«A organização é o maior garante da unidade»
Ferroviários evocaram «luto ferroviário» de 1969
Ontem como hoje, a mesma luta
Evocar as lutas dos ferroviários em 1969 e demonstrar a capacidade de organização que levou à unidade e à conquista de direitos, em plena noite fascista, foi o propósito de uma sessão onde ficou claro que os objectivos das lutas de ontem são os mesmo de hoje.
Para assinalar o 40.º aniversário da luta dos trabalhadores ferroviários portugueses, «contra as miseráveis condições de vida e de trabalho a que estavam condenados pelo governo fascista e pelos seus lacaios do Conselho de Administração da CP», como começou por explicar o orador principal, Carlos Domingos, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário fez uma sessão evocativa, dia 16, na sala da sede do Sindicato da Hotelaria, em Lisboa, que se encheu, maioritariamente, de representantes sindicais.
«Melhorar as condições de vida e de trabalho, 1969-2009, a mesma luta» foi o tema da sessão. O único organizador desta luta, desde o seu início, ainda vivo, Carlos Domingos, foi o principal orador da sessão e homenageado a que se seguiram intervenções do presidente do SNTSF/CGTP-IN, José Manuel Oliveira, do membro da Executiva do Conselho Nacional da CGTP-IN e coordenador da Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações , Amável Alves, e do dirigente, também da Fectrans/CGTP-IN, Vítor Pereira. Intervieram, posteriormente, representantes sindicais ferroviários e alguns aposentados, actuais membros da Inter-Reformados, participantes naquela histórica luta que recordaram alguns episódios.
Na introdução aos trabalhos, o dirigente sindical e jovem trabalhador recém-entrado na CP, aquando das lutas de 1969, José de Almeida, contou como viveu o 2 de Janeiro de 1969, nas oficinas do Barreiro, quando os operários perderam o medo e enfrentaram a PIDE.
Carlos Domingos explicou, minuciosamente, como foi possível organizar 30 mil trabalhadores ferroviários, dispersos por todo o território nacional, para uma luta por melhores condições de vida, de trabalho e remuneratórias, vencendo o medo da repressão, do despedimento, da prisão e da tortura.

Direitos por consagrar

Carlos Domingos foi enviado pelo Partido para reorganizar a célula comunista da CP no Barreiro, após traições internas que comprometeram o funcionamento regular da organização clandestina.
Enquanto o orador ia explicando as dificuldades que tiveram de ser ultrapassadas para o sucesso da luta de 1969, ia ficando claro como as reivindicações centrais da altura são semelhantes às de hoje.
Na luta empreendida em pleno fascismo marcelista, os ferroviários reivindicaram aumentos salariais de mil escudos, para uma classe que era das mais mal pagas do País; direito a um subsídio de renda de casa; horários de trabalho de oito horas diárias para todas as estações, apeadeiros e passagens de nível; pagamento das horas extraordinárias com mais 50 por cento e a sua contabilização feita diariamente; subsídio de férias equivalente a um mês de vencimento; assistência médica e medicamentosa equivalente à prestada pela Federação das Caixas de Previdência e actualização dos subsídios para fardamentos.
Fazendo a ponte entre as reivindicações do passado e as do presente, Amável Alves recordou como muitos dos objectivos daquela luta são reivindicações actuais por culpa do Código do Trabalho e das políticas de direita dos governos PS, PSD e CDS-PP.
O presidente do SNTSF, José Manuel Oliveira, salientou como tem sido importante a unidade na acção por causas e reivindicações concretas, lutas que os ferroviários têm assumido com mais vigor, nos últimos anos. Salientou recentes conquistas dos trabalhadores, um aumento da sindicalização e um rejuvenescimento dos quadros sindicais.
Vítor Pereira, como Amável Alves, ex-trabalhador da Carris, recordou como esta luta foi inspirada pela também famosa «greve das malas», e salientou o papel que, na organização dos trabalhadores, também nesta luta, tiveram o Partido Comunista Português e os seus quadros.

O «luto»

Após mais de 5 mil cartas enviadas à Comissão constituída pelos trabalhadores com sugestões para a continuação da luta, os ferroviários iniciaram, a partir de 2 de Janeiro de 1969, o que ficou conhecido como «luto ferroviário». Passaram a exibir uma braçadeira negra no braço direito, para evitar confusões, pois aquela faixa costumava ser ostentada, em casos de falecimento de algum familiar, no braço esquerdo. A orientação foi cumprida por todo o pessoal, a nível nacional.
A repressão da PIDE foi imediata, com prisões e espancamentos de destacados activistas. Os operários resistiram sempre às tentativas para que retirassem as braçadeiras. Como ao «luto» não foi marcada data-limite, havia o perigo da desmoralização provocada com o passar do tempo. Depois de o sindicato fascista ter anunciado que era impossível negociar os termos de um novo ACT, os trabalhadores formam um Conselho Nacional da Classe Ferroviária que anunciou, para 20 de Outubro de 1969, uma greve, entre as 15 e as 16 horas, luta que foi cumprida pela generalidade da classe. A repressão endureceu, mas os trabalhadores acabaram por obter conquistas e direitos, impondo à administração e ao Governo fascista a consagração de muitas das suas reivindicações.

O imprescindível PCP

Durante o relato dos acontecimentos passados foram sucessivamente recordados outros protagonistas da luta, já malogrados e de igual importância para o seu sucesso, uns, já na altura, militantes comunistas, e outros que, forjados por aquela luta, assumiram mais tarde responsabilidades várias de direcção partidária e sindical, como recordou no final, Carlos Domingos. De tudo o que disse, quis deixar claro o que considerou ser a receita para o sucesso de qualquer luta, «recordando o ideólogo revolucionário, V. I. Lénine, o fundamental é prosseguir sempre organizando os camaradas, em células, em cada local de trabalho, porque é esse o melhor garante da unidade».


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: