• Gustavo Carneiro

No distrito do Porto, a célula do PCP no Jumbo cresce e reforça-se
A força do colectivo
De todas as tarefas que se colocam actualmente aos comunistas, o reforço da organização e intervenção do Partido é seguramente uma das mais importantes. Sobretudo nas empresas e locais de trabalho, onde se dá o confronto de classes e se forma a consciência. Nas várias lojas do Jumbo do distrito do Porto há uma célula do Partido, que cresce e se reforça. De tudo isto e muito mais falaram ao Avante! Marisa Ribeiro e Fátima Cerqueira, membros dessa célula.
«O reforço da organização e intervenção junto da classe operária e dos trabalhadores, nas empresas e locais de trabalho. Prosseguindo os passos dados, esta é uma questão essencial que exige: (…) alargar o número de militantes organizados em estruturas a partir das empresas e locais de trabalho»
in Resolução Política do XVIII Congresso do PCP


Ouvindo estas duas militantes comunistas, quase que se cai no erro de pensar que a criação e o reforço de uma célula do Partido numa grande cadeia de distribuição como o Jumbo é tarefa fácil, tal a simplicidade como descreveram os avanços alcançados e o próprio trabalho partidário que desenvolvem diariamente.
Tudo começou há um ano e meio, com apenas duas camaradas – a própria Marisa e uma outra trabalhadora do Jumbo da Maia, que então militava na JCP. «Depois, ela passou para a célula para começarmos a desenvolver o trabalho», contou Marisa Ribeiro, acrescentando que, em pouco tempo, «conseguimos chegar a praticamente todas as lojas». Actualmente, há perto de 30 militantes organizados nesta célula (12 dos quais recrutados no último ano) que trabalham em seis hipermercados do grupo Auchan do distrito do Porto: Maia, Gaia, Matosinhos, Santo Tirso, Gondomar e Canidelo.
O segredo de tão rápida evolução está no trabalho colectivo, concordam Marisa e Fátima. «Nós reunimos e distribuímos as tarefas», destaca a primeira. Em cada uma das seis lojas, há responsáveis pela cobrança de quotas e pela distribuição dos documentos. No caso do Jumbo de Gaia, por exemplo, é Fátima Cerqueira quem garante que os documentos lá chegam. «Tudo o que o Partido nos dá é distribuído e os documentos chegam a todos os trabalhadores. Temos os nossos métodos.»
Nas outras lojas, pelos mesmos métodos ou por outros, a palavra do Partido, levada por outras militantes, também chega ao seu destino: às mãos dos trabalhadores do Jumbo. Com a mesma eficiência se cumpre a cobrança das quotas, que todos os membros da célula têm em dia.
Para além das quotas e dos documentos, a célula do Jumbo atribui a maior importância ao recrutamento. Mas este é da responsabilidade de todos, afirmam as duas camaradas.

Recrutar e não só

Apesar da dimensão que a célula assumiu em tão pouco tempo, desengane-se quem pensar que os comunistas do Jumbo não têm critérios firmes para trazer mais gente ao Partido. Como afirmou Fátima Cerqueira, «não queremos pessoas que sejam militantes só para ter um cartão».
Em sua opinião, a preocupação não pode estar apenas focada no recrutamento. Também há que «fazer com que esses militantes compreendam para que serve o Partido e se insiram no trabalho do Partido». É por isso «que somos um partido totalmente diferente dos outros». Mas para isto, alertou, «é preciso ter paciência para explicar as coisas aos colegas».
O elevado índice de precariedade que se faz sentir nas grandes superfícies comerciais não dificulta a adesão de mais trabalhadores ao Partido, garante Marisa Ribeiro. Em sua opinião, estes trabalhadores, por estarem nesta situação, «valorizam muito o Partido e percebem melhor que é o PCP que está do seu lado».
Mas isto não significa que não haja receios e que não haja militantes comunistas que não afirmam essa sua condição no local de trabalho. Nuns casos, devido à sua situação profissional instável e noutros por medos em relação a preconceitos familiares. Nuns casos como noutros, garante Marisa Ribeiro, «ninguém deixa de reunir e colaborar».
As dificuldades colocadas ao crescimento do Partido nas empresas da grande distribuição existem e são muitas. Marisa Ribeiro e Fátima Cerqueira sabem-no melhor que ninguém. Mas sabem também – e sobretudo – que não há situação laboral ou social que possa impedir o Partido de cumprir o seu papel. E a célula do Jumbo continuará a crescer e a intervir, acreditam estas duas militantes.

A vida é Jumbo?

