50 anos depois
Fuga de Peniche<br>Rumo à Vitória
O PCP assinalou, no domingo, os 50 anos da histórica fuga de Peniche, que, a 3 de Janeiro de 1960, devolveu à liberdade e à luta Álvaro Cunhal e mais nove destacados dirigentes e militantes comunistas. Após uma visita ao Forte e depois de recriados os passos percorridos pelos participantes na fuga, realizou-se uma sessão pública onde interveio Jerónimo de Sousa.
O cinquentenário da fuga de Peniche calhou a um domingo. Um domingo frio em que a chuva ameaçava cair. Mas nada disto impediu que largas dezenas de militantes e simpatizantes do PCP vindos de todo o País se deslocassem ao Forte de Peniche para assinalar esta data marcante na história do Partido e da própria resistência antifascista. Entre estes, estavam os três participantes na fuga que estão vivos (Joaquim Gomes, Jaime Serra e Carlos Costa), a irmã de Álvaro Cunhal, Maria Eugénia, António Dias Lourenço, que apoiou a fuga do exterior, juntamente com Octávio Pato e Joaquim Pires Jorge, e vários dirigentes do Partido, entre os quais Jerónimo de Sousa.
Simbolicamente guiada por dois jovens, a recriação da fuga começou com uma explicação prévia, a cargo de Paulo Marques, membro do Comité Central. No amplo átrio exterior do Forte, o jovem comunista começou por recordar que a fuga ocorreu «numa altura em que tinham sido reforçadas as condições de segurança», na sequência de outras fugas, nomeadamente a de António Dias Lourenço, em finais de 1954. A partir de 1956, lembrou, o Pavilhão C da Fortaleza «recebeu presos políticos em celas individuais e salas comuns, com a parede frontal substituída por barras de ferro que permitiam aos guardas prisionais observar em permanência os detidos, inclusive no uso das instalações sanitárias». Os carcereiros eram cuidadosamente seleccionados e especializados.
Ainda segundo Paulo Marques, os presos que fugiram de Peniche tinham já cumprido, em conjunto, 77 anos de prisão. Álvaro Cunhal, por exemplo, cumprira já mais de 11 anos, enquanto que Francisco Miguel se encontrava encarcerado há cerca de 10 e Carlos Costa há sete. Muitos dos participantes da fuga tinham já escapado outras vezes.

Os mesmos passos, meio século depois

Como a Fortaleza de Peniche sofreu, no seu interior, alterações que impedem a recriação de toda a fuga, a visita guiada começou no Pátio do 3.º piso – Pavilhão C. Foi ali que, pelas 19 horas do dia 3 de Janeiro de 1960, «os camaradas visualizaram a mala traseira do veículo conduzido pelo camarada Rogério Paulo como sinal de que tudo estava a postos no exterior», relatou David Pereira, da Direcção Nacional da JCP.
Assim, prosseguiu o jovem «guia», tudo prosseguiu como planeado: «o guarda prisional Serrado, que presenciara a refeição, foi dominado pelo camarada Guilherme da Costa Carvalho e imobilizado através de clorofórmio, tendo os camaradas tido o cuidado de que lhe colocar uma placa de metal na sua língua para ser evitado o seu asfixiamento.» Com os lençóis das celas já rasgados para servirem de cordas, os dez fugitivos seguiram, um a um, debaixo do capote do guarda republicano Jorge Alves, por uma zona bastante exposta até uma árvore, pela qual desceram até ao piso inferior.
Entretanto, Joaquim Gomes contou que há muito que era claro que só com o apoio de um guarda republicano era possível escapar da prisão tendo-lhe sido atribuída a tarefa de os abordar: «Os GNR's tinham todos má cara, mas um deles (Jorge Alves) deve ter-se esquecido disso», afirmou o histórico dirigente, relatando que a um cumprimento seu a resposta do guarda foi não só afável como este ainda comentou o seu desagrado por Álvaro Cunhal estar ali preso... Seguiram-se outras conversas e várias visitas até tudo ficar acertado.
Em seguida, foi Jaime Serra a pegar no microfone para destacar que os contactos com o exterior foram «fundamentais para o êxito da fuga». E para contar, com alguma ironia, que as mensagens trocadas com a direcção do Partido no exterior passavam «mesmo em frente dos olhos dos guardas», que não as viam.
A visita prosseguiu no piso inferior, junto à guarita por onde os fugitivos escaparam pela corda, até ao fosso exterior da fortaleza. Porém, prosseguiu David Pereira, «registaram-se alguns percalços»: Pedro Soares torceu um pé e Guilherme da Costa Carvalho feriu a cara ao embater na muralha. Mas nada disto impediu os dez comunistas e o guarda de se dirigirem aos carros que os esperavam, conduzidos por Orlando Lindim Ramos e Carlos Plácido de Sousa.
«Foi nessa altura – prosseguiu o jovem comunista – que o guarda ia deitando tudo a perder, ao começar a chamar bandido a um camarada pelo facto de entender ser demasiadamente elevado o número dos camaradas integrantes da fuga. Mas como havia terminado o encontro de futebol da equipa local, os camaradas aproveitaram para direccionar essa caracterização para o árbitro.» A fuga foi ainda auxiliada pelos muitos populares que, tendo-se apercebido do que se passava, nada fizeram, valorizou ainda David Pereira.
A terminar, o jovem comunista destacou a importância desta fuga para que aqueles valiosos militantes «pudessem voltar aos seus postos de combate pelo derrubamento do fascismo». Nos dois anos seguintes, realizaram-se «grandiosas lutas de massas», onde o Partido «teve o papel de vanguarda».
Terminada a visita ao Forte, os participantes nas comemorações fizeram transbordar o Auditório Municipal de Peniche, onde se realizou a sessão pública comemorativa da fuga. Jerónimo de Sousa proferiu um importante discurso, que publicamos na íntegra nas páginas seguintes.


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