• Domingos Mealha

Os apoios públicos somam muitos milhões de euros
Multinacionais levantam a tenda
Despedimentos pós-eleitorais
A Delphi confirmou anteontem que, no fim do ano, vai encerrar a fábrica de Ponte de Sor e despedir os seus mais de 430 trabalhadores. Na segunda-feira, a multinacional tinha tornado oficial a decisão de, também a 31 de Dezembro, despedir 300 pessoas, na fábrica da Guarda, mantendo a intenção de liquidar mais 200 postos de trabalho até Março. Na unidade de Braga, a mesma Delphi tenta impor novo período de lay-off e, no Seixal, reduz pessoal. As preocupações e a luta dos trabalhadores e dos sindicatos estendem-se a outras multinacionais.
Os despedimentos na Guarda, onde a Delphi chegou a ter três mil trabalhadores, foram anunciados em Maio de 2007, para concretizar no ano seguinte. Em Julho de 2008, o primeiro adiamento dos despedimentos foi prolongado, para o final de 2009. No ano de 2008, entretanto, foram liquidados mais de uma centena de empregos, baixando de 1060 para 930 o número de trabalhadores na fábrica, que na maioria são mulheres.
Nos primeiros meses de 2008, a Delphi declarou que, daí a sensivelmente um ano, iria encerrar a fábrica de Ponte de Sor e despedir os seus 439 efectivos (e cerca de 80 trabalhadores com vínculos precários).
Com intervenção sindical e protestos dos operários, que chegaram a ter a forma de greve, foram exigidas medidas contra a liquidação de emprego e por alternativas à produção que a Delphi decidira encerrar e foram negociadas indemnizações, para quando se concretizassem os despedimentos. O acordo foi obtido na Guarda, primeiro, e em Ponte de Sor, em Outubro do ano passado. O cálculo apontou para um valor de 2,3 salários (dois meses de remuneração-base, com diuturnidades, em 14 meses) por cada ano de trabalho.
Na unidade alentejana, também o encerramento veio a ser adiado para Junho de 2009 e, depois, para o final do ano.
Com esta cronologia presente, entende-se que os mais recentes desenvolvimentos das batalhas travadas pela Delphi-mãe nos tribunais dos EUA não terão sido determinantes para o curso já iniciado. No dia 6 deste mês, a multinacional saiu do processo de insolvência, que accionou em 2005, depois de nestes quatro anos ter gasto 400 milhões de dólares, em advogados e consultores, e ter despedido mais de 80 mil pessoas. A reestruturação, acordada com as instituições financeiras credoras e com a General Motors (de uma cisão desta nasceu a Delphi, em 1999), levou à mudança de nome, mas os principais responsáveis continuaram a ser os mesmos - como notava, dias depois, o Sinquifa/CGTP-IN.
Este sindicato alertou, no dia 19, para o facto de estar em marcha uma tentativa de romper o acordo sobre as indemnizações em Ponte de Sor. Na sexta-feira, dia 23, em plenário, os trabalhadores reafirmaram a exigência de cumprimento do acordado e rejeitaram, por unanimidade, a premissa, expressa pela administração, de que para manter a laboração seria necessário reduzir os já baixos salários. A ameaça, «dourada» com hipóteses abstractas de lançamento de novas actividades, foi encarada como um teste à reacção do pessoal, e teve resposta firme e clara.
Dois dias antes, a empresa tinha reafirmado a intenção de despedir na Guarda, reduzindo a menos de metade os seus efectivos naquela fábrica de cablagens, até final do primeiro trimestre de 2010. A estrutura distrital da CGTP-IN, exigindo do Governo e da empresa um plano integrado, que permitisse evitar os despedimentos, manifestou preocupação quanto ao futuro da maior empregadora da cidade. «Será que o Grupo Delphi não tem uma perspectiva de deslocalização da própria empresa da Guarda», interrogava-se o coordenador da União dos Sindicatos, Honorato Robalo, citado no sábado pela agência Lusa.
Para Delfim Mendes, o encerramento em Ponte de Sor veio mostrar que, apesar da insistência dos trabalhadores e do Sinquifa, o Governo e a Câmara Municipal «não fizeram nada ou fizeram muito pouco, para assegurar que a Delphi continuaria ali ou para encontrar alternativas». «É necessário que façam agora, o mais rapidamente possível», exigiu o dirigente do sindicato e da Fiequimetal/CGTP-IN. Em declarações ao Avante!, na terça-feira à noite, salientou que «seria um crime» ficarem abandonadas as enormes instalações da maior unidade industrial do distrito de Portalegre.
A Delphi tem beneficiado de vários apoios públicos, recordou o Grupo Parlamentar do PCP, que quer o tema tratado urgentemente na AR, com a presença do ministro da Economia.