Para além de integrarem a célula do PCP no Jumbo, Marisa Ribeiro e Fátima Cerqueira são também dirigentes do Sindicato do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP/CGTP-IN). E falaram ao Avante! da «situação mais complicada de sempre» na empresa, sobretudo ao nível dos horários de trabalho.
Lembrando que a própria associação patronal (APED/ Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição) considera os horários como a questão central, Marisa Ribeiro relatou as várias ilegalidades cometidas pelo grupo Auchan. Uma das principais é imposição dos «horários médios» ou seja, traduz Marisa, o banco de horas previsto no Código do Trabalho», mas proibido no contrato colectivo: «os trabalhadores fazem mais uma ou duas horas e depois compensam passado oito semanas, sem qualquer pagamento suplementar.» Acontece que, para agravar a situação, muitas das vezes estas horas extraordinárias nem sequer são compensadas.
Também os chamados «horários de bolso» merecem a crítica severa das suas sindicalistas. Como denunciou Fátima Cerqueira, «no papel, o horário está correcto, mas depois é alterado à semana, sem qualquer aumento de retribuição, o que é ilegal.» Com medo do desemprego, afirmou, muitos que aceitam esta ilegalidade.
Marisa Ribeiro acrescentou que «os tempos inteiros fazem mais duas horas por dia, em vez de oito fazem dez. Mais as refeições, chegam a passar 12 horas dentro do Jumbo». Não é por acaso, lembrou, que os divórcios não param de aumentar no sector da grande distribuição. Será este, questiona, o significado do slogan publicitário «A vida é Jumbo
Devido a esta desregulação dos horários, também não é respeitada a obrigatoriedade de conceder 11 horas de intervalo de descanso entre jornadas de trabalho. «Há trabalhadores que saem à uma da manhã e entram às seis», conta Fátima Cerqueira.
Marisa Ribeiro sabe que a luta em defesa dos horários de trabalho não só vai continuar como se vai intensificar. Na proposta da associação patronal para 2010, a desregulação ainda maior dos horários é o objectivo central do patronato do sector: «Querem aplicar o banco de horas ainda mais grave do que o que está previsto no Código do Trabalho.» Aos tempos inteiros pretendem acrescentar «mais quatro horas, com aviso de véspera e com uma compensação num prazo de seis meses, quando e como der jeito à empresa: uma hora, meia hora, etc.» «Não vamos aceitar», garantem as dirigentes sindicais.

Saem uns, sofrem todos

A desregulação dos horários de trabalho no Jumbo tem acompanhado a saída de trabalhadores, que se acentuou desde o Verão de 2008. A partir dessa altura, muitos saíram, alguns dos quais ali trabalhavam há anos.
Legalmente, «não despediram ninguém», realça Marisa Ribeiro, para quem «há várias formas de despedir». A mais generalizada será a não renovação dos contratos a prazo, outra é fazer com que os trabalhadores saiam pelo seu próprio pé, tornando-lhes a vida impossível. Os que ficam têm que trabalhar pelos que saíram, garantem as sindicalistas.
Segundo Marisa Ribeiro, o Jumbo «quer máquinas e não trabalhadores». Para trás ficam todas as concepções de atendimento humano e personalizado que Marisa ouviu nas formações que recebeu quando entrou para o então Pão de Açúcar, há 19 anos. A palavra é, agora, «produtividade».
Uma das formas de alcançar a tão desejada «produtividade» é instalando as caixas automáticas que dispensam operadores – as caixas Quick e Quick Plus. O objectivo é, garante Marisa Ribeiro, não criar novos postos de trabalho. Apesar de muitos clientes preferirem ser atendidos por operadoras, muitos «são obrigados a ir para lá, por causa das filas», afirma Fátima Cerqueira. «No outro dia, no Jumbo de Matosinhos, estavam abertas apenas seis caixas.»

Certificados de exploração

O grupo Auchan foi uma vez mais certificado com o SA 8000, de responsabilidade social. Com este certificado, o grupo ficaria, à partida, obrigado a cumprir certos requisitos, nomeadamente ao nível da remuneração ou do horário de trabalho. Pura ilusão.
Se quanto ao horário estamos conversados (ver texto nestas páginas), a questão da remuneração não é menos escandalosa. O salário de entrada neste sector, como Operador Ajudante de Segundo Ano é equivalente ao salário mínimo nacional. O grupo Auchan, para garantir a certificação e apoios da Segurança Social, «oferece» mais 10 euros, repetindo o gesto aos dois escalões seguintes. Acima destes escalões, «pagam à tabela», afirma Marisa Ribeiro.
No Jumbo há 19 anos, a dirigente sindical ganha 605 euros, precisamente o mesmo que aufere quem ali está há mais de oito anos. É por esta altura que se atinge o topo da tabela e, a partir daí, só por «mérito» se pode acrescentar mais uns euros ao magro salário. Como é evidente, nem Marisa nem nenhuma das suas camaradas de sindicato têm tido qualquer «mérito». «Há trabalhadores com nove e dez anos de casa a ganhar mais do que ela, porque o mérito dá para tudo», acusa Fátima Cerqueira.
Em 2009, os aumentos foram residuais, de apenas alguns cêntimos diários. Nas negociações para o próximo ano, a empresa vai propor um por cento para 2010 e 2011. Não para combater prejuízos mas para colmatar a redução de ganhos – em 2008, os lucros do grupo foram de «apenas» 727 milhões de euros!


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