Os trabalhadores recusam pagar a factura da crise capitalista
Dia Mundial do Trabalhador comemorado em todo o mundo
Maio de luta afirma socialismo como alternativa
Milhões de trabalhadores comemoraram, sexta-feira, 1 de Maio, o Dia do Trabalhador. A data foi assinalada em todo o mundo com grandes acções de massas populares, que para além de exigirem dos respectivos governos medidas concretas face às consequências da crise capitalista, reiteraram que não podem ser os trabalhadores e os povos a pagar a factura do sistema predador baseado na exploração, defenderam os processos de soberania e anti-imperialistas em curso, e afirmaram o socialismo como alternativa.
Foi, por isso, um Maio de luta o que saiu à rua em inúmeras cidades de todos os continentes. De combate por questões imediatas – a protecção do emprego e a manutenção dos direitos laborais duramente conquistados em décadas de luta; o aumento dos salários, reformas e pensões num contexto de empobrecimento galopante e agravamento das condições de vida de milhões de seres humanos; o fim das ajudas milionárias ao capital financeiro e das políticas de choque que visam socializar os prejuízos e extorquir aos trabalhadores e às camadas antimonopolistas o refinanciamento do grande capital; a nacionalização de recursos e sectores estratégicos em cada país; o aumento dos impostos para os rendimentos mais elevados e para as fortunas acumuladas pela burguesia; a tributação das operações especulativas, só para citar alguns exemplos –, mas também de afirmação do socialismo como objectivo estratégico dos trabalhadores e dos povos e única solução contra a barbárie.

Determinação e unidade

Se na América do Norte, epicentro da crise capitalista e principal sorvedouro dos recursos a nível mundial, a maioria das dezenas de milhares de trabalhadores que saíram à rua em centenas de cidades para festejarem o 1º de Maio eram imigrantes mobilizados pelas respectivas associações de defesa de direitos – nos EUA o Dia do Trabalhador é celebrado em Setembro –, na Europa as manifestações foram na sua esmagadora maioria promovidas pelas organizações de classe e pelo movimento sindical unitário.
Em França, pela primeira vez desde há muitos anos, quase uma dezena de estruturas sindicais dinamizaram conjuntamente cerca de 300 concentrações e desfiles por todo o país. As centrais dizem que pelo menos 1,2 milhões de gauleses participaram nas acções. Ainda assim, menos de metade do número de manifestantes contabilizados nas comemorações ocorridas na Rússia, 2,5 milhões de pessoas nas maiores e mais combativas manifestações dos últimos 20 anos.
Em unidade, decorreram, igualmente, as iniciativas em várias regiões do Estado espanhol. Em Madrid, Comissiones Obreras (CCOO) e UGT reiteraram a rejeição à proposta de novo contrato laboral avançada pelos patrões. Estes pretendem impor um vínculo indefinido, com duração máxima de dois anos e uma indemnização por despedimento nunca superior a oito dias de trabalho. Os trabalhadores nem querem ouvir falar no assunto e equacionam a convocação de uma greve geral, bem como reivindicam do governo de Zapatero medidas que travem os despedimentos maciços. Dias antes do 1º de Maio, nem as manchetes dos jornais da burguesia ocultaram o número de desempregados no país: mais de quatro milhões, 800 mil dos quais perderam o posto de trabalho nos primeiros três meses do ano.
Na Alemanha, onde a maior crise desde a II Grande Guerra Mundial fará recuar o PIB em 6 por cento, dizem as previsões oficiais, e o número de «desocupados involuntários» supera já os 5 milhões, os sindicatos exigiram do governo medidas efectivas de combate ao desemprego e sustentaram uma maior carga fiscal para os mais altos rendimentos e para as operações em bolsa. Os ricos que paguem a factura da crise, ouviu-se nas iniciativas da confederação sindical DGB. No território da extinta República Democrática Alemã o socialismo foi a solução apresentada pelos trabalhadores em muitos dos protestos efectuados, tal como em Varsóvia, na Polónia, onde a marcha que terminou frente ao parlamento decorreu sob a palavra de ordem «liberdade, igualdade e socialismo».
Em Itália, os principais dirigentes sindicais do país decidiram comemorar Maio na martirizada cidade de Aquila, solidarizando-se, assim, com as vítimas do terremoto, mas na Grécia o alvo dos protestos do movimento sindical foi o governo conservador e o sistema capitalista. «Pagámos o enorme crescimento [económico] e a acumulação de lucros. Não pagaremos também a crise do capitalismo!», disse o Partido Comunista da Grécia num comunicado que expressa bem o sentimento dos helénicos quanto à actual situação do país e do mundo.

