Editorial

«Comemorar o Dia do Trabalhador no 35.º aniversário do 1.º de Maio de 1974»

ABRIL, MAIO, A LUTA

Por todo o País, centenas de milhares de pessoas - em manifestações, espectáculos, sessões, confraternizações diversificadas – comemoraram o 25 de Abril em festa e em luta, ou seja: relembrando a data com todo o profundo significado que ela transporta; tomando-a como referência essencial na resposta aos problemas do presente – e assim confirmando que Abril está vivo na memória e no coração dos portugueses. Dos que viveram os dias e os meses exaltantes da Revolução de Abril, mas também, sintomaticamente, dos milhares e milhares de jovens nascidos depois do 25 de Abril e que marcaram presença relevante nas comemorações.
Isto, naturalmente, no que às comemorações populares diz respeito, pois foi nestas que se comemorou Abril. Nas outras «comemorações», feitas de discursos e escritos ao sabor da contra-revolução, a data foi apenas o pretexto para atacar e deturpar Abril, os seus ideais, as suas conquistas, a sua democracia avançada – e portanto para, desavergonhadamente, se propagandear a política de direita que é a política da contra-revolução de Abril.
Aliás a ofensiva da ideologia dominante, no seu diversificado leque de expressões, assumiu nas últimas semanas dimensões impressionantes. Quanto ao seu conteúdo limitou-se à repetição da habitual cassete anti-Abril: para além da utilização da data e do que ela significa (para melhor a combater) e da apresentação de visões manipuladoras como se de conclusões universais se tratasse, houve também a invocação dos «ideais de Abril», naturalmente contra Abril, puxando a si a imagem positiva da expressão, arvorando-se em seus epígonos e herdeiros, mas introduzindo-lhe um conteúdo de sentido oposto ao seu sentido real – fingindo não saber que os ideais de Abril não foram, nem poderiam ter sido, definidos e passados a escrito previamente, salvo no que ao derrubamento do governo fascista e à instauração da liberdade diz respeito; fingindo ignorar que os ideais de Abril foram construídos e conquistados pelas massas em movimento, à medida que o processo revolucionário avançava e dava expressão concreta aos sonhos, anseios e aspirações dos trabalhadores e do povo.
De resto, foi o silenciamento ou a adulteração do papel do PCP e do movimento operário, quer no combate ao fascismo quer na construção da democracia de Abril; o branqueamento do fascismo e dos seus principais responsáveis – e como não podia deixar de ser, o apagamento ou o denegrimento soez daquele que foi figura maior da Revolução de Abril e que permanece vivo na memória e no coração do povo: o general Vasco Gonçalves.
No Parlamento, o Presidente da República produziu um discurso à sua maneira: sublinhando os «tempos difíceis, muito difíceis que o país atravessa», mas ocultando as razões dessas dificuldades (bem como a sua cota parte de responsabilidade nelas), e apresentando como solução… mais do mesmo, isto é, a continuação, no essencial, da política que conduziu Portugal à grave situação em que se encontra: a política de direita praticada desde há 33 anos por sucessivos governos PS/PSD/CDS-PP- e que, em quase um terço desse tempo, tiveram como primeiro-ministro precisamente o actual Presidente da República.
Louve-se-lhe, no entanto, a coerência: falou pouco de Abril e voltou a afirmar-se como o único chefe de Estado que nunca pôs um cravo de Abril ao peito. Registe-se ainda o facto, por demais sintomático, de o seu discurso ter sido recebido com apreço por todos os partidos com assento parlamentar – à excepção, naturalmente, do PEV e do PCP.

Amanhã, Abril voltará a estar nas ruas em todo o País: de Norte a Sul e nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, centenas de milhares de trabalhadores virão para as ruas, ao apelo da sua central sindical – a CGTP-IN – numa jornada também ela de festa e de luta.
Trata-se não apenas de comemorar o Dia do Trabalhador, mas igualmente de festejar o 35.º aniversário do 1.º de Maio de 1974, dessa poderosa demonstração da força independente e autónoma da classe operária e dos trabalhadores portugueses – que foi momento decisivo na consolidação da liberdade que havia sido conquistada uma semana antes e foi arranque impetuoso e imparável rumo ao processo revolucionário que, com as suas conquistas históricas, iniciou a construção da democracia política, económica, social, cultural, assente na clara assumpção da independência e da soberania nacional – e que a Constituição de Abril viria a consagrar.
Trata-se de um 1.º de Maio, no qual os trabalhadores virão exigir o respeito pelos seus direitos, protestar contra o desemprego, o emprego precário, os baixos salários e os salários em atraso, exigir a ruptura com a política de direita e uma política que retome os valores de Abril.
Trata-se de um 1.º de Maio em que os trabalhadores virão afirmar a sua disponibilidade de luta e a sua determinação de lhe dar continuidade, alargando-a e intensificando-a, atraindo a ela novos segmentos das massas trabalhadoras.
Para os comunistas e restantes activistas da CDU, esse será um dia de carregar baterias para as muitas batalhas que têm pela frente, designadamente as que dizem respeito ao ciclo eleitoral, para as quais lhes é exigido, para além do esforço, sempre grande, que faz parte do seu dia-a-dia militante, o esforço ainda maior, suplementar, indispensável para superar os muitos obstáculos que se lhes deparam. E será também um dia em que no pensamento de todos estará a data de 23 de Maio: o dia da
Marcha de protesto contra a política de direita; de ruptura com essa política; de confiança na força da luta das massas populares como caminho para alcançar esses objectivos, rumo a Abril de novo.


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