Depois de ter obtido 48 milhões de euros a empresa quer deslocalizar
Travar a deslocalização nacionalizando
A <i>Covina</i> não pode fechar
Em luta pela continuidade da empresa e os postos de trabalho, os trabalhadores da Saint-Gobain Glass, ex-Covina, em lay-off desde 1 de Maio, efectuaram, dia 16 , uma vigília e cortaram simbolicamente a Estrada Nacional 10.
Depois de ter obtido avultados apoios do Governo, a Saint-Gobain pretende deslocalizar a produção e despedir quase todos os trabalhadores, destruindo um importante segmento da produção nacional, já que a ex-Covina é a única produtora de chapas de vidro plano no País, recordou ao Avante!, o dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Vidreira, Rui Braga, durante a vigília.
Concentrados ao fim da tarde junto à Estrada Nacional 10, diante das instalações da fábrica, em Santa Iria da Azóia, os trabalhadores contaram com a presença solidária de representantes de vários sindicatos e dirigentes da CGTP-IN, da Comissão de Reformados da Covina e de representantes autárquicos, locais e parlamentares do PCP.
Apercebendo-se da acção onde se destacou uma faixa e painéis onde se lia, «Fim da Covina, não! Vidro fabricado em Portugal, Sim!», muitos automobilistas buzinaram, manifestando compreensão e apoio à luta.
Exactamente às 20 horas, a vigília alargou-se à estrada e ocupou ambas as faixas de rodagem durante 15 minutos, num «corte simbólico» que pretendeu demonstrar a determinação dos trabalhadores e dos seus sindicatos para prosseguirem com esta luta em defesa da continuidade da produção e, consequentemente, do aparelho produtivo nacional.

Lay-off para adormecer a luta

«Desde Janeiro que alertamos o Governo para a intenção da multinacional de deslocalizar a produção, e sempre considerámos que a empresa decidiu aplicar o lay-off para “adormecer” os trabalhadores e preparar o terreno para concretizar a “reestruturação”», salientou Rui Braga.
O lay-off iniciou-se no dia 1 de Maio e está a ser aplicado a 75 trabalhadores dos actuais 125.
Lamentando a atitude passiva do Governo perante as intenções da multinacional, apesar das lutas e dos alertas dos trabalhadores e das suas organizações representativas, o dirigente do sindicato da CGTP-IN recordou que a Saint-Gobain Glass garante, actualmente, 125 postos de trabalho efectivos quando, há apenas ano e meio empregava 300. Com a reestruturação, a multinacional pretende reduzir ainda mais o quadro para passar a utilizar as instalações exclusivamente como armazéns, desprezando a capacidade produtiva da vidreira.
«Queremos que o Governo tome medidas que impeçam estas intenções e que seja activo na defesa dos interesses dos trabalhadores e da produção», salientou Rui Braga, lembrando que a Covina é única em Portugal, tem longos anos de história e foi adquirida pela multinacional francesa há dez anos.
Em 2008, o Grupo Saint-Gobain obteve lucros de 1900 milhões de euros.

Apoios sem retorno

A única produtora nacional de chapas de vidro obteve, no início do ano, 48 milhões de euros em apoios do Estado, sem contrapartidas, com o propósito anunciado de construir um novo forno e aumentar a produção. Mas, depois de ter obtido o apoio, suspendeu a laboração e iniciou o lay-off que pretende prolongar até ao fim de Outubro, inicialmente justificado com a necessidade de reparação do alto forno. Para o sindicato, a suspensão tem o propósito de «despedir à conta da Segurança Social».
No dia anterior à vigília de dia 16, uma delegação de trabalhadores foi recebida no Ministério da Economia, não tendo obtido qualquer resposta ou garantia. O encontro foi antecedido por uma vigília, no Largo de Camões, um dia depois de a administração ter revelado que ia prolongar a paragem do forno e reduzir mais 50 postos de trabalho. A situação obrigou os trabalhadores a efectuarem um plenário de urgência onde decidiram convocar a vigília da passada sexta-feira.
No dia 8, os trabalhadores já tinham efectuado uma primeira concentração, à porta da empresa, onde exigiram esclarecimentos sobre o seu futuro e o da ex-Covina.
Na segunda-feira, os trabalhadores participaram numa concentração, junto à residência oficial do primeiro-ministro, e para anteontem tinham agendadas reuniões com os grupos parlamentares.

Reivindicar a nacionalização

Dirigentes e representantes de dezenas de sindicatos e da direcção da CGTP-IN, eleitos do poder local, trabalhadores reformados da Covina e responsáveis das organizações locais do PCP e do Grupo Parlamentar comunista marcaram presença solidária com os trabalhadores em luta.
Durante a vigília, foram chegando saudações de várias organizações sindicais.
Numa saudação fraternal à luta, divulgada no dia 19, a Direcção da Organização Regional de Lisboa do PCP considerou que esta situação é «um verdadeiro crime contra o País, a sua capacidade produtiva e a sua independência económica», salientando que a nacionalização da Saint-Gobain reporia a ex-Covina ao serviço da economia nacional.
A Comissão de Freguesia do PCP também enviou uma moção onde reivindica a nacionalização da vidreira.
Numa intervenção perante os trabalhadores, o deputado Miguel Tiago manifestou-lhes a total solidariedade do Grupo Parlamentar do PCP e garantiu que o Governo será confrontado na AR com as suas responsabilidades por esta situação, por permitir «que os recursos nacionais e os direitos dos trabalhadores estejam à mercê de grupos económicos privados». Também recordou que o PCP sempre reivindicou a nacionalização da Covina, «medida que agora se comprova ter total validade».
Também intervieram o membro da Executiva da CGTP-IN, Arménio Carlos, e a coordenadora da Federação dos Sindicatos da Construção, Cerâmica e Vidro da central, Fátima Messias.
A coordenadora do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Vidreira, Etelvina Rosa lembrou que além dos postos de trabalho estão também postas em causa as vidas dos respectivos agregados familiares num total de mais de 900 pessoas.
Em nome dos trabalhadores reformados da Covina, Carlos Machado recordou o tempo em que os trabalhadores lutaram pela nacionalização da empresa vidreira para salientar que a actual situação é «a prova de que tínhamos razão».


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