«A duplicidade face à situação nas Honduras não é exclusivo dos EUA»
Contra os golpistas no poder
Hondurenhos resistem nas ruas
A Frente Nacional contra o golpe de Estado nas Honduras decidiu no domingo, 9, prosseguir e intensificar a resistência pacífica nas ruas contra os golpistas.
A decisão foi aprovada por aclamação pelas organizações populares que integram a Frente, numa assembleia nacional realizada no 43.º dia de oposição permanente ao golpe militar de 28 de Junho, enquanto milhares de pessoas marchavam para a capital, Tegucigalpa.
«Esta semana tem de ser de intensa agitação, de imensa mobilização popular nas ruas até à derrota dos golpistas», afirmou o coordenador geral da Frente, Juan Barahona, citado pela Prensa Latina, acrescentando que não podem restar dúvidas de que «os golpistas serão derrotados pela força e pela unidade do povo nas ruas».
A contestação ao governo fantoche de Roberto Micheletti tem na Marcha Nacional de Resistência Popular – iniciada em aldeias e comunidades do interior, para se dirigir para Tegucigalpa e San Pedro Sula, as duas maiores cidades do país – a sua expressão mais visível, mas todos os dias se registam novos factos reveladores do isolamento da oligarquia que, com o apoio das elites militares, derrubou o presidente democraticamente eleito, Manuel Zelaya.
É o caso, por exemplo, da decisão tomada esta semana pela Federação das Organizações Profissionais (FOMH) de prosseguir com a greve geral até à reposição do Estado de direito. Também as três centrais sindicais do país decidiram prolongar a greve geral no sector público decretada a 7 de Agosto, na sequência da qual se mantêm ocupados numerosos departamentos governamentais.
Igualmente significativo é o facto de a Associação Nacional de Médias e Pequenas Empresas ter vindo a público condenar o golpe de Estado e manifestar a sua solidariedade para com a resistência popular. Outro tanto fez o Partido da Inovação e Unidade Social Democrata das Honduras (PINU-SD), que através do seu dirigente Wilfredo Méndez repudiou o golpe e exigiu o regresso à ordem constitucional. Intervindo na assembleia nacional da Frente, Méndez disse ter «muita vergonha» por os dois deputados do partido, Toribio Aguilera e Ana Rosa Andino, bem como um punhado de outros dirigentes do PINU-SD terem apoiado os golpistas, e anunciou que já está a ser pedida a expulsão desses oportunistas.
Também no Partido Liberal (PL) grassa a revolta, com as bases a repudiar o apoio dado pela direcção do PL aos golpistas e a exigir a sua expulsão do partido, incluindo o candidato presidencial Elvin Santos.

Jogo duplo

Não é pois de estranhar que o coordenador da Frente diga, nas manifestações que se realizam diariamente nas Honduras apesar da violenta repressão do exército e da polícia, que «todo o povo está contra o golpe», não poupando críticas aos poucos que, como o cardeal Oscar Andrés Rodríguez, se juntaram aos grupos oligárquicos que usurparam o Poder.
Outro alvo das críticas populares é a administração norte-americana, acusada por Barahona de fazer jogo duplo, pois enquanto publicamente diz apoiar Zelaya vai manobrando, discretamente, para que os golpistas ganhem tempo e se consolidem no governo.
A duplicidade face à situação nas Honduras não é exclusivo dos EUA. Ainda há dias o ex-ministro e embaixador peruano Manuel Rodríguez, na coluna que escreve no diário La Primera, considerava «inexplicável» que o governo de Lima mantivesse o seu embaixador nas Honduras, sublinhando ser urgente uma nova reunião da Organização de Estados Americanos (OEA) face ao fracasso da mediação do presidente da Costa Rica, Oscar Arias, para decidir medidas mais eficazes dos governos da região contra o regime golpista de Roberto Micheletti.
Fazendo notar que, apesar da suspensão da participação das Honduras na OEA e outras medidas de isolamento político e diplomático adoptadas pela União Europeia, EUA e países latino-americanos, «o regime ilegítimo continua exercendo o poder», Rodríguez adverte que «a estratégia do golpismo é simples: resistir à pressão internacional até ao mês de Novembro, para quando estão marcadas as eleições gerais».
O regime pretende realizar estas eleições, acrescenta, «num contexto restritivo» e assegurar «a eleição de um novo governo que de algum modo seja a continuação “constitucional” do golpe militar». Será talvez por isso que, à excepção dos hondurenhos, de Washington a Lima, passando por Bruxelas, ninguém parece ter pressa.


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