«Apresentam como prejuízo a perda de lucros mas embolsam milhões»
Capital passa factura ao trabalho
Despedimentos em massa
Na última semana foram extintos mais de 90 000 postos de trabalho no mundo. O rol não é exaustivo e não inclui a ameaça de despedimento de 60 000 trabalhadores só no grupo Fiat.
Os números publicados nesta edição já estarão desactualizados quando o jornal chegar às bancas. Os despedimentos sucedem-se a um ritmo avassalador, deixando claro a quem é que o capital apresenta a factura da crise que assola o sistema. Na generalidade dos casos, as empresas apresentam como prejuízo a perda de lucros, mas continuam a embolsar milhões. Um «prejuízo» em nada comparável ao sofrido por milhões de pessoas cujo único capital é a sua força de trabalho. Veja-se o levantamento possível e tire-se as conclusões.
O grupo holandês ING – banca e seguros – anunciou esta segunda-feira a supressão de 7000 postos de trabalho em todo o mundo, alegando um prejuízo de mil milhões de euros no exercício de 2008.
O grupo, que em Outubro recebeu do governo uma injecção de capital de 10 000 milhões de euros e vai receber nova ajuda – o aval do Estado holandês a 80 por cento das hipotecas problemáticas que o ING detém nos Estados Unidos da América –, espera conseguir com a liquidação de empregos agora anunciada uma economia de mil milhões de euros em 2009 e uma redução estrutural dos custos de cerca de 1,1 mil milhões de euros a partir de 2010.
Também a Philips, gigante electrónica holandesa, vai eliminar 6000 empregos, após ter registado um prejuízo de 1,5 milhões de euros no quarto trimestre de 2008. Em termos globais, as perdas do ano transacto ascendem a 186 mil milhões de euros, o primeiro prejuízo registado desde 2003, segundo a Lusa. Em Portugal, a única fábrica da Philips ainda a laborar, em Ovar, encerra até ao final de 2009, deixando no desemprego cerca de 70 trabalhadores.
Ainda no sector electrónico, a japonesa Sony estima uma perda de mais de dois mil milhões de euros no fim do exercício de 2008-2009, enquanto a sul-coreana Samsung anunciou a semana passada o seu primeiro prejuízo trimestral: uma perda de 12,16 milhões de euros entre Outubro e Dezembro. A japonesa NEC Tokin anunciou a supressão de 9450 postos de trabalho, 450 dos quais no Japão.
Na área das telecomunicações, a norte-americana Sprint Nextel propõe-se liquidar 8000 empregos, para além de já ter suspenso os aumentos salariais.
A farmacêutica Pfizer vai igualmente despedir um elevado número de trabalhadores: 19 000, o que corresponde a cerca de 15% dos seus funcionários, e encerrar cinco fábricas. Ainda nos EUA, a Home Depot (produtos para o lar) faz face à crise despedindo 7000 trabalhadores, enquanto a Texas Instruments (componentes electrónicos) vai dispensar 3000 funcionários, o equivalente a 12% dos efectivos da empresa. A fabricante de chips alega per perdido 86% do seus lucros líquidos no quarto trimestre de 2008. Quanto ao grupo informático IBM, que há uma semana anunciou lucros líquidos melhores do que os esperados em 2008, estará a preparar a extinção de 1419 empregos no departamento de software e de 1449 nas áreas de distribuição e venda, segundo anunciou o sindicato Aliance-IBM.

Despedir em nome da crise

Também a multinacional norte-americana Microsoft anunciou a supressão de 5000 empregos em 18 meses, dos quais 1400 de imediato, para poupar cerca de 1,5 mil milhões de dólares. O anúncio foi feito a 20 de Janeiro, no mesmo dia em que a Microsoft revelou a queda de 11% nos seus lucros no último trimestre de 2008, o que significa que «apenas» arrecadou 4,17 mil milhões de dólares.
No sector automóvel, a maior ameaça de despedimentos em massa vem da construtora italiana Fiat, que ameaça lançar 60 000 pessoas no desemprego se não obtiver apoios do governo. Entretanto, a alemã BMW decidiu colocar 26 000 trabalhadores em regime de trabalho parcial, a partir de Fevereiro, e até princípios de Março. A principal unidade de produção afectada será Dingolfing, que tem 15 mil trabalhadores. As outras serão Regensburgo (oito mil trabalhadores), Landshut (2700) e Berlim (190).
A General Motors, por seu turno, já anunciou que vai reduzir os turnos em duas fábricas nos EUA, eliminando 2000 postos de trabalho, para além de ir restringir a produção em mais 13 fábricas nos EUA e no Canadá.
No sector do aço a situação é idêntica: a empresa Corus, a segunda maior fabricante de aço da Europa, anunciou a eliminação de 3500 postos de trabalho, a maioria dos quais (2500) no Reino Unido, segundo a BBC. A Corus emprega actualmente 42 000 em vários países, sendo que 24 000 destes postos de trabalho se situam no Reino Unido.
Igualmente no Reino Unido, o Royal Bank of Scotland prepara-se para eliminar pelo menos 750 empregos na unidade irlandesa Ulster Bank.
Já a Caterpillar, líder no sector de veículos e maquinaria pesada nos EUA, anunciou a intenção de suprimir 20 000 empregos em todo o mundo, justificando a medida com a quebra de 32% nos lucros do quarto trimestre de 2008: os resultados líquidos foram 661 milhões de dólares, menos 314 milhões do que em 2007.
Também o maior banco de França (BNP Paribas) espera ter «apenas» três mil milhões de lucros, cerca de metade dos resultados alcançados em 2007, pelo que decidiu despedir 800 trabalhadores.
Quanto à Société Générale, outra importante instituição da banca francesa, limitou os seus lucros para o exercício de 2008 a cerca de dois mil milhões de euros, menos sete mil milhões de euros do previsto.


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