A cidade que alastra
Quem sempre foi à Festa do Avante! e quem não perdeu nenhuma das aberturas, como por militância e dever de ofício me tem cabido, não deixa de tentar assinalar, ao longo dos anos, nas primeiras sextas-feiras de Setembro, o que de novo há para contar. Nos últimos anos, vimos assinalando o crescimento, em número e entusiasmo, da multidão que está presente nesse momento de abertura, quando aos primeiros visitantes, se juntam muitos construtores que acabaram o seu trabalho de preparação dos espaços e, num intervalo curto, antes de acorrerem aos serviços que os esperam, respiram a hora vibrante de uma jornada de três dias que deixa sempre na memória marcas da fraternidade, do convívio, da cultura e da luta que no vasto espaço da Atalaia tem início.
Digo, mais uma vez – e desta feita com maior razão ainda que das outras vezes – que o espaço da Praça da Paz foi curto para tão grandiosa concentração. A multidão alastrou, avenida acima e avenida abaixo, subindo pelas escadarias por detrás do palco improvisado onde tomou a palavra Jerónimo de Sousa e, do outro lado, pelos relvados que convergem sobre o lago. Com toda a propriedade, no comício de encerramento, o director do nosso jornal, José Casanova, chamou a esta abertura já tradicional, o segundo maior comício partidário do País – por o primeiro, como também é inegável, foi o de encerramento, onde se lançariam as linhas mestras de um trabalho político que, não tendo ali começado, encontrou na Festa um momento alto e vigoroso para prosseguir nas batalhas eleitorais que nos esperam.
Esse crescimento, que não é alheio ao reforço do Partido e sobretudo ao alargamento da mensagem dos comunistas que propõem ao País uma ruptura com a política de direita e lançam raízes de esperança junto dos trabalhadores, do povo e da juventude, verificou-se em todo o lado daquela cidade perfeita num país imperfeito, como tão bem classificou a Festa a jovem dirigente da JCP que tomou a palavra no comício de encerramento.
Esta cidade, erguida a pulso por mais de 7500 camaradas e amigos em mais de 50 000 horas de trabalho, como Jerónimo sublinhou depois, construída ao mesmo tempo que por todo o país a actividade política dos comunistas e dos seus aliados na CDU se intensificava em pleno Verão, esta cidade já não cabe nos limites físicos da Quinta da Atalaia.
Não cabemos todos lá ao mesmo tempo, como foi visível na extraordinária gala de ópera a que dedicamos especiais notas de reportagem. Ou nas noites seguintes, de sábado e de domingo, onde todos os espaços de convívio, de cultura e de fraternidade transbordavam.
Não cabemos todos lá, e a cidade alarga-se e alastra. Em todas as manhãs, quem se dirigisse de carro à Festa já não encontrava estacionamento nos parques previstos e cada um dava as voltas que pudesse para encontrar um lugar, mesmo distante, onde estacionar. E via, ao longo dos belos relvados da Amora, desde a beira de água às pracetas dos bairros, pequenas tendas onde os jovens tinham achado um canto para dormir. Proliferaram as tasquinhas e roulotes que, a quilómetros da Atalaia, serviam as bifanas, as sandes, o café ou a primeira cerveja do dia. Ao longo das ruas, gente e gente, dos mais velhos amparando-se no caminho aos milhares de jovens, convergiam para mais um dia de Festa.
A cidade perfeita já não cabe num lugar, por mais vasto que seja. E um dia há-de conquistar o País.

LM


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