquilino Ribeiro agora retratado por João Abel Manta olha-nos com dura severidade por sobre os fantasmas dos seus personagens, com sabedoria adquirida em anos de lutas com a vida e com a escrita. Um é um magnífico exemplo de realismo naturalista o outro de realismo expressionista.»
Para Manuel Augusto Araújo, João Abel Manta é um artista que, «em tempo de facilidades e demagogias artísticas, está para lá do seu tempo e das contingências das oscilações do gosto». Estas ilustrações são disto mais uma afirmação.

Batalha pelo conteúdo

O texto de Álvaro Cunhal tomado para prefácio desta edição é, segundo Manuel Gusmão, «uma peça interessantíssima para quem queira estudar as constantes do seu pensamento político, o modo como supõe um pensamento na sociedade e da cultura portuguesas e, em particular, para quem procure conhecer a evolução do seu pensamento em matéria de estética e, especialmente, de estética literária».
Datável de 1963, situa-se entre dois outros textos: 5 Notas sobre Forma e Conteúdo, escrito na prisão e publicado na Vértice em 1954 sob o pseudónimo «António Vale» e o discurso proferido na I Assembleia de Artes e Letras em 1978. A evolução do seu pensamento sobre estas questões encontra-se exposta em A Arte, o Artista e a Sociedade e, também, na sua própria obra literária.
No «prefácio», realça Manuel Gusmão, Cunhal afirma que «dominado há 37 anos por uma ditadura fascista, Portugal oferece a particularidade de que a corrente dominante na literatura não é a corrente oficial mas a corrente democrática e revolucionária. Este facto só por si testemunha o isolamento do governo ao serviço de uma dúzia de grupos monopolistas associados ao imperialismo estrangeiro e de algumas centenas de latifundiários».
O regime fascista, assinalava Álvaro Cunhal, «fez tudo para criar uma arte e uma cultura apologéticas». Mas falhou. Segundo o histórico dirigente comunista, falhou porque «a arte apologética só pode ser uma arte superior quando inspirada pelas ideias das classes ascendentes».


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