Voltei ao país para dizer que vamos reconstruir a democracia
Zelaya volta às Honduras
Povo na rua desafia ditadura
O presidente legítimo das Honduras, Manuel Zelaya, voltou ao país esta segunda-feira, 21, e refugiou-se na embaixada do Brasil. O governo usurpador impôs o recolher obrigatório, mas o povo está na rua em apoio a Zelaya.
A decisão de Zelaya de entrar clandestinamente no país, ao 86.º dia do seu afastamento pela força das armas, colheu toda a gente de surpresa. O governo de facto do empresário Roberto Micheletti, que assumiu o poder após o golpe militar de 28 de Junho que depôs e deportou Zelaya, foi totalmente apanhado desprevenido e passou boa parte do dia a desmentir as notícias do regresso do presidente. Só depois de Zelaya dar uma entrevista ao Canal 11 da televisão local e de ter aparecido no terraço da embaixada brasileira em Tegucigalpa para saudar os milhares de apoiantes que já haviam acorrido ao local, é que os golpistas se renderam à evidência.
As reacções não se fizeram esperar: Micheletti impôs o recolher obrigatório, mandou encerrar os quatro aeroportos do país e deu ordem para reprimir os populares que permanecem junto da embaixada do Brasil. Os primeiros confrontos tiveram lugar na manhã de terça-feira. Segundo a correspondente da Telesur na capital hondurenha, Adriana Sívori, as forças militares tomaram posição nas proximidades da sede diplomática com o objectivo expresso de evacuar a zona. Desconhecia-se, à hora de fecho desta edição, quais as consequências ditadas pelo desespero dos golpistas, que têm consigo a oligarquia do país mas não o apoio popular. O que se sabe é que Zelaya, ao entrar clandestinamente na sua terra, fez gorar os planos dos que se preparavam para deixar passar o tempo até à farsa eleitoral de Novembro com que pretendiam legitimar o golpe.

Fazer o que deve ser feito

Na entrevista ao Canal 11, Zelaya falou sem rodeios. «Vim fazer o que desde a primeira hora devia ter sido feito, pôr um ponto final nos elementos de mediação deste processo, resolver cara a cara o que há para resolver», disse o presidente legítimo, sublinhando que o seu regresso é «praticamente uma questão de consciência, uma obrigação».
Acresce, segundo Zelaya, que é necessário pôr termo à situação de isolamento em que se encontra o país e às dramáticas consequências que daí advêm. «As Honduras não podem continuar nesta situação, isoladas da comunidade internacional, condenadas pelos organismos internacionais, com uma crise económica, política e social muito profunda», disse, sublinhando que «o povo já sentiu o ferro em brasa da repressão que não pode continuar».
Agradecendo ao seu homólogo brasileiro Lula da Silva e ao embaixador Celso Amorim por lhe terem «aberto as portas para lutar pela democracia hondurenha», Zelaya garantiu que está a dialogar directamente com o sector empresarial do país que contribuiu para o golpe, e reafirmou estar apostado numa solução pacífica do conflito. «Por isso voltei ao país, para dizer que vamos reconstruir a democracia, para dizer aos hondurenhos que a democracia é nossa e que ninguém nos pode roubá-la», disse.
O presidente legítimo lamentou ainda que o governo golpista tenha instaurado o Estado de sítio «porque voltou o presidente que o povo elegeu para governar», e tenha mandado encerrar os aeroportos «para impedir a vinda do secretário-geral da OEA [José Miguel Insulza] para resolver o conflito». Tal atitude, sublinhou, é uma prova de que o governo golpista não está minimamente interessado na reposição da legalidade e na restauração da democracia.
Zelaya está seguro de poder contar com o apoio de massas e mesmo de «empresários honestos». Os professores decretaram uma greve geral por tempo indefinido e por todo o país estão em marcha milhares de pessoas a caminho da capital, que enfrentam o corte de estradas com que as forças armadas e policiais procuram cortar-lhes o passo. Em Tegucigalpa, apesar do recolher obrigatório e do aparato repressivo em torno dos edifícios da ONU e da embaixada do Brasil, milhares de pessoas afirmam-se dispostas a permanecer na rua o tempo que for preciso para proteger a integridade do presidente que democraticamente elegeram.