Farsa em Braga

Os trabalhadores da fábrica da Delphi em Braga concentram-se esta manhã frente às instalações, no Complexo Grundig, para protestarem contra a imposição de mais seis meses de suspensão dos contratos de trabalho (lay-off), confirmou o STIENC/CGTP-IN, que considera a medida abusiva. A luta foi decidida em plenário, no dia 13. Depois do período de lay-off imposto, a nova suspensão, a vigorar desde ontem e até ao final de Março, significa que os mais de 500 trabalhadores apenas recebem o salário por inteiro em quatro meses, no ano de 2009, em que não tiveram aumentos.
A crise, invocada no final de 2008, «não passou de uma farsa», acusou o sindicato, recordando que a administração começou por retirar do lay-off dezenas de operárias e terminou com a suspensão definitiva de dois meses antes do prazo, recorrendo logo a trabalho extraordinário e à contratação de dezenas de pessoas, através de trabalho temporário. A pretexto da crise, a Delphi procurou amedrontar os trabalhadores e reduzir as despesas com salários (retirando ao pessoal e à Segurança Social) e evitar aumentos em 2009. Despediu ainda três dezenas de trabalhadores que tinham vínculo permanente à empresa.

Deserto na Qimonda

Após a confirmação pela Qimondaa, na passada sexta-feira, do despedimento de 455 trabalhadores e da manutenção de outros 135 em lay-off, até Abril - e com a Irarion Solar em insolvência -, aquelas vastas instalações ficam apenas ocupadas por 230 funcionários e sem perspectivas quanto ao futuro. Desde Abril foram despedidas 1300 pessoas na fábrica de Vila do Conde. O PCP já anunciou que vai questionar o Governo sobre as perspectivas e os milhões de euros de apoios concedidos à multinacional e ao consórcio da EDP, REN e DST.
«Grande preocupação» face ao futuro foi igualmente manifestado pelo STIENC relativamente à Leoni, em Viana do Castelo. A fábrica já teve dois mil trabalhadores, emprega actualmente cerca de 600, já tem um dos seus dois pavilhões alugado, para armazém, e «vai falando em quebra de encomendas», embora garanta que não prevê recorrer a lay-off nem despedimentos - explicou Miguel Moreira, dirigente do sindicato, ao Avante!, notando que, na reunião com a administração, na semana passada, ficou evidente que «não há perspectivas para 2010».

Mudar o quê?

Ainda nem estão concluídas as formalidades que se seguem às eleições deste Outono, já se abatem sobre os trabalhadores portugueses novos golpes da violenta ofensiva que pretende agravar a exploração da sua mão-de-obra. Enquanto o governador do Banco de Portugal se perfila do lado dos patrões e da CIP, nas pressões contra quaisquer aumentos salariais, várias empresas semeiam inquietação e instabilidade, recorrendo desenfreadamente a todos os expedientes que permitem pagar menos pelo trabalho e, ao mesmo tempo, pressionar e punir quem ouse revoltar-se.
Às trabalhadoras e aos trabalhadores, contra todas as adversidades, a unidade e a luta organizada continuam a apresentar-se como a melhor resposta, para garantirem emprego com direitos e salários que permitam melhorar as condições de vida. A crise, como mostram os resultados conhecidos dos bancos e dos grandes grupos económicos, significa sacrifícios para a grande maioria que trabalha, mas quer dizer lucros crescentes para a ínfima minoria que explora.
Sem mudar a política que gera estes resultados, de pouco vale a mudança de algumas caras na governação e de algumas palavras na boca dos governantes.


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