Resolução do PE não distingue nazi-fascismo do comunismo
PE impõe visão histórica
A falsificação anticomunista
A maioria do Parlamento Europeu aprovou, no dia 2, uma resolução que pretende impor às novas gerações uma visão falsificada do passado com o único objectivo de criminalizar o comunismo e assim branquear o fascismo.
O texto, proposto pelo PPE, Liberais, União pela Europa das Nações e Verdes com o apoio dos socialistas, foi aprovado com 553 votos, 44 contra e 33 abstenções. Concluiu-se assim um processo iniciado em Junho de 2008, durante a conferência em Praga intitulada «Consciência Europeia e Comunismo», da qual saiu uma declaração que foi subscrita por 50 eurodeputados. Seguiu-se um seminário, realizado em Novembro, no qual participaram 18 estados-membros da UE, que definiu um quadro de cooperação internacional para a «elucidação dos crimes dos regimes totalitários» que existiram na Europa.
Mais recentemente, em 18 de Março, organizada pela presidência checa da UE, realizou-se numa audiência designada «A Consciência Europeia e Crimes do Comunismo Totalitário», na qual pontuaram o vice-primeiro ministro checo, Alexandr Vondra, o comissário europeu da Cultura, Jan Figel, eurodeputados e representantes de ONG.
Como resulta claro das próprias designações escolhidas, e embora por vezes pretendam à «imparcialidade» utilizando o termo «totalitarismo», o objectivo dos mentores destas iniciativas não é, claramente, estudar o horror nazi, responsável por uma guerra que matou 60 milhões de pessoas, dos quais 23 milhões de soviéticos, comunistas em primeiro lugar, e que arrasou um país vindo de ser construído, na década de 1930, graças ao esforço heróico dos povos da URSS, sob a direcção do Partido liderado por Stáline.
Não, o objectivo é, pelo contrário, reescrever a história para criminalizar o comunismo e o que designam por «stalinismo», considerando-o igual ao nazismo, mas mais perigoso, porque o sonho de uma sociedade sem explorados nem exploradores – alcançado primeiro com a Revolução de Outubro e depois conquistado, na sequência da derrota do nazi-fascismo, em vários países do Centro e Leste Europeu – continua vivo na consciência dos povos, em particular dos que conheceram essa experiência e que hoje sofrem as agruras do agravamento da crise do capitalismo.

Uma resolução vergonhosa

Sintoma da má-consciência de alguns deputados, a resolução pelo PE, reconhece implicitamente que não existe legitimidade política, nem base científica para criminalizar o comunismo.
Assim, o texto aprovado admite que, «segundo a opinião dos historiadores, não é possível fazer interpretações inteiramente objectivas dos factos históricos e que não existem narrativas históricas objectivas».
A seguir acrescenta que «nenhum órgão ou partido político detém o monopólio da interpretação da História», considerando ainda que «as interpretações políticas oficiais dos factos históricos não devem ser impostas por decisões maioritárias dos parlamentos» e que «os parlamentos não podem legislar sobre o passado».
No entanto, a resolução proposta pelos deputados Tunne Kelam (Estónia), Jana Hybáskova (República Checa) e József Szájer (Hungria) tenta fazer exactamente o que diz não se poder fazer, falsificando a história e pretendendo institucionalizar essa falsificação.
Ou seja, como salientou na sua declaração de voto o deputado do PCP, Pedro Guerreiro, «esta vergonhosa resolução aprovada pelo PE insere-se na operação de distorção da verdade histórica, levada a cabo pelas forças reaccionárias e revanchistas, as derrotadas na Segunda Guerra Mundial – as mesmas que, por exemplo, reabilitam nos seus países os colaboracionistas com a barbárie nazi.»
«O objectivo», sublinhou o deputado «é branquear o nazi-fascismo e condenar o comunismo, isto é, branquear o carrasco e o opressor, condenando as suas vítimas e os seus oprimidos. O seu objectivo é apagar o contributo decisivo dos comunistas e da União Soviética para a derrota do nazi-fascismo, o seu papel nos avanços das condições de vida dos trabalhadores, o seu contributo para a libertação dos povos do jugo colonial, após a Segunda Guerra Mundial. (...) No fundo, o seu intento é a criminalização dos comunistas, da sua acção e dos seus ideais.»

Misturar para confundir

Embora reconhecendo «o carácter único do Holocausto» nazi, a resolução insiste em enfiar tudo no mesmo saco «nazismo, stalinismo e os regimes fascistas e comunistas», considerando, sem mais, que, «do ponto de vista das vítimas, a natureza do regime que as privou de liberdade, torturou ou assassinou, por qualquer que seja o motivo, não é relevante». Assim, hipocritamente, o Parlamento Europeu coloca no mesmo pé tanto os que tentaram escravizar uma parte dos povos europeus e promoveram uma aterradora guerra de extermínio como os que deram generosamente as suas vidas para libertar a humanidade do nazi-fascismo.
Com esta argumentação indigente, o texto rejeita «qualquer tipo de poder totalitário, qualquer que seja o seu enquadramento ideológico» e lança uma ameaça velada a todos os que acreditam e defendem os ideais comunistas, considerando que «é necessário uma vigilância para combater as ideias e tendências antidemocráticas, xenófobas, autoritárias e totalitárias», tudo misturado, como lhes convém.
Mas se dúvidas restassem quanto ao objectivo desta resolução, as medidas que ela propõe esclarece-las-iam: pede ao Conselho e à Comissão que apoiem organizações anticomunistas como a «Memorial» na Federação Russa, a única que é citada no texto, e solicita a criação de uma «Plataforma da Memória e da Consciência Europeias», para coordenar as «investigações» sobre os «regimes totalitários», organismo que o comissário europeu da Cultura já se disponibilizou a financiar, afirmando ao jornal checo Prague Daily Monitor, que «os fundos [para tal projecto] não constituem um problema».
Na mesma linha, a resolução propõe que o dia 23 de Agosto seja declarado «Dia da Memória» das vítimas de todos os regimes autoritários e totalitários, prometendo uma «comemoração com dignidade e imparcialidade».
Por último, estes arautos «imparciais» das liberdades e da dignidade humana, aludindo aos antigos países socialistas da Europa, afirmam que a análise dos «crimes» dos «regimes totalitários comunistas» tem hoje por objectivo «a reconciliação» a qual, afirma-se no texto, «pressupõe o reconhecimento da responsabilidade, o pedido de perdão e o encorajamento à renovação moral». Ou seja, exigem o arrependimento e a humilhação pública de todos os que acreditaram e ainda acreditam nos ideais supremos de uma sociedade sem classes, liberta do jugo do capital.
A Inquisição não fez melhor com Galileu...


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