Um triunfo da esperança contra o medo
Mauricio Funes eleito em El Salvador
FMLN vence presidenciais
A Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) venceu as eleições presidenciais de domingo em El Salvador. Mauricio Funes obteve 51,2 por cento dos votos contra 48,7 por cento obtidos pelo candidato da direita, Rodrigo Ávila.
O resultado, confirmado pelo Supremo Tribunal Eleitoral quando estavam contados mais de 90 por cento dos boletins, coloca um ponto final a décadas de poder da Aliança Republicana Nacionalista (ARENA), facto que levou milhares de salvadorenhos a festejarem nas ruas da capital, San Salvador, e de outras cidades do país a histórica vitória da FMLN.
As autoridades nacionais e os observadores internacionais (União Europeia e Organização de Estados Americanos) indicaram que o sufrágio decorreu de forma transparente, tranquila, pacífica e massiva. Votaram cerca de 60 por cento dos mais de 4,2 milhões de eleitores inscritos, mais 6 por cento que nas legislativas e municipais de Janeiro – igualmente vencidas pela FMLN, que no entanto não obteve a maioria absoluta no parlamento –, mas abaixo da taxa de participação registada em 2004, quando 67 por cento dos eleitores acorreram às urnas.
Reagindo ao triunfo, Mauricio Funes sublinhou que será o «presidente da verdadeira reconstrução do país» e apelou aos dirigentes da ARENA e aos responsáveis pelas relações exteriores dos EUA para que «deixem para trás os velhos modelos da intolerância e exclusão e, em troca, ofereçam-nos o respeito e a coexistência democrática».
O ex-correspondente da CNN e militante recente da FMLN, lembrou ainda que El Salvador «está na alvorada de uma nova era de mudança», mas voltou a vincar que sendo «o presidente da justiça social» protagoniza uma «mudança segura», repetindo, aliás, aquele que foi o seu slogan de campanha.
Apesar da extrema moderação no discurso, Funes não deixou de frisar que esta foi «uma vitória dos cidadãos que acreditaram na esperança e venceram o medo» e, também por isso, «uma vitória de todo o povo».

Avanço histórico

A eleição de Mauricio Funes para a presidência de El Salvador põe termo ao domínio das instituições e dos órgãos de soberania por parte da extrema-direita. Tal ocorre num território ainda marcado pelas feridas de uma guerra civil, desencadeada pelas forças contra-revolucionárias em 1980 e só interrompida doze anos depois com um balanço de mais de 75 mil vítimas, na sua maioria partidários dos interesses populares, esmagados com o apoio da Casa Branca.
Não é de somenos que o partido fundado em 1981 por Roberto d'Aubuisson Arrieta – organizador dos esquadrões da morte e da campanha criminosa levada a cabo antes e durante a guerra civil; terrorista treinado pelos norte-americanos na Escola das Américas e responsável por inúmeras torturas e assassinatos contra militantes comunistas, progressistas e de esquerda salvadorenhos, entre os quais o arcebispo Romero – tenha admitido publicamente a derrota.
O seu candidato, Rodrigo Ávila, fez-se acompanhar por todos os ex-presidentes, Alfredo Cristiani (1989-1994), Armando Calderón (1994-1999) e Francisco Flores (1999-2004), e pelo mandatário em exercício, Antonio Saca, e perante uma multidão que entoava o hino da ARENA (cujos versos clamam «pátria sim, comunismo não» ou «El Salvador será a tumba dos vermelhos») foi obrigado a garantir o respeito pelos resultados, num cenário de anticomunismo arrepiante mas que há uns anos poucos admitiam que sucedesse naquele país.
Acresce que, durante a campanha, o próprio Funes, defensor de uma batalha eleitoral de baixa agressividade política, alertou para os indícios que apontavam a preparação de uma fraude por parte da direita. O ARENA estaria alegadamente a transportar eleitores de países vizinhos com títulos de cidadania falsificados. A FMLN chegou a apresentar provas respeitantes a uma nicaraguense e denunciou casos semelhantes com oriundos das Honduras e da Guatemala.
Os chefes das missões de observação da UE não esconderam o desconforto quanto ao papel do presidente Saca no apoio a Ávila e da operação mediática contra a FMLN.

O «papão» socialista

No que sobre a campanha mediática concerne, vale a pena destacar duas linhas de orientação fundamentais cuja falência nas urnas importa reter.
A primeira, o uso e abuso do suposto «perigo bolivariano» contra a FMLN e Mauricio Funes. Rodrigo Ávila insistiu que a vitória da Farabundo Martí abria a porta ao «socialismo do século XXI» proposto pela Venezuela e que El Salvador não deveria seguir o caminho de países como a Nicarágua e as Honduras (falou só dos vizinhos centro-americanos mais próximos). «Chávez e a FMLN são inimigos dos Estados Unidos. Um voto para a FMLN é um voto para Chávez. Não sejamos mais um satélite de Chávez», afirmavam os anúncios televisivos e radiofónicos da ARENA. Imagens de soldados venezuelanos nas ruas e montagens aludindo a situações caóticas na República Bolivariana repetiram-se nos tempos de antena.
A segunda, a instrumentalização da aliança estratégica com os EUA e a nova administração Obama. Quarenta e seis congressistas norte-americanos escreveram uma carta à secretária de Estado Hillary Clinton advertindo que uma vitória de Funes representava uma ameaça potencial para a segurança dos Estados Unidos. A extrema-direita usou ainda a imagem de Obama para influenciar o eleitorado. Ex-assessores eleitorais do actual presidente norte-americano terão trabalhado com Ávila e o ARENA divulgou uma entrevista com um dos homens de Obama, Dan Restrepo, arrasando Chávez e a Venezuela.
A campanha permitiu a Rodrigo Ávila, ex-chefe da polícia nacional do país, aproximar-se de Mauricio Funes, a quem as sondagens asseguravam, semanas antes da consulta, uma vantagem de quase dois dígitos nas intenções de voto, mas não lhe permitiu ganhar.
As toneladas de intoxicação não lograram fazer a direita vencer, não amedrontaram o povo, e o sentido do voto dos salvadorenhos prova que no «pátio das traseiras» de Washington as alternativas políticas de cariz anti-imperialista, progressista e de defesa da soberania nacional têm ainda muito terreno para conquistar.

País dependente

El Salvador espelha a falência do capitalismo como solução para os grandes problemas da humanidade. Bairros de lata, violência, consumo e tráfico de drogas duras persistem e alastram. 35 por cento da população é «oficialmente» pobre e 40 por cento encontra-se em situação de desemprego ou a trabalhar com vínculos precários.
O dólar norte-americano é a moeda oficial desde 1992. O défice da balança comercial em 2008 foi superior a 5200 mil milhões de dólares e, desde 1999, as estatísticas oficiais confirmam que o crescimento médio anual não ultrapassa os 3 por cento. Um quarto dos salvadorenhos viu-se na contingência de emigrar para os EUA e 18 por cento do PIB do país resulta das remessas destes para as respectivas famílias.
El Salvador foi o único país da América Latina a manter um contingente de ocupação no Iraque até ao fim do mandato das Nações Unidas, mostrando a fidelidade aos sectores mais reaccionários da principal potência imperialista.


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