Editorial

«A ruptura terá que ser conquistada através da luta»

RUMO AO FUTURO

O agravamento da situação social continua a ser o traço marcante da vida nacional. O desemprego aumenta, muitas vezes incidindo em elementos da mesma família. Acresce que cerca de 55% dos trabalhadores desempregados não recebem qualquer subsídio, por razões que se prendem, essencialmente, com as consequências da precariedade e com as dificuldades de acesso ao subsídio - estas resultantes da rejeição por parte do PS da proposta apresentada pelos deputados do PCP no sentido do alargamento dos critérios de atribuição do subsídio de desemprego.
Por outro lado, aumenta o número de trabalhadores com salários em atraso, também em muitos casos atingindo todo o agregado familiar e gerando situações dramáticas para cada vez mais famílias, muitas das quais têm na sopa dos pobres o seu único recurso.
A insegurança, directa ou indirectamente, instala-se num universo de milhões de pessoas que vivem não apenas sem perspectivas de futuro mas sob o peso de um incontornável medo do presente.
Tudo isto a confirmar que a crise global do capitalismo encontrou na crise provocada pela política de direita o terreno ideal para se instalar e fazer os seus estragos – e que, à boleia da «crise», o grande capital acentua a exploração geradora de maiores injustiças sociais, de mais pobreza, de mais miséria.
Entretanto, o Governo PS/José Sócrates - agindo como um autêntico conselho de administração dos grandes grupos económicos e financeiros que salva os banqueiros e exige mais e mais sacrifícios aos trabalhadores e ao povo – prossegue a política de direita que, iniciada há mais de três décadas, é a causa principal do gravíssimo estado a que o País chegou.

O primeiro-ministro e os seus ministros, dando-se ares de esquerda benemérita, passeiam pelo País, numa escandalosa operação de marketing, anunciando milagres sociais, espalhando a ilusão de que estão a resolver os problemas, procurando esconder que a continuação da política responsável pela situação a que o País chegou, não só não é solução para nenhum dos problemas existentes como agrava todos os dias todos eles.
Um ministro, devidamente acompanhado pelo panegirista destacado para o efeito pelo Diário de Notícias, viaja quatro dias pelo Norte do País, numa acção propagandística que seria apenas demagoga e ridícula se não fosse, acima de tudo, insultuosa e ofensiva para todos os que, por efeito da acção do ministro e dos seus pares, vivem situações dramáticas – e o referido panegirista eleva a deprimente acção do ministro aos píncaros da glorificação servil e bacoca...
Outro ministro, que acumula o cargo com o de coordenador da campanha eleitoral do PS, passeia-se pelo País em verdadeira campanha de caça ao voto a troco da distribuição de «cheques e casas» - certamente sabendo que essa acumulação de funções é, por si só, bem elucidativa da ausência, por parte do partido do Governo, da mais elementar sensibilidade democrática, e espelha luminarmente um boçal desrespeito pela inteligência e pela dignidade dos portugueses.
A realidade tem-nos mostrado sobejamente que o actual Governo levou mais longe do que qualquer dos que o antecederam – desde o Governo PS/Mário Soares, em 1976 – a política de direita contrária aos interesses dos trabalhadores, do povo e do País. Os últimos acontecimentos mostram que o Governo PS/José Sócrates superou tudo e todos também em matéria de desfaçatez e desvergonha.

É hoje claro para parte grande da sociedade portuguesa que a solução para os graves problemas que afligem a imensa maioria das pessoas passa por uma ruptura com esta política de direita e pela implementação de uma política de sentido oposto.
Também se apresenta como coisa evidente que tal ruptura terá que ser conquistada através da luta – luta das massas trabalhadoras, das populações, de todos os que sofrem todos os dias as consequências dessa política.
Não é por acaso que os propagandistas da política de direita têm desenvolvido todos os esforços no sentido de impedir o desenvolvimento da luta, difundindo a ideologia da sua inutilidade; da aceitação passiva da inevitabilidade da exploração e da perda de direitos, da resignação e do medo. E as reacções desses propagandistas às lutas dos últimos tempos – desde a impressionante manifestação de 13 de Março até às mais recentes e significativas acções dos estudantes, dos agricultores e dos jovens trabalhadores – mostram bem o ódio de classe que os possui e a frustração que os invade.
O PCP, único partido a combater essa ofensiva ideológica e a acreditar na possibilidade de rejeição das teses da resignação, tem desempenhado um papel singular no desenvolvimento e intensificação da luta.
Quer através das suas iniciativas próprias – acompanhamento solidário de todas as lutas em curso; acções inseridas na campanha «sim, é possível uma vida melhor!»; acção institucional; iniciativas relacionadas com as comemorações do aniversário do Partido, de que o almoço com 1300 pessoas, em Castro Verde, é exemplo – os militantes comunistas têm dado um contributo decisivo no combate à política de direita e pela alternativa necessária.
E assim continuará a ser nos tempos que aí vêm – e, desde já, na preparação das comemorações do 25 de Abril e do 1.º de Maio, que constituirão, certamente, duas importantes jornadas de luta e de festa dos trabalhadores e do povo.
E é nessa perspectiva que o colectivo partidário prepara a Marcha de 23 de Maio, a qual, inserida na campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, é contudo muito mais do que isso, na medida em que aponta inequivocamente para a indispensável ruptura com a política de direita, rumo ao futuro.


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