Apelo à comunidade internacional

Numa declaração difundida esta terça-feira, 22, Manuel Zelaya apelou à comunidade internacional para que «intervenha de forma mais contundente» contra o governo golpista de Micheletti, denunciando a repressão de populares que se encontram junto da embaixada do Brasil onde está instalado.
A preocupação de Zelaya é justificada. Por um lado, a campanha de desinformação sobre as Honduras é uma realidade, agravada pela censura imposta internamente aos órgãos de informação que não alinham pelo «governo de facto». Por outro lado, quer os EUA quer a União Europeia (UE) reagiram de forma dúbia ao regresso do presidente às Honduras.
Nos EUA, o porta-voz do departamento de Estado, Ian Kelly, pediu «calma» a ambos os lados. «Creio que no momento tudo que se pode dizer é reiterar nosso pedido diário para que ambas as partes desistam de ações que tenham um desenlace violento», disse.
Enquanto isso, a secretária de Estado, Hillary Clinton, e o presidente costarriquenho, Oscar Arias, afirmaram esperar que o regresso de Zelaya ao país possa servir para que «todas as partes voltem à mesa de negociações». Clinton e Arias acham natural que se «negoceie» com golpistas que usurparam o poder.
Também a UE insiste na «negociação». Num comunicado divulgado pela presidência sueca sublinha-se a «importância de uma solução negociada para a crise actual nas Honduras».
O texto «exorta todas as partes envolvidas a abster-se de qualquer acção que possa aumentar a tensão e a violência», o que parece uma crítica velada ao apelo de Zelaya às Forças Armadas para que não virem as armas contra o povo mas sim contra os inimigos do povo.

ALBA apoia regresso de Zelaya

Os governos da Aliança Bolivariana para os Povos da América (ALBA) divulgaram esta segunda-feira um comunicado manifestando o seu apoio ao regresso de Manuel Zelaya às Honduras e apelando à comunidade internacional para que apoie a decisão assumida pelo «presidente legítimo e constitucional» de «retomar as suas funções presidenciais.»
«O regresso do presidente Manuel Zelaya às Honduras cumpre com as decisões adoptadas pela Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, pela Assembleia Geral das nações Unidas, pela Organização dos Estados Americanos, pelo Grupo do Rio, entre outros, e abre caminho para a restauração da democracia hondurenha, gravemente afectada pelo golpe de Estado de 28 de Junho de 2009» – lê-se no comunicado.
O texto, divulgado pela embaixada venezuelana, refere ainda que os governos da ALBA, conscientes das «contínuas violações dos direitos humanos e das liberdades fundamentais perpetradas pela ditadura [de Roberto Micheletti], instam os governos da América Latina, do Caribe, e do mundo, os organismos regionais e internacionais, bem como os movimentos e organizações sociais, a promover acções coordenadas que permitam ao governo legítimo de Manuel Zelaya retomar as suas funções.»
O documento sublinha, a terminar, que os governos da ALBA consideram que o regresso de Zelaya às suas funções deve ocorrer «sem condições de qualquer tipo», em «conformidade com a vontade democrática expressa pelo povo hondurenho, que de forma soberana o elegeu como presidente da República das Honduras».

Cronologia

28 de Junho – Militares sequestram Zelaya e deportam-no para a Costa Rica; Micheletti assume o cargo;
29 de Junho – A ONU condena o golpe de Estado; milhares de pessoas manifestam-se exigindo a reposição da legalidade democrática;
1 de Julho - A OEA exige recondução de Zelaya num prazo de 72 horas; é imposto o estado de sítio, instaurada a censura e restringidas as liberdades fundamentais;
5 de Julho – Zelaya tenta voltar ao país, mas os militares bloqueiam o aeroporto de Tegucigalpa impedindo-o de aterrar; milhares de pessoas que acorreram a apoiar o presidente são reprimidas;
7 de Julho – Zelaya é recebido em Washington por Hillary Clinton; os EUA advogam a via negocial com o presidente da Costa Rica, Oscar Arias, como «mediador»;
18 de Julho – Arias apresenta um plano de sete pontos que prevê a recondução de Zelaya no cargo de presidente até ao final do mandato, em Janeiro, mas o governo golpista rejeita a proposta;
11 de Agosto – As forças policiais reprimem violentamente milhares de pessoas que, a exemplo que que sucede diariamente, se manifestam em Tegucigalpa e em San Pedro Sula para exigir o regresso de Zelaya;
21 de Agosto – A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) denuncia o «uso desproporcional da força» pela Polícia e o Exército hondurenhos;
31 de Agosto – Começa a campanha para as eleições gerais de 29 de Novembro nas Honduras;
14 de Setembro – O representante das Honduras em Genebra, Delmer Urbizo, é expulso do Conselho de Direitos Humanos da ONU, após ter manifestado o seu apoio ao governo golpista;
21 de Setembro – Manuel Zelaya entra clandestinamente em Tegucigalpa e instala-se na embaixada do Brasil; o governo golpista impõe o recolher obrigatório, o que não impede milhares de pessoas de se concentrarem junto à sede diplomática em apoio ao presidente legítimo.


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