Mentiras e incúria criminosa na invasão do Iraque
Relatório britânico sobre o Iraque
Blair mentiu
Um relatório governamental sobre a invasão do Iraque acusa o anterior primeiro-ministro britânico de falta de estratégia, graves erros e de ter mentido ao Parlamento.
O documento publicado pelo Sunday Telegraph (22.11) revela que Tony Blair começou a planear com os Estados Unidos a invasão do Iraque em Fevereiro de 2002, 13 meses antes do início das operações militares, como o propósito assumido de provocar a queda de Saddam Hussein.
Todavia, durante esse período, Blair afirmou que o objectivo do seu governo era «desarmar o Iraque, não mudar o regime». Negando a existência de preparativos militares para a invasão, garantiu ainda que tudo se resumia a esforços diplomáticos para que Hussein renunciasse às alegadas armas de destruição maciça que afinal nunca existiram.
Porém, o testemunho agora divulgado do director das Forças Especiais, o major-general Graeme Lamb, precisa que «a planificação, ao nível da formação, da intervenção britânica no Iraque começou em Fevereiro de 2002. Comecei a trabalhar para a guerra desde os princípios desse ano». Mas isso não impediu o primeiro-ministro, em Julho de 2002, de afirmar perante os deputados que «não há planos para uma operação militar britânica no Iraque».
Os planos da invasão foram de tal modo bem guardados que só um pequeno círculo os conhecia. A consequência de tal secretismo foi que o exército não teve condições para preparar convenientemente as operações, lançando-se numa ofensiva «precipitada, com falta de recursos e coerência», que colocou as tropas (45 mil homens) numa situação de «grande perigo».

Carne para canhão

Os documentos publicados pelo semanário, dois dias antes de a comissão parlamentar de inquérito iniciar os seus trabalhos, incluem 12 entrevistas com altos responsáveis do exército e dois relatórios de conclusões. Neles são dados alguns exemplos que ilustram bem o nível de preparação da aventura bélica.
Um alto graduado afirma que os seus homens foram enviados para a frente muito mal equipados: «Cada um tinha apenas cinco balas no carregador». Por falta de água, muito soldados desmaiavam no terreno.
A «péssima» coordenação dos ministérios da Defesa e dos Negócios Estrangeiros fez com que alguns soldados tivessem de viajar para o teatro de operações em aviões comerciais, levando o armamento como bagagem de mão que foi nalguns casos apreendido nos aeroportos.
Um outro comandante militar recorda que o sistema de rádio avariava-se «quase todos os dias por volta do meio-dia devido ao calor» e que entre o equipamento que receberam para enfrentar o deserto estava «um contentor cheio de esquis».
O relatório assinala que os aliados «anglo-americanos conseguiram atingir os seus objectivos», mas isso contra «um exército de terceira linha». «Um inimigo mais forte ter-nos-ia feito pagar muito caro os nossos erros».
De resto, a mesma displicência dos governos invasores verificou-se logo após as operações com «a ausência total de um plano de contingência» para respeitar a Convenção de Genebra, a qual exorta as forças militares a salvaguardar a segurança dos civis e garantir um tratamento humano aos detidos.
Constatou-se também que, afinal, não havia nenhum programa nem tinham sido previstos recursos financeiros para a prometida reconstrução do Iraque.
«Não foi muito diferente do colonialismo de 1750, quando não havia uma verdadeira administração e os militares tinham de fazer tudo sozinhos», afirma um dos depoimentos.
Um outro documento divulgado na segunda-feira, 23, pelo Daily Telegraph dá conta ainda de uma «profunda» hostilidade entre os comandos militares americano e britânico no Iraque.
O chefe das tropas britânicas, general de divisão Andrew Stewart, descreveu os seus homólogos norte-americanos como «um grupo de marcianos». «A nossa capacidade de influenciar a política norte-americana no Iraque é mínima». «Qualquer diálogo lhes é estranho».
Um outro militar, o coronel JK Tanner, chefe do pessoal do exército britânico, refere a este propósito: «Apesar da nossa dita “relação especial” [com os Estados Unidos], reconheço que não nos tratam de maneira diferente da que tratam os portugueses».


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