«Zelaya tem ao seu lado a maioria do povo»
Golpe de Estado nas Honduras
Povo na rua defende democracia
O presidente das Honduras regressa hoje ao país afrontando os militares que o destituíram no domingo. Os golpistas não gozam de qualquer apoio internacional, e nas ruas milhares de hondurenhos enfrentam a repressão que se abate sobre quem defende a democracia e exige respeito pela vontade popular.
Numa mensagem televisiva transmitida pela TeleSur, Manuel Zelaya apelou aos militares para que se recusem a disparar contra o povo ao qual pertencem e regressem aos quartéis. Na comunicação, o legítimo presidente das Honduras pediu ao chefe dos golpistas que respeite a República e a vontade expressa nas eleições de 2005.
Em resposta, Roberto Micheletti, rosto de um golpe preparado pela oligarquia local e executado sob as ordens das cúpulas militares reaccionárias, ameaçou prender Zelaya caso este concretize a intenção de regressar às Honduras. Micheletti defendeu a legitimidade da sua posição com os mandatos de captura emitidos pelo Supremo Tribunal e pela Procuradoria-Geral, órgãos que a direita golpista controla.
Durante a reunião extraordinária do Grupo do Rio, que decorreu segunda-feira, em Manágua, na Nicarágua, Zelaya anunciou para hoje, quinta-feira, o seu regresso ao país. O presidente hondurenho aceitou a proposta do secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), o chileno José Miguel Insulza, que se disponibilizou para o acompanhar na viagem, e convidou todos os chefes de Estado que o queiram igualmente fazer a estar presentes. «Não é uma ingerência nos assuntos internos do meu país. É o presidente das Honduras que vos convida», disse Zelaya na referida conferência.

Revolta popular

Para além de Insulza, a presidente da Argentina, Cristina Kirchener, e do Equador, Rafael Correa, anunciaram que vão desembarcar com o deposto presidente no regresso ao território. Mas, mais que os altos dignitários latino-americanos, Zelaya tem ao seu lado a esmagadora maioria do povo do seu país.
Desde segunda-feira que centenas de milhares de hondurenhos permanecem sublevados nas ruas de dezenas de cidades e localidades. Os populares responderam ao apelo das três centrais sindicais e de forças políticas e sociais que prontamente se opuseram ao golpe unindo-se na Frente de Resistência Popular. A FRP tem repetido apelos à manutenção da mobilização e ao desrespeito pelo recolher obrigatório imposto pelo autoproclamado governo, o qual qualifica de «fascista.
Às corajosas movimentações de massas contra o golpe têm respondido Micheletti e os militares com o bloqueio informativo e violentas vagas repressivas. As emissões de rádio e televisão são alvo de censura. Algumas redacções foram invadidas pelos militares. Só funcionam os canais privados favoráveis aos golpistas. A electricidade e Internet foram cortadas. Na capital, Tegucigalpa, pelo menos 135 pessoas ficaram feridas e pelo menos 345 já foram detidas durante os confrontos.
Frente ao palácio presidencial, pouco mais de 24 horas após o rapto de Zelaya, ocorreram os incidentes mais graves. Dezenas de milhares de hondurenhos cercaram o edifício protegido por batalhões do exército e tanques militares. Helicópteros sobrevoavam a multidão. A polícia e o exército carregaram brutalmente disparando tiros, granadas de gás lacrimogéneo e usando canhões de água. Em vão, a multidão, refeita, voltava ao protesto insistindo em bloquear as vias de acesso ao palácio, por onde os militares procuravam fazer chegar reforços para novamente reprimir os sublevados. Um camião militar acabou por atropelar um dos manifestantes. O homem não resistiria aos ferimentos.
A deputada hondurenha eleita pela União Democrática, Silvia Ayala, disse aos repórteres da rádio venezuelana YVKE Mundial, citada pelo Tribuna Popular, que o presidente da Câmara da cidade de San Pedro Zula teve que abandonar o país depois de emitida uma ordem de captura contra ele. Ayala denunciou ainda a repressão que se abate sobre a população daquela cidade e sublinhou que os deputados que se opunham ao juramento de Roberto Micheletti nem sequer foram convocados para a sessão parlamentar, na qual o até agora presidente do parlamento foi empossado presidente da República. Para além dos deputados da oposição, dirigentes sindicais, sociais e políticos hondurenhos são perseguidos pelos militares, apostados em decapitar os quadros mais destacados da rebelião.
Não obstante, nas ruas de várias cidades hondurenhas como Trinidad, Santa Bárbara e Azacualpa, informa ainda o Tribuna Popular, os populares montaram barricadas e bloqueiam estradas resistindo como podem e demonstrando a força imparável do movimento popular.

