Destaque: «Não tenhas compaixão, tudo o que fazes será santificado», diziam aos soldados
Soldados israelitas revelam atrocidades em Gaza
As ordens eram para matar
Israel ordenou aos soldados que disparassem indiscriminadamente durante a invasão da Faixa de Gaza, confirmam soldados do exército israelita, cujos testemunhos são um arrepiante relato dos crimes de guerra cometidos durante a operação «Chumbo Fundido».
De acordo com um relatório de mais de uma centena de páginas apresentado a semana passada pela ONG Breaking the Silence, no qual se incluem os testemunhos de 26 operacionais e reservistas israelitas envolvidos na invasão da Faixa de Gaza, o comando militar e político israelita deu ordens explícitas para que os soldados não distinguissem entre civis desarmados e militantes do Hamas, instando-os a não hesitar em matar inocentes porque, para Telavive, «na guerra urbana qualquer pessoa é nosso inimigo. Não há inocentes». «Se algumas vez nos falaram de inocentes, foi para nos dizerem que não havia inocentes», sublinha um dos soldados citados pela ONG.
Os homens entrevistados pela Breaking the Silence destacam ainda que os responsáveis da ofensiva não se cansavam de repetir que «isto é a guerra e na guerra não há restrições para abrir fogo», ou que as considerações humanitárias, naquele ataque, não tinham qualquer cabimento, por isso, exortavam os comandantes, «não deixeis que a moralidade seja um problema. Deixa os pesadelos para mais tarde e agora dispara, simplesmente».
Muitos dos soldados enviados para a frente de combate, por vezes batalhões inteiros, eram formados por jovens de 19 ou 20 anos que exibiam «um ódio e uma alegria de matar», dizem os soldados ouvidos pela ONG sob reserva de anonimato. «Para eles a vulgaridade e a violência são uma forma de vida», para além do que «não havia ninguém interessado em controlá-los», acrescentam.

Arrasar Gaza

Mas no decurso da agressão de Israel contra o povo palestiniano, iniciada a 27 de Dezembro e cujo balanço é de 1417 mortos, entre os quais 926 civis, mais de 50 mil habitações, 200 escolas, 800 propriedades industriais, 39 mesquitas e duas igrejas destruídas, muitas mais ordens criminosas foram dadas aos militares no terreno.
Um dos objectivos era arrasar a Faixa de Gaza destruindo habitações e infra-estruturas, táctica particularmente incisiva nas zonas próximas da fronteira. O nome de código dessas investidas era «o dia seguinte». Na prática, traduzia-se na destruição de reservatórios de água, casas, escolas, hospitais e tudo o que, ficando de pé, fosse um sinal da presença de populações palestinianas no território.
«Não se deixava uma só casa intacta», a ordem «era arrasar toda a área envolvente», diz um dos soldados. «O meu comandante disse-me, meio a rir, meio a sério, que essas demolições podiam acrescentar-se à sua lista de crimes de guerra», continua.
Se um tanque não conseguia efectuar uma manobra, bombardeava uma dúzia de casas em redor e prosseguia», exemplifica outro.
O uso de escudos humanos e os bombardeamentos com fósforo branco são igualmente práticas descritas nos relatos. «Antes de entrar numa casa era normal lançar mísseis, disparar obuses e granadas», procedimentos que, reconhecem, são «destruição em massa que não estava relacionada com qualquer ameaça directa».
Para penetrarem nos edifícios em «segurança», os soldados enviam primeiro um «Johnny», isto é, um palestiniano que ia na frente dos soldados.

Guerra santa

Finalmente, o documento divulgado pela Breaking the Silence atesta que às práticas descritas corresponde uma superstrutura ideológica, uma doutrina.
Panfletos distribuídos pelo exército apelavam à guerra santa judia contra os palestinianos, classificados como «estranhos nesta terra», ou afirmando que aquela era «uma luta entre a luz e a obscuridade». «Os palestinianos são os filhos da obscuridade e nós os filhos da luz», propagandeavam.
«Não tenhas compaixão, deus protege-te e tudo o que fazes será santificado», garantiam os textos distribuídos pelo departamento Consciência Judia para um Exército Israelita Ganhador.
Reagindo aos relatos, o governo israelita considera-os «boatos e rumores». O ministro da Defesa, Ehud Barak, afirmou mesmo que o exército israelita é «um dos exércitos mais morais do Mundo, que se comporta de acordo com o mais elevado código ético».

Israel prossegue ofensiva

Entretanto, Israel não apenas mantém como aprofunda a ofensiva contra o povo palestiniano. Para além das incursões, dos assassinatos selectivos e dos disparos contra populares que se aproximam das redes de separação entre os dois territórios – ainda no domingo um jovem palestiniano ficou ferido na Cisjordânia – e do bloqueio que deixa Gaza votada à miséria, outras práticas persistem no objectivo de expulsar os palestinianos dos seus territórios.
De acordo com o Palestine Return Centre (PRC), a chegada do novo governo israelita assinala o incremento de uma política racista de limpeza étnica. A mudança para hebreu do nome das ruas nas cidades árabes é apenas um dos muitos exemplos.
No que à ocupação do território diz respeito, o PRC frisa que desde a chegada de Netanyahu à chefia do governo, mais de 1600 ordens de demolição foram dadas em Jerusalém, resultando na expulsão de milhares de palestinianos. Algumas das áreas terraplanadas convertem-se em condomínios com jardins e a preços reduzidos só para judeus israelitas.
Em toda a Cisjordânia continua a construção de colonatos, a confiscação de terras férteis e a construção do Muro da Vergonha. Segundo o Centro Israelita para os Direitos Humanos nos Territórios Ocupados, citado pelo rebelion.org, o número de colonatos na região cresceu cerca de 37 por cento nos últimos seis anos, política que não só não merece uma condenação clara por parte da UE e dos EUA, como, a serem verdadeiras as informações veiculadas nos meios de comunicação social, vai continuar com o apoio das potências capitalistas.
Alegadamente a administração Obama estará a negociar com o executivo de Telavive a legalidade dos colonatos construídos e dos projectos homólogos previstos, espezinhando todas as convenções e resoluções internacionais sobre a matéria e fazendo da política do facto consumado um instrumento de subjugação do povo palestiniano e de deslegitimação do seu direito a constituir um Estado soberano e viável.


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