Repressão não abafa protestos

Na Turquia, centenas de milhares juntaram-se em Istambul e tentaram chegar à Praça Taçkim, no centro da cidade. A habitual marcha que assinala o dia dos trabalhadores e coloca na rua as aspirações e exigências destes em cada momento, mas que serve também para lembrar o massacre de 31 manifestantes, em 1977, voltou a ser brutalmente reprimida pela polícia. Dezenas de trabalhadores acabaram detidos.
Cenário semelhante em Santiago do Chile, onde cerca de 20 manifestantes foram presos na sequência da marcha levada a cabo na capital, e na Colômbia. Só em Bogotá, 117 pessoas foram detidas, entre as quais 36 menores, e 5 resultaram feridas. A polícia levou para a capital colombiana veículos blindados e canhões de água procurando impedir as 13 marchas que confluíram numa praça central da cidade, concentrando mais de 150 mil pessoas que lograram escapar às provocações oficiais.
No Brasil, a legalidade das centrais sindicais decidida anteriormente pelo governo de Lula da Silva abriu campo de acção àquelas organizações e quebrou o clima de medo entre a população. Sem receios e unindo as três maiores organizações do país – Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), União Geral dos Trabalhadores (UGT) e Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST) –, mais de 200 mil reuniram-se em São Paulo, mas também noutras grandes cidades como Natal ou Caxias do Sul em festejos do 1.º de Maio que defenderam a redução da jornada de trabalho sem perda de salário, a reforma agrária e a defesa dos serviços públicos.
Nas Filipinas, a vigilância apertada das autoridades não impediu que milhares protestassem contra o desemprego e denunciassem a incapacidade do governo de Glória Arroyo em fazer frente à crise capitalista ao lado de quem trabalha. Ainda no continente asiático, destaque para as mobilizações na Tailândia, onde perto de um milhão de postos de trabalho directos, principalmente na indústria exportadora e no turismo, foram delapidados nos últimos meses; na Indonésia, com o povo a exigir aumentos salariais, progressos na legislação laboral e medidas contra a deslocalização de unidades produtivas; em Taiwan, onde o desemprego já supera os 5,8 por cento, ou na Malásia, onde multidões rejeitaram as soluções do executivo para a superação da crise que, sublinharam igualmente, não pode ser o povo a pagar.

Defender os progressos, consolidar as transformações

Em Cuba, o 1.º de Maio celebrou os 50 anos da revolução e reafirmou a construção do socialismo. A multidão manifestou-se empenhada em trabalhar de forma mais eficiente por forma a contribuir para o desenvolvimento do país e diminuir o desperdício de recursos e a dependência externa, por exemplo, ao nível alimentar.
Na iniciativa que reuniu centenas de milhares na Praça da Revolução, em Havana, a Central de Trabalhadores de Cuba exigiu ainda aos EUA que ponham fim ao bloqueio económico e comercial contra o país, sublinhando as palavras do presidente, Raúl Castro, que lembrou que Cuba não deve gestos de boa-fé à administração Obama, a qual, para além de manter inalterada a política criminosa de anteriores administrações, contra a ilha socialista mantém-a na lista, publicada pelo Departamento de Estado um dia antes, a 30 de Abril, de países que apoiam o terrorismo.
O exemplo de Cuba tem sido estímulo para que outros povos se libertem do jugo opressor do imperialismo na América Latina, caso da Bolívia, onde a propósito do 1.º de Maio o presidente Evo Morales anunciou a nacionalização da AirBP, filial local da gigante British Petroleum. A empresa abastece aviões em doze aeroportos do país e a sua inclusão no sector público é um acto de defesa da soberania e unidade nacional quando os sectores mais reaccionários da oligarquia boliviana procuram, com o apoio do imperialismo, dividir o país e tomar posse dos recursos autóctones.
Em La Paz, perante milhares de pessoas, Evo Morales instituiu ainda um aumento de 5 por cento no salário mínimo e assinou quatro diplomas que ampliam e asseguram o cumprimento dos direitos laborais independentemente do tipo de vínculo contratual, tais como a obrigatoriedade dos patrões garantirem condições de higiene, saúde e segurança no local de trabalho, ou a obrigatoriedade de pagamento das indemnizações aos trabalhadores despedidos num prazo de 90 dias, em vez dos actuais cinco anos.
Na Venezuela, o dia do trabalhador ficou marcado pela entrada em vigor de um aumento salarial extraordinário que abrange milhões de pessoas das camadas mais desfavorecidas, decidido, em Março, pelo governo bolivariano, e pela gigantesca marcha promovida pelos partidos e organizações sindicais revolucionárias e progressistas.
Diante de centenas de milhares de apoiantes, em Caracas, o presidente Hugo Chávez rechaçou ainda as infâmias do governo de Barack Obama quanto à não colaboração da Venezuela no combate ao terrorismo. «Se algum governo arremeteu contra os povos deste e doutros continentes, usando distintos métodos ilegais, violentos e terroristas, foi o imperialismo norte-americano», frisou.
Nas antípodas das iniciativas realizadas pelas forças de esquerda, a oposição venezuelana procurou manchar o Dia do Trabalhador com uma marcha na capital. A manifestação, encabeçada pelo presidente da Câmara de Caracas, António Ledezma, tinha um percurso inicial acordado com as autoridades. De um momento para o outro, Ledezma apelou aos presentes para que rompessem a barreira policial e se dirigissem à Assembleia Nacional. Um grupo de choque da direita desatou a provocar confrontos com a polícia metropolitana e a guarda nacional, tudo transmitido em directo e com amplo investimento de meios pela estação de televisão Globovision, e, posteriormente, amplificado em jornais, televisões e agências noticiosas em todo o mundo.
Menos divulgado foi o facto do grupo ter tentado, sem sucesso, incendiar uma tenda da Produtora e Distribuidora Venezuelana de Alimentos. A estrutura da entidade que disponibiliza géneros alimentares a preços populares foi regada com gasolina e ficou quase totalmente destruída, atitude que ilustra o carácter dos envolvidos na manifestação da oposição e as dificuldades que enfrentam os que no processo bolivariano procuram elevar as condições de vida dos trabalhadores antes deixados à miséria e à fome pelo poder aliado do capital.


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