Passos do golpe

Na semana que antecedeu o golpe de Estado nas Honduras, o presidente Manuel Zelaya manteve um diferendo com as altas esferas judiciais, militares e com os sectores políticos conservadores, representantes do capital nacional e internacional ameaçado pela aproximação das Honduras às forças que, na América Latina, promovem processos anti-imperialistas e de defesa da soberania nacional.
Zelaya pretendia realizar uma consulta popular sobre a instalação de uma Assembleia Constituinte no país. Os órgãos judiciais e o parlamento opuseram-se e procuraram impedir a realização do referendo. O presidente ordenou ao chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o general Romeo Vázquez, que desse apoio logístico ao plebescito, mas perante a recusa deste em cumprir a ordem, não só foi obrigado a chamar a população para resgatar as urnas e os boletins de voto, como se viu na contingência de exonerar Vásquez.
A destituição do general foi a gota de água para a direita, que na madrugada de domingo mandou 200 militares invadir a residência presidencial. Entre tiros, arrombamentos, agressões, ameaças, Zelaya não sabe como escapou com vida, disse mais tarde relatando o sequestro.
Do seu quarto no palácio presidencial, Zelaya foi levado, ainda em pijama para a sede da Força Aérea e, dali, para San José da Costa Rica. Só quando o avião que transportava Zelaya estava prestes a aterrar é que o presidente da Costa Rica foi avisado. Aliás, importa dizer que a aeronave conduzida pelos golpistas atravessou, sem autorização, o espaço aéreo da Nicarágua.
Depois de deixarem Zelaya na Costa Rica, os golpistas organizaram uma sessão fantoche no parlamento hondurenho. Nela foi apresentada uma falsa carta de renúncia de Zelaya por motivos políticos e de saúde, e nomeado Roberto Micheletti para a presidência.

A força da unidade

Os 192 estados membros das Nações Unidas e a sua Assembleia Geral, a OEA, a UE e outras instituições regionais e internacionais e países de todos os continentes condenaram o golpe, sem excepção, fruto da pronta e decidida acção dos países membros da ALBA, sobretudo Cuba, Venezuela, Nicarágua, Equador e Bolívia. Estes, convocaram desde logo uma reunião extraordinária para a capital da Nicarágua – na qual decorreu posteriormente o encontro do Grupo do Rio – e ali receberam Manuel Zelaya. De Manágua, apelaram ao repúdio internacional, sem rodeios, para com o golpe, à defesa da legalidade constitucional e ao regresso de Zelaya ao cargo para o qual foi eleito pelo povo, defendendo, igualmente, o direito deste a reagir ao golpe pelo protesto e a luta.

Exemplo de coragem

Reagindo ao golpe contra a democracia nas Honduras, o embaixador de Cuba em Portugal, Jorge Castro Benitez considerou que esta foi uma campanha pensada pela oligarquia e inspirada pelos que sempre têm apoiado intentonas contra governos democraticamente eleitos na América Latina. A questão, referiu o diplomata cubano ouvido, segunda-feira, pelo Avante!, é que «desta vez equivocaram-se nos cálculos», sobretudo porque, com a ALBA e a correlação de forças favoráveis ao campo anti-imperialista, o subcontinente «não é mais o mesmo que obedecia servilmente aos EUA e aos seus interesses de domínio regional».
Se este golpe triunfasse, sublinhou Jorge Castro, «abrir-se-ia um precedente que poderia animar outras oligarquias nacionais noutros países latino-americanos», correndo-se o perigo de voltarmos décadas atrás, quando as ditaduras militares imperavam na América do Sul e no Caribe. Neste contexto, disse ainda, «não há lugar para meias tintas. Ou se está com a democracia, ou com o golpe fascista».
Nas declarações ao Avante!, o representante diplomático de Cuba em Lisboa contou ainda o episódio envolvendo o homólogo cubano nas Honduras. Quando a ministra dos Negócios Estrangeiros, Patrícia Rodas, se apercebeu do golpe pediu imediatamente aos embaixadores de Cuba, da Venezuela e da Nicarágua que a protegessem na sua residência.
Depois de terem chegado os diplomatas, um grupo de militares surgiu com o objectivo de levar Rodas, mas os representantes resistiram. Os embaixadores da Venezuela e da Nicarágua acabaram por ser afastados, mas o cubano Juan Carlos Hernández não cedeu apesar das agressões múltiplas. Os militares foram mesmo obrigados a arrastá-lo abraçado à ministra para dentro de um veículo militar. Só na base aérea donde os golpistas haveriam de fazer partir Patricia Rodas rumo ao México é que os militares lograram quebrar a resistência de Hernández.
O embaixador cubano foi depois deixado pelos golpistas numa estrada, e foi com o auxílio dos populares que regressou à embaixada de Cuba, onde, concluiu Jorge Castro Benitez, se mantém com toda a delegação cubana a postos para defender a democracia e o povo.
Sem dúvida um exemplo de coragem.


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