• Francisco Silva

Ascensão da transcendência como explicação científica
Muito se invoca por aí o nome da Ciência em vão. Quase sempre por ignorância ou, pelo menos, por confusão de perspectivas ou de planos de consideração da realidade por parte dos invocadores de turno. O que vai dar quase ao mesmo. Outras vezes é por deliberada mistificação ou, pelo menos, pela atracção em justificar coisas sem outra justificação que não sejam os interesses próprios, por norma com métodos e argumentos de base ideológica. Tenho várias vezes abordado estas questões - acho mesmo que o motivo principal, quase obsessivo, a empurrar-me para estes escritos é a desconstrução dos mecanismos das milhentas falácias «cognitivas» que andam no ar.
Um dos «vícios» estruturante destas práticas é considerar científico o que é senso comum da época, nomeadamente «verdades» baseadas na imediaticidade dos fenómenos vistos, sentidos, ouvidos - e, sempre que possível, junta-se-lhe uns números, umas matemáticas não muito «complicadas», pois fica tudo mais científico! Assim mesmo, sem mais, portanto, com a «garantia» de uma racionalidade empírica, da verificação «à superfície» através de fenómenos que passam - uma racionalidade que procura, como método, compreender o todo dos fenómenos (holisticamente, para falar à moda, sem consideração de estruturas, de relações de opostos, contradições, credo! etc - enfim, as causas e as razões procuradas a resvalarem já de volta à transcendência?); no fundo, uma maneira de proceder alheia ao perceber real dos fenómenos, a explicá-los mesmo, a ir ao seu fundo, à procura de razões que não estejam imediatamente à vista. Um ponto de vista mediático-político do científico que procura manter afastadas «suspeições» do que estaria escondido, do que estaria por detrás, aquilo que apelidam de ideologia, de metafísica… Diria eu: não vá o diabo tecê-las e a malta começar a raciocinar pelas suas cabeças, a ir para além do oferecido pelas objectivas e insuspeitas fontes do «Poder societal que está»!
É claro que este tipo de práticas de apropriação distorcida do qualificável como científico, e do seu correspondente aproveitamento com base no prestígio e seriedade da Ciência, residentes nas sociedades, acabaram por abrir caminho a outras práticas mais refinadas. De facto, estas práticas «populistas» adoptadas pelos complexos político-mediáticos, e puxadas por parte de certos sectores da Cultura, nomeadamente oriundos das áreas das ciências sociais e humanas, estavam a resvalarem para um certo relativismo «pós-moderno», sendo facilmente desacreditáveis, em particular devido às suas misturadas, às suas amalgamações, de conhecimentos obtidos tanto por via científica como mítica e outras. Pois, numa situação progressivamente mais desacreditada destas práticas algo de mais «sério» teria que aparecer no terreno, algo trazido desde o interior da comunidade científica - algo de mais «sério», pois, deveria basear-se em modelos de sistemas complexos de relações, de variáveis, em sistemas modelados em software complexo, complicado - ainda melhor seria muito complicado -, demandando programas nacionais, continentais, mundiais, recolhendo fundos imensos para o efeito, a fazer recordar os programas da Grande Ciência, das grandes instalações, dos tempos heróicos da C&T Nuclear de meados do século vinte e tempos que lhes seguiram.
Foi assim que surgiram grandes programas de investigação nas áreas da biologia molecular, mais propriamente do genoma humano, e da meteorologia, mais propriamente sobre os perigos das mudanças climáticas. Foi também a investigação na Economia e nas Finanças. Todos estes sectores empregando recursos informáticos imensos, em hardware, em software e sobretudo absorvendo legiões de investigadores, legiões com tiques de clero, possuindo os seus sumo-sacerdotes.
É, curiosamente ou não, todo um movimento progressivamente mais idealista em que imaginosos modelos simulados informaticamente são cada vez mais a «realidade» investigada. Os comandos dessas «realidades» informaticamente modeladas são agora a transcendência da Mão Invisível na economia… esta transfigurada no seu símile financeiro; ou a Vida a existir nos genes que «Deus nos deu», e não a Vida enquanto característica dos organismos vivos; e ainda a Deusa Gaia pronta a castigar as maldades consumistas dos homens prometaicos, libertadores supremos de dióxido de carbono (os oceanos pouco contariam nisto tudo!). Enfim submetamo-nos aos poderes superiores, não ousemos lutar por imanentes transformações!


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