Editorial

«O que PS e PSD prometem é continuar a política que conduziu o País a este estado»

SEM SURPRESAS

A dois meses das eleições, a pouco mais de um mês da Festa do Avante! – e em tempo de férias... – o colectivo partidário comunista prossegue o vasto e intenso conjunto de tarefas que a situação impõe: a construção da Festa; as apresentações públicas dos candidatos às legislativas, em cada distrito; a formação, nos concelhos e freguesias, das listas autárquicas, ou a sua divulgação nos muitos casos em que já estão concluídas; a elaboração do Programa Eleitoral para as legislativas – e, questão essencial, a continuação da luta dos trabalhadores contra a política de direita e por uma política de esquerda.
Enfim, muito trabalho, a exigir muitos esforços, muita dedicação, muita militância – e só possível de concretizar por um colectivo com as características singulares deste colectivo comunista.
Sublinhe-se uma vez mais a forma participada em que assenta todo o processo de formação das listas da CDU ou, outro exemplo, todo o processo de construção do Programa Eleitoral, através de ampla auscultação de opiniões de pessoas, comunistas ou não, que conhecem a realidade nacional e se esforçam por encontrar soluções para superar a grave crise em que 33 anos de política de direita, praticada pelo PS e pelo PSD, mergulharam o País.
É certo que tudo isto com pouca ou nenhuma cobertura por parte dos média dominantes, mas essa é a velha questão...

Já o Programa Eleitoral do PS tem sido badalado por tudo quanto se diz órgão de comunicação social. Não para sublinhar o facto de ele ter sido elaborado no cenário da paisagem aterradora provocada pela política do Governo – uma paisagem lunar, de escombros, de ruínas da qual continuam a surgir todos os dias mais e mais casos devastadores: ora é o despedimento (ou o lay-off) de mais uns milhares de trabalhadores; ora é o patronato a impor a redução de salários aos trabalhadores das suas empresas, colocando-os entre a espada de acatar a imposição e a parede do despedimento - e sempre, sempre com o Governo quieto, calado, conivente, servidor; ora são, outros patrões, ou os mesmos, a não pagar pura e simplesmente os salários; ora é o caso destes três gestores da Parpública recebendo 176 mil euros como «prémio de gestão», por terem feito, principescamente remunerados, o que tinham obrigação de fazer - numa ofensa às centenas de milhares de trabalhadores com salários que mal dão para viver, ou sem salários; às centenas de milhares de reformados e pensionistas condenados a reformas e pensões de miséria; enfim, à imensa maioria dos portugueses.
Não, também, para sublinhar o facto não menos elucidativo de o Programa do PS ter sido elaborado por um grupo de pessoas que apresentam como característica comum a sua indissolúvel ligação à política de direita e a sem-surpresa que é a dose de «mais do mesmo» que o Programa comporta, prometendo, no essencial, tudo o que o anterior programa prometia e que, como se sabe, não foi cumprido – e acrescentando-lhe, agora, a promessa de uns «complementos sociais», com os quais o PS tenta esconder e iludir o drama alastrante da pobreza e da miséria provocadas pela política do seu Governo.
Em suma, não sublinhando o essencial: que o PS o que promete, se for governo, é levar à prática a mesma política que conduziu o País à dramática situação actual.
Que é, aliás, irmã gémea da política que o PSD, se for governo, se propõe aplicar – ou que ambos aplicarão em conjunto se, após as legislativas, se juntarem no tal «bloco central», semelhante ao que existe na Áustria e que tão enaltecido foi pelo Presidente da República no decorrer da sua recente visita àquele país...

Na Áustria, Cavaco Silva produziu declarações dignas de registo – registo negativo, como era previsível, nomeadamente nas considerações que verteu sobre o referendo da Irlanda, em que não apenas repetiu a sua por demais conhecida aversão a referendos, mas ousou tentar estabelecer um bizarro e perigoso conceito de cidadania europeia.
Ao afirmar, naquele seu tom sentencioso e pernóstico, que «acharia profundamente injusto que os irlandeses não se sentissem suficientemente europeus para votar “sim”», o Presidente da República assumiu a insólita e perigosa postura de se auto-proclamar como árbitro absoluto em matéria de decidir quem é e quem não é «suficientemente europeu» - decretando que não o é quem não apoiar o Tratado e sabendo, certamente, que com tal critério está a negar a condição de europeus talvez à maioria dos cidadãos da Europa. Com a agravante de, aplicando o critério aos portugueses – dos quais, parte significativa considera, de forma fundamentada, quão nefasta será para Portugal e para o povo português, a aprovação e aplicação desse Tratado – o Presidente da República poder vir um dia destes a concluir que não são suficientemente portugueses todos os que não concordarem com o dito Tratado... o que tornaria legítimo retorquir-lhe que, com tais posições,
é o cidadão Aníbal Cavaco Silva que mostra estar longe de ser suficientemente português...
Registe-se, ainda, que apesar de ter falado muito, o Presidente da República continuou a fingir que desconhece as declarações e as atitudes antidemocráticas, antipatrióticas, reaccionárias, fascistas, do presidente do Governo Regional da Madeira – assim perdendo uma oportunidade soberana para invocar, como tantas vezes tem feito, a«dignidade das instituições». E para, como lhe compete, exigir essa «dignidade».


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