Militão Ribeiro foi um dos resistentes assassinados pelo fascismo
Militão Ribeiro morreu há 60 anos
Dignidade ante a barbárie
A morte na prisão do dirigente comunista Militão Ribeiro, cujo 60.º aniversário se assinalou no dia 2, foi um brutal crime do fascismo, a juntar ao tenebroso rol de iniquidades cometidas durante 48 anos.
«Mais um crime do governo salazarista. Mataram Militão Ribeiro (António)! Que todo o povo português proteste contra mais este crime», titulava, a toda a largura da primeira página, o Avante! de Janeiro de 1950. E não há revisão ou branqueamento da história capaz de apagar este facto – Militão Ribeiro foi assassinado! Como muitos outros antes e depois dele.
Ao longo de 48 anos, o fascismo matou com a tortura em brutais interrogatórios; assassinou a tiro traiçoeiramente; ceifou vidas disparando sobre manifestações. Mas também matou lentamente, nas prisões. Com os trabalhos forçados, os castigos e os maus-tratos; com a falta de assistência a doenças; com alimentação deficiente; com a pressão psicológica.
Assim morreram, entre outros, os militantes comunistas Bento Gonçalves, Alfredo Caldeira, Ferreira Soares, Alfredo Dinis, Soeiro Pereira Gomes, José Moreira, Catarina Eufémia. E também o dirigente sindicalista Mário Castelhano e o General Humberto Delgado.
Como escreveu José Dias Coelho, na brochura clandestina A Resistência em Portugal (reeditada há poucos anos pelas Edições Avante!), a morte de Militão Ribeiro, em 2 de Janeiro de 1950, foi «um crime lento, dos que não deixam vestígios». Nesse mesmo texto, Dias Coelho (que seria, também ele, assassinado, a tiro, mais de uma década depois), descreve as condições que levaram à morte na prisão do dirigente comunista:
«Militão Bessa Ribeiro, preso juntamente com Álvaro Cunhal em 25 de Março de 1949 (a sua quarta prisão) já se encontrava então com a saúde muito abalada por longos anos de prisão e duas deportações no Campo de Concentração do Tarrafal. Sofria do fígado e dos intestinos. Todos os seus protestos para que lhe fosse dada a assistência médica necessária esbarraram com as negativas da PIDE, cujos criminosos intuitos eram bem claros: aniquilá-los (…) especialmente a Militão e a Álvaro Cunhal.
O rigoroso regime prisional, a alimentação imprópria e a falta de tratamento começaram por agravar-lhe os padecimentos. Esteve semanas inteiras sem evacuar, sendo-lhe inclusivamente recusado um clister. Cada vez mais abatido, acabou por adoecer gravemente e resolveu fazer a greve da fome como protesto contra a falta de assistência médica e de uma dieta adequada.»
Continua José Dias Coelho relatando que, entretanto, Militão Ribeiro seria «mudado para uma cela da enfermaria da Penitenciária, mas a situação manteve-se praticamente a mesma, no mais rigoroso isolamento, sem visitas da família nem mesmo correspondência». Até à sua morte, por inanição, percorreu um «longo calvário de padecimentos físicos e grandes perturbações nervosas».

