Apoiantes de Abdullah Abdullah classificam de «golpe de Estado»
Segunda volta das presidenciais afegãs anulada
Karzai «eleito» sem ir a votos
A Comissão Eleitoral Independente anulou a segunda volta das presidenciais afegãs, agendadas para o próximo sábado. O actual presidente e candidato a novo mandato, Hamid Karzai, foi declarado vencedor com os votos obtidos ma primeira volta de um sufrágio marcado por fraudes e irregularidades.
Um dia depois de Abdullah Abdullah ter anunciado a sua desistência da segunda volta das presidenciais afegãs invocando que subsistiam os riscos de fraudes massivas semelhantes às ocorridas durante o primeiro acto do sufrágio, as quais obrigaram à invalidação de cerca de 1 milhão de votos (25 por cento do total), a Comissão Eleitoral «Independente» (CEI) decidiu anular o escrutínio complementar previsto para o próximo dia 7 de Novembro.
Na prática, esta decisão admite que os 49,67 por cento obtidos por Karzai a 20 de Agosto - contra 30,59 por cento obtidos pelo ex-ministro dos Negócios Estrangeiros - que inicialmente obrigaram à marcação de uma nova ronda de apuramento, são, agora, suficientes e legítimos para reconduzir o actual chefe de Estado no cargo de presidente do Afeganistão.
Um conselheiro do desistente Abdullah, citado pela Lusa, disse que a vitória de Karzai sem a realização de uma segunda volta «é um golpe de Estado». De facto, se tivermos em conta que menos de 24 horas antes de suspender a ida às urnas a CEI sublinhou que «temos de respeitar a lei» e que «a lei é clara» quando «estipula que se nenhum candidato obtiver 50 por cento dos votos mais um [na primeira volta] deve haver uma segunda volta entre os dois candidatos mais votados», a anulação repentina do sufrágio e a atribuição do triunfo a Karzai representa a machadada final nos argumentos de quem contra todas as evidências de fraude, irregularidades e manipulação dos órgãos eleitorais e judiciais insistia em rotular de livres, justas e democráticas as «eleições» no território ocupado desde 2001.
Note-se, ainda, que a mudança de posição da CEI, instituição que Abdullah Abdullah acusa de ser controlada por Karzai, contradiz a segurança com que aquele órgão havia comentado a desistência do ex-ministro do governo cessante. Citado pela agência de notícias portuguesa, Daoud Ali Najafi, membro da CEI, garantia, domingo, que o prazo para a retirada da candidatura já havia expirado, pelo que «a Comissão tem de realizar a segunda volta». Najafi esclareceu igualmente que «tal como foi feito na primeira volta, quando candidatos se retiraram depois do prazo previsto para o fazerem e os seus votos foram contabilizados», o mesmo seria feito com os boletins que indicassem Abdullah para a presidência.
Isto é, face ao avolumar do descrédito das «eleições» no Afeganistão, atestado até pela desistência de um dos homens que anteriormente esteve no executivo títere de Karzai, foram tomadas medidas enérgicas consumando o que à partida parecia já estar decidido: a recondução do actual presidente.

Consenso transatlântico

Na sua edição de segunda-feira, o Público, com base em informações da britânica BBC, especulava que a retirada de Abdullah do campo eleitoral estava relacionada com eventuais negociações com Karzai visando a partilha do poder. Mais que conjecturas, tal cenário motivado por pressões das principais potências ocupantes, ganhou consistência nas reacções britânica e norte-americana à desistência do candidato. Londres considerou a atitude um passo para a unidade do país, enquanto que Washington expressou que nada mudava de substancial.
Também as declarações do porta-voz da missão das Nações Unidas no país, Aleem Siddique, parecem indicar que a segunda volta se tornou incómoda e descartável. Logo após a desistência de Abdullah, aquele responsável, citado pela Reuters, lembrou que «é difícil uma segunda volta com apenas um candidato».
Neste contexto, parecem lúcidas as apreciações de um comunicado difundido na Internet subscrito pelo Emirado Islâmico no Afeganistão. De acordo com a estrutura que alegadamente se pronuncia em nome dos grupos talibãs, «a anulação da segunda volta das eleições demonstra que as decisões respeitantes ao Afeganistão são combinadas em Washington e em Londres antes de serem anunciadas em Cabul».
No texto citado pela Lusa, os supostos porta-vozes talibã notam ainda que «é surpreendente que aqueles que afirmavam que a marioneta Hamid Karzai estava implicada nas fraudes em massa inaceitáveis, o tenham agora eleito presidente com base nesses mesmos votos fraudulentos».

Todos de acordo

Quem se prontificou a reconhecer e felicitar Hamid Karzai foi a chamada comunidade internacional. Em Washington, Barack Obama saudou-o e manifestou esperança de que a sua «eleição» inaugure «um novo capítulo fundado numa melhor governabilidade». Antes, já a Casa Branca havia atestado a legitimidade de Karzai no cargo de presidente do Afeganistão, e a embaixada norte-americana em Cabul qualificou mesmo a sua recondução de «eleição histórica».
No mesmo sentido, Gordon Brown felicitou Karzai exortando-o a «agir rapidamente para estabelecer um programa de união», enquanto que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, fiel à opinião das grandes potências, manifestou satisfação pela anulação da segunda volta e saudou quer a decisão da CEI quer o novo presidente.


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