Os EUA apoiam a Geórgia e a sua integração na NATO
Manobras imperialistas no Cáucaso
Tensão política e jogos de guerra
A Rússia classifica de ameaça directa as manobras de guerra que a NATO efectua na Geórgia durante este mês. Os exercícios iniciaram-se num contexto de crescente contestação interna ao governo georgiano e avolumam as tensões no Cáucaso.
Em declarações proferidas após uma reunião com diversos líderes da oposição, realizada segunda-feira, o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, considerou que as conversações foram uma «vitória da democracia» e adiantou ter proposto aos integrantes do movimento contestatário a instalação de uma comissão encarregue de elaborar «um modelo constitucional equilibrado». Saakashvili disse ainda estar disposto a que o mesmo grupo de trabalho proceda à análise da legislação eleitoral e do sistema judicial, e instou os seus adversários a aceitarem uma divisão do poder.
Leitura diferente sobre o resultado da reunião têm os representantes da oposição. Embora divididos em quatro facções, para já todos parecem estar de acordo em que o objectivo de Saakashvili, com o início das conversações, foi aliviar a pressão das manifestações quase diárias. Para a oposição, o facto de a reunião ter decorrido no Ministério do Interior ilustra ainda o regime repressivo montado pelo chefe do governo de Tiblissi, os ataques perpetrados contra o regime democrático e as tentativas de abafar as vozes dissonantes e a liberdade de expressão.

Protesto alastra

Apesar do clima de intimidação oficial, só no sábado, cerca de 20 mil georgianos voltaram às ruas da capital para exigirem a demissão do presidente e a convocação de eleições gerais, numa das maiores acções de massas desde o começo dos protestos, em Abril. Desde então, as reivindicações populares apontam para a renúncia do presidente, acusado de vencer as eleições de forma fraudulenta e de arrastar a Geórgia para um conflito com a Rússia, aventura que, sustentam, teve um forte impacto nas condições de vida dos trabalhadores e na economia georgiana, na medida em que a Rússia era o maior parceiro comercial do país. Este facto, associado às consequências da crise mundial, avolumou a disponibilidade para a luta pela mudança de protagonistas políticos.
Acresce que, mesmo entre as forças armadas, até agora terreno blindado dos apoiantes de Saakashvili, surgem evidentes sinais de descontentamento, expressos numa manifestação de insubordinação a uma ordem do governo, ocorrida no início da semana passada.
O motim da unidade de tanques foi rapidamente debelado pelos militares fieis ao executivo, entre prisões dos seus principais promotores e acusações de que estes «agiram a soldo de uma potência estrangeira [a Rússia]». Mas a verdade é que a recusa do comandante Mamuka Gorgishvili em usar a força contra a concentração popular frente ao parlamento georgiano ecoou forte.

Jogos perigosos

O conflito político na Geórgia desenrola-se em simultâneo com os exercícios militares da NATO no território, que decorrem entre 6 de Maio e 1 de Junho. Para a Rússia, os jogos de guerra não são profícuos nas relações entre Moscovo, Washington e a Aliança Atlântica, acirram ainda mais as tensões no Cáucaso e constituem uma ameaça directa à Rússia, disse o primeiro-ministro Vladimir Putin. No mesmo tom, o presidente russo, Dimitri Medvedev, considerou as manobras da NATO uma provocação à Rússia poucos meses após ter ocorrido uma guerra na região. Em cima do acontecimento, a Arménia recusou participar devido à aproximação da NATO ao Azerbaijão, juntando-se ao Cazaquistão, Letónia, Estónia, Moldávia e Sérvia.
Nas vésperas do início das operações que envolvem membros efectivos da Aliança Atlântica e «parceiros estratégicos» na região – ultimados numa sessão de trabalho que reuniu 40 altos responsáveis militares de outros tantos países – a animosidade entre o Kremlin, a Casa Branca e Bruxelas subiu de tom.
À expulsão de dois diplomatas russos pela NATO, acusados de espionagem num caso que envolve um oficial estónio, Herman Simm, condenado a 12 anos de prisão por alegadamente ter entregue documentos secretos aos serviços secretos russos, respondeu Moscovo com a expulsão de dois diplomatas canadianos, funcionários do Centro de Informação da NATO na capital russa; à assinatura por parte da Rússia de tratados de protecção fronteiriça com as secessionistas regiões da Ossétia do Sul e da Abkhásia, responderam a NATO e o Departamento de Estado norte-americano dizendo que tal constituía uma contravenção face aos acordos de cessar-fogo assinados em Agosto de 2008 sob patrocínio francês. Uma troca reacções e diplomacia musculada que reflecte a dínâmica de tensões no Cáucaso.
Em 2006, exercícios similares envolvendo países membros da NATO e parceiros estratégicos da Aliança Atlântica ocorreram na Moldávia. Nos anos seguintes realizaram-se na Albânia, e Arménia. Também em 2008, os jogos de guerra da NATO na Geórgia desembocaram na agressão promovida por Saakashvili contra a Ossétia do Sul e a consequente resposta russa (ver caixa).

