• Anabela Fino

Quando o maravilhoso acontece
A Gala de Ópera superou todas as expectativas. O que menos surpreendeu, se assim se pode dizer, foi a própria qualidade do espectáculo, já que a escolha do programa e o elenco dos artistas traziam «selo de garantia» a toda a prova. A dúvida, se existisse, estaria no impacto com o público, essa mole humana que em cada momento é preciso prender, cativar, seduzir para que entre as partes se estabeleça a corrente de compreensão e cumplicidade que torna possível a um acontecimento tornar-se único.
O público daquela sexta-feira de Lua cheia, há que dizê-lo, era tudo menos convencional – ou o que se convencionou sê-lo – nestas coisas do bel canto. Quem nessa noite passou pelo palco 25 de Abril pôde constatar que o mar de gente ali concentrado era o mais heterogéneo possível: crianças, pessoas da mais provecta idade, adultos, adolescentes… nem se pode dizer que fosse dos oito aos oitenta, pois muitos eram os que ainda têm pela frente muita fralda para gastar…
Mas a diferença maior não era sequer a etária; quem se deu ao trabalho de olhar e ver, de escutar e ouvir, percebeu que por ali havia amantes de ópera e quem nunca tivesse tido a possibilidade ou a curiosidade de assistir a tal género de espectáculo. Quem o fez, sem o espartilho do preconceito das palmas no «momento certo» ou da obrigatoriedade da emoção contida, teve a oportunidade de assistir ao sempre comovente acontecimento que é a descoberta e o enamoramento.
Houve gente de lágrimas nos olhos ao ouvir Puccini ou Bellini; houve quem desse largas ao deslumbramento comentando alto e bom som – oh sacrilégio! – esta coisa afinal é fixe, meu! ou esta é mais fixe qu'a outra!; houve quem não resistisse a um passo de dança; houve quem trauteasse uma área de Verdi ou ensaiasse a gargalhada do palhaço de Leoncavallo Ridi – Pagliaccio, sul tuo amore infranto, ridi del duol che t'avvelena il cor!; houve enfim quem não contivesse o apelo dos pés e corresse pelo recinto vivendo a música que se desconhecia e afinal é tão bela.
A experiência única de assistir a tal espectáculo dentro do espectáculo fez-me lembrar o mestre Federico Fellini e a que é considerada a sua última obra-prima – E la nave va. Nesse navio que é uma alegoria ao «navio do mundo», admiradores da grande cantora lírica que foi Edmea Tetua partem de Itália para cumprir o último desejo da diva: lançar as suas cinzas na ilha de Érima.
A ordem do navio é a «ordem» social, estratificada em classes, ocupando cada uma o seu lugar. No fundo de tudo, isolado de todos, sujeitos a brutais condições de trabalho, estão os operários que alimentam as caldeiras e controlam as máquinas sem as quais o navio não anda. Quando os artistas visitam a casa das máquinas, onde impera um calor infernal, alguém pergunta quanto tempo passam ali os operários. A resposta do oficial é pronta: «Estão tão acostumados que adoecem quando saem.»
Mas os operários pedem aos artistas que lhes cantem uma canção para minorar o seu sofrimento, a magia do bel canto toma conta da cena e o maravilhoso acontece. Nunca os artistas cantaram tão bem, nunca um público os apreciou tanto.
Fellini já não está entre nós, mas não pude deixar de pensar como gostaria que o mestre tivesse estado na Festa do Avante! para fixar esse acto de amor que, para além da excelência do espectáculo, foi a Gala de Ópera.
A madrugada já ia alta quando os músicos da Orquestra Sinfónica do Ginásio Ópera, os membros do Coro Lisboa Cantat e os cantores líricos Ana Paula Russo, Giovanni Manfrin, Laryssa Savchenko, Pedro Correia, Luíza Dedisin, Luís Gomes, e os maestros Jorge Alves e Kodo Yamagishi abandonaram a Festa. Apesar do adiantado da hora, milhares de pessoas fizeram alas para os aplaudir uma vez mais, num inequívoco Voltem sempre! Porque la nave va.


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