Não é a redução de custos que move a administração da Autoeuropa
PCP contra chantagem na Autoeuropa
Dignidade de classe
Na Autoeuropa trava-se uma intensa luta de classes, acompanhada por uma não menos violenta pressão ideológica para forçar os trabalhadores a abrir mão de direitos. O PCP está no seu posto, do lado dos trabalhadores.
A maioria dos trabalhadores da Autoeuropa «rejeitou que, mais uma vez, os seus direitos fossem reduzidos e entendeu defendê-los perante a ofensiva que a administração moveu, recorrendo à chantagem, com a ajuda da comunicação social e de todo um conjunto de fazedores de opinião encomendados para o efeito». Esta é a leitura da célula do Partido na Autoeuropa à rejeição, em referendo interno, do pré-acordo proposto conjuntamente pela administração e pela Comissão de Trabalhadores.
Na edição de Junho de O Faísca, editado no dia 24, os comunistas consideravam que as justificações apresentadas para esta nova tentativa de imposição de recuos nos direitos «não têm qualquer credibilidade». Na opinião do PCP, «não faz sentido reduzir o pagamento do trabalho suplementar quando, na Autoeuropa, os custos com os salários, no cômputo geral dos custos de produção, representam apenas 5 por cento».
Além disso, as medidas preconizadas no pré-acordo representariam uma «redução mínima». Da mesma forma, questionam os comunistas, «porquê o trabalho extraordinário ao sábado quando dizem haver redução de produção?»
No mesmo texto, a célula comunista alertava: «o resultado deste referendo não afasta definitivamente o perigo do recuo de direitos. A administração voltará à carga, de novo acompanhada do coro dos comentadores, do Governo e das associações patronais».
Curiosamente, foi no próprio dia em que foi lançada essa edição de O Faísca que o administrador da Autoeuropa, Andreas Heinrichs, enviou uma carta aos «colaboradores» da empresa, onde anunciava novas medidas, entre elas a redução da produção, a manutenção dos termos do pré-acordo e a aplicação de 10 dias de lay-off até ao final de 2009.

Respeitar os trabalhadores

Entretanto, a célula do Partido editou um novo boletim onde contesta esta decisão da administração. Para os comunistas, trata-se de uma «afronta aos interesses dos trabalhadores». Com esta declaração, acrescentam, a administração «deixa cair a máscara da “livre negociação” e mostra a sua face de, uma vez mais, chantagem gratuita». Reafirmando que a «vontade dos trabalhadores deve ser respeitada», o PCP defende que, face ao resultado do referendo, a solução terá de ser encontrada «entre as partes».
A proposta da administração revela uma flagrante contradição, revelando o carácter puramente político das medidas propostas. Se, por um lado, mantém os termos do pré-acordo que prevê, ainda para este ano, o trabalho em dois sábados pagos a singelo (o que pressuporia a necessidade de aumentar a produção), por outro, avança com o lay-off, totalmente em sentido oposto.
Para a célula do Partido (expressa na edição de O Faísca de Junho), os trabalhadores devem exigir que a administração respeite e tenha em conta «todos os sacrifícios que os trabalhadores já fizeram no passado, com as cedências para defender o emprego, criar novos postos de trabalho e permitir a vinda de novos produtos». Mas também que respeite o «impacto que essas cedências tiveram nos resultados da empresa ao longo dos últimos anos, nomeadamente em termos de poupanças».
Qualquer solução encontrada, acrescenta no texto, deve assegurar a «manutenção dos postos de trabalho existentes (os efectivos e os contratados a prazo), tendo em conta e recordando o compromisso de criação de cerca de mil novos postos de trabalho com a chegada do novo Sharan». Bem como respeitar os direitos e garantias dos trabalhadores, prosseguindo o normal funcionamento da produção.

Crise para quem?

Os comunistas da Autoeuropa rejeitam que a situação na empresa justifique as medidas propostas pela administração. Na edição de Maio de O Faísca, o PCP propôs que os lucros obtidos no passado deveriam servir para «ultrapassar a crise do presente». E é possível fazê-lo, como se comprova pelas conclusões da reunião anual de accionistas da Volkswagen, onde se decidiu aumentar os dividendos em relação ao ano anterior – mais de 700 milhões de euros. A tudo isto acrescem os cerca de 900 milhões disponibilizados pelo Governo no quadro do Programa de Apoio ao Sector Automóvel.
Mas a tal «crise» parece não ser para todos. A revista alemã Der Spiegel divulgou, em Março deste ano, os rendimentos dos administradores do grupo Volkswagen. Aqui ficam alguns exemplos, divulgados pelos comunistas na empresa no passado mês de Abril: Martin Winterkorn aumentou o seu rendimento anual de 5,1 para 12,7 milhões de euros em 2008; Hans Dieter Potsch de 2,7 para 9,5 milhões; Francisco Garcia passa de 2,9 para 9,5 milhões de euros, enquanto que Jochem Heizmanm vê o seu rendimento anual passar de 2,6 para 6,9 milhões. Horst Neumann fica-se pelos 6,8 milhões, quando antes auferia 2,7. Ou seja, a remuneração dos cinco principais gestores aumentou de cerca de 16,5 milhões, em 2007, para 45,5 milhões no ano seguinte.

Anticomunismo para atacar direitos

A rejeição do pré-acordo pelos trabalhadores deu azo a grande alarido na comunicação social nacional, toda ela fazendo coro em defesa da necessidade de os trabalhadores abrirem mão de direitos em nome do «combate à crise». Pelo mesmo diapasão afinaram o primeiro-ministro, José Sócrates, o ministro do Trabalho, Vieira da Silva, e outros, como Belmiro de Azevedo.
Em alguns dos mais destacados periódicos acusou-se o PCP de ter «conduzido» à rejeição do acordo, falando outros em «manipulação». Acção esta, repetiram até à exaustão, que poderia custar alguns postos de trabalho.
A estas acusações respondeu o próprio Secretário-geral do PCP, no dia 23 de Junho, da seguinte forma: «Não admitimos nem autorizamos ninguém a afirmar isso», disse Jerónimo de Sousa, lembrando que «os trabalhadores não são manipuláveis». Em sua opinião, a rejeição do pré-acordo foi um acto de «dignidade de classe» dos trabalhadores da Autoeuropa.


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