Confiança inabalável

Se estes relatos provocam um indignado horror, não é menos verdade que a forma como Militão Ribeiro encarou os carcereiros e a própria morte, bem como a firmeza de convicções que manteve até ao último sopro de vida, não podem deixar de emocionar qualquer comunista. Mesmo em precárias condições de saúde, não lhe desapareceu nunca o «entranhado amor ao Partido e ao povo, nem a confiança num futuro melhor, que já não partilharia», como descreveu José Dias Coelho. Que continuava:
«Durante a greve da fome passava as noites a cantar uma canção revolucionária que então inventou: Avante! Avante! Não podemos parar nem recuar na luta… A voz quebrada e rouca ressoava estranhamente lúgubre no silêncio sepulcral das alas da Penitenciária. Na escuridão apenas os postigos iluminados das quatro celas afastadas ao longo do interminável corredor, quatro vigílias e aquela voz esgotada, numa mensagem de angústia.»
Sabendo da morte que o esperava, Militão Bessa Ribeiro preocupou-se, sempre, em comunicar ao Partido a sua inabalável confiança na vitória e a sua inquebrantável fidelidade, tendo escrito várias cartas à Direcção do Partido. Muitas terão sido interceptadas, mas duas chegaram ao seu destino – uma delas escrita com o seu próprio sangue…
Vale a pena ler alguns excertos destas cartas, escritas por um homem que sabia que nada mais esperava do que o sofrimento e a morte. A sua dignidade e confiança são profundamente tocantes: «Tenho sofrido o que um ser humano pode sofrer. Nem sei como tenho tido forças para tanto. Mas com todo este sofrimento nunca deixei de ter fé na nossa causa. Sei que venceremos. Desde sempre mantive a disposição de dar a vida pelo Partido em todas as circunstâncias, assim como a dou de uma forma horrível e cheia de sofrimento. Mesmo quase já um cadáver ainda fui esbofeteado por um agente. Dores, insónias, fome, agonias, tudo tenho sofrido nestes sete meses, quase sempre de cama, sem me poder mexer…»
Num outro extracto, declarava: «Tenho confiança que sabeis vencer todos os obstáculos e levar o povo à vitória, mantendo essa disciplina e controlo severo de uns sobre os outros em trabalho colectivo, como vínhamos fazendo e aperfeiçoando. Que infelicidade minha só aos 50 anos ter começado a trabalhar dessa forma. Felizes os que vêm novos para o Partido e o encontram a trabalhar assim (…) Muito teria para dizer, mas as forças faltam-me. Fiz tudo o que pude pelo Partido, bem ou mal, foi sempre julgando que fazia o melhor. Adeus para todos com um abraço fraternal. Longa vida, longa liberdade, boa saúde e bom trabalho. Avante até à vitória final»
«Que a minha morte traga novos combatentes à luta», escreveu, com o próprio sangue.

Uma vida dedicada à luta

Militão Bessa Ribeiro nasceu a 13 de Agosto de 1896 na localidade transmontana de Murça. Como muitos outros jovens do seu tempo, a falta de perspectivas de vida levou-o, aos 13 anos, a emigrar para o Brasil. Naquele país encontrou trabalho como operário têxtil e, com apenas 15 anos, começou a participar nas lutas da classe operária brasileira. Por essa altura, tornou-se dirigente sindical e aderiu ao Partido Comunista Brasileiro.
Expulso do Brasil pelo seu envolvimento nas lutas operárias, Militão Ribeiro consegue desembarcar e evitar a sua entrega às autoridades portuguesas, regressando à sua terra natal. É nesta altura que toma contacto com o PCP e com o Socorro Vermelho Internacional. A actividade por si desenvolvida entre os camponeses da região origina a sua primeira prisão, em Julho de 1934. Julgado pelo Tribunal Militar Especial, foi condenado a 12 meses de prisão correccional. Transferido para Peniche em Abril do ano seguinte, seria deportado em Julho (a menos de um mês de terminar a sua pena) para Angra do Heroísmo, onde permaneceu até 23 de Outubro de 1936.
Nesse dia, a bordo do navio Luanda (juntamente com Bento Gonçalves e Sérgio Vilarigues, entre outros), foi enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal. Ali sofre com os trabalhos forçados e com os castigos e integra, juntamente com o Secretário-geral Bento Gonçalves, a direcção da Organização Comunista Prisional do Tarrafal.
Em 1940, abrangido por uma amnistia, Militão Ribeiro é libertado (seis anos depois de ser preso) regressa a Portugal e de imediato retoma a actividade partidária. Participante activo na reorganização do Partido de 1940/1941, integrou o Secretariado do Comité Central até ser novamente preso em Novembro de 1942, e enviado de novo para o Tarrafal no ano seguinte.
Na sequência do fim da guerra, e da amnistia que o governo fascista foi forçado a decretar por pressão das forças democráticas, Militão Ribeiro foi libertado em Novembro de 1945. Pouco depois, fazia já parte do Secretariado do Comité Central do Partido, juntamente com Álvaro Cunhal, José Gregório e Manuel Guedes. No IV Congresso, realizado em 1946 e que definiu o caminho para o derrubamento do fascismo, foi eleito para o Comité Central e, depois, para o Secretariado.
Desde esta data e até à sua prisão, no Luso, em 1949, Militão Ribeiro teve um importante papel na aplicação da linha política definida pelo Congresso, apresentando, em várias reuniões do Comité Central, informes sobre os mais variados assuntos.
A sua morte constituiu uma imensa perda para a luta do povo português, mas a sua firmeza, a sua coragem e o seu exemplo iluminam, ainda hoje, a luta dos comunistas portugueses.

«... Mas,
português da rua, entre nós,
ninguém
nos escuta,
sabes
onde
está Álvaro Cunhal?
Sabes, ou alguém o sabe,
como morreu,
o valente
Militão?
E sua mulher sabes tu
que enlouqueceu sob torturas?... »


Pablo Neruda, A Lâmpada Marinha (excerto)


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