Antecedentes reveladores

A NATO disse que a Rússia nada tem a temer com os exercícios que agora decorrem, mas num artigo publicado no globalresearch.ca, Rick Rozoff recorda que os acontecimentos recentes indicam o contrário.
Antes da agressão georgiana do ano passado, exercícios similares foram realizados, primeiro no Mar Negro, a 15 de Maio, depois na Geórgia, entre 15 e 31 de Julho com o sugestivo nome de «resposta imediata».
Segundo Rozoff, em simultâneo com o «resposta imediata», militares norte-americanos procediam a novo exercício de guerra no Mar Negro, chamado de «brisa marinha», usando facilidades ucranianas e com a participação da Arménia, Azerbeijão, Canadá, Dinamarca, França, Geórgia, Alemanha, Grécia, Lituânia, Macedónia, Noruega, Roménia, Turquia e Grã-Bretanha.
Quando o «resposta imediata» terminou, uma semana antes da invasão georgiana da Ossétia do Sul, nem todos os militares e equipamentos norte-americanos foram retirados do território. Ali permaneceram pelo menos 127 monitores norte-americanos, diz o autor.
Assinada a trégua negociada por Paris, navios da marinha de guerra dos EUA levaram «ajuda humanitária» para os portos georgianos de Poti e Batumi, e, em Agosto, estacionaram uma força naval de intervenção rápida no Mar Negro.
Em Setembro, a marinha dos EUA admitia, num boletim noticioso daquele ramo das forças armadas, ter treinado, desde 2005, cerca de 5 mil soldados georgianos em programas de combate de 17 semanas. No mesmo periódico, admitia-se que apesar do contingente militar georgiano ser de 28 mil homens, os EUA vinham treinando e equipando os georgianos para um efectivo de 100 mil.
Já em Outubro de 2008, uma equipa de peritos do Pentágono visitou a Geórgia para perceber as razões da derrota militar de Tiblissi na invasão à Ossétia do Sul, concluindo que o sucesso dos exercícios «resposta imediata» inspiraram precipitadamente Saakashvili.
No passado dia 2 de Maio, revela Rick Rozoff, o ministro dos Negócios Estrangeiros georgiano, Grigol Vashadze, disse ter recebido uma carta da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, na qual os EUA reiteram a sua posição de incondicional apoio à soberania territorial georgiana e à integração do país nas instituições euro-atlânticas, o que deu margem de manobra para que responsáveis e diplomatas georgianos garantissem que a Geórgia e os seus aliados darão uma resposta à Rússia em caso de novo conflito regional.
O dinheiro para a ajuda militar à Geórgia não é, para a nova administração Obama, um problema, tal como não foi para a administração Bush.

Nabucco adiado

Peça importante no xadrez geo-estratégico do Cáucaso é a concretização do projecto Nabucco, um gasoduto de 3300 quilómetros cujo objectivo é diminuir a dependência energética da Europa face à Rússia. Na reunião, ocorrida sexta-feira, em Praga, a UE não conseguiu, no entanto, selar um consenso entre os exportadores, países do Mar Cáspio e Egipto, e territórios de trânsito fora do espaço europeu, Turquia e Geórgia.
Apesar destes últimos e do Egipto aceitarem a proposta dos consumidores, a UE, e do Azerbaijão estar igualmente de acordo, as demais nações fornecedoras, Uzbequistão, Cazaquistão e Turquemenistão, recusaram-se a subscrever uma declaração política final.
Sendo certo que o Azerbaijão não garante por si só a viabilidade do projecto que dentro do espaço europeu atravessa ainda a Grécia, Bulgária, Roménia, Hungria e Áustria, o canal cuja construção deveria começar em 2011 e a conclusão estava prevista para 2014, parece enfrentar súbitos obstáculos. É que os países da Ásia Central não pretendem, nesta fase, afectar as respectivas relações comerciais com a Rússia, e, assim, o calendário do Nabucco encontra-se comprometido.


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