• Domingos Mealha

Continental Mabor não alterou os horários
Lição de luta para a vida
Desde o final de 2008 e durante todo o ano de 2009, a administração da Continental Mabor tentou aproveitar o contexto de crise no sector automóvel para reduzir o pagamento aos trabalhadores. Durante longos meses, os operários da maior fábrica nacional de pneus resistiram, mostraram-se unidos e dispostos a lutar. Em Novembro, foi abandonada a intenção de alterar os horários, que iria desorganizar a vida de todos e iria cortar 300 euros por mês aos mais de 500 com laboração ao fim-de-semana. Ao Avante!, dirigentes sindicais e da CT falam sobre o «exemplo para a vida» que esta vitória representou, tanto para os trabalhadores, como para a administração.
A conversa decorreu no centro de trabalho do PCP, em Vila Nova de Famalicão. Fizeram «as honras da casa» os camaradas Nuno Pereira e Joaquim Daniel. Compareceram mais três representantes dos trabalhadores, que estiveram profundamente envolvidos naquela batalha, como se viu ao longo de duas horas de perguntas, respostas e comentários.
«Foi uma fase muito complicada», começa por recordar Vítor Sampaio. Com 31 anos, inspector-classificador de pneus, há 14 anos na Continental Mabor, o coordenador da Comissão de Trabalhadores da empresa e delegado sindical do Sindeq/UGT explica que «tínhamos recentemente sido eleitos para a CT, quando surgiu o problema da quebra nas vendas de pneus».
Foram decretados dias de paragem da produção. Foi anunciada a não renovação dos contratos a oito dezenas de trabalhadores temporários. Foram produzidas declarações públicas de responsáveis a propósito dos impactos da crise internacional. Mas, afirma Vítor Sampaio, «quem conhece a Mabor sabia perfeitamente que não era uma quebra daquelas que ia abalar a empresa».
O ano de 2008 estava a acabar e a administração da fábrica do Lousado da multinacional alemã preparava uma alteração na organização dos horários de trabalho, através da redução de cinco para quatro equipas (turnos) e acabando com os horários concentrados de fim-de-semana, uma prática que vigora há 14 anos e que, na altura, teve o acordo dos trabalhadores e especial autorização do Governo.
Os representantes dos trabalhadores começaram por propor à empresa outras formas de controlar custos, mantendo os horários e sem perdas de remuneração. Poderiam ser paragens de produção, flexibilização das férias, adaptação de alguns horários, até admitiam colocar em causa o aumento salarial anual e prémios, mesmo alguma mudança nos turnos, mas nunca com carácter definitivo. Mas a administração persistia numa alteração que iria desorganizar rotinas familiares já estabelecidas e retirava a 565 trabalhadores, dos turnos de fim-de-semana, cerca de 300 euros por mês (25 por cento do salário-base).
«Sentimos que a empresa estava a ver na crise uma oportunidade para reduzir o custo da mão-de-obra, implicando directamente com os 1211 trabalhadores da área da produção», conta Joaquim Costa, de 34 anos, construtor de pneus, dirigente do Sinorquifa/CGTP-IN e da Comissão de Trabalhadores da Mabor, que trabalha ali há 14 anos. «Numa primeira fase, a empresa tentou impor a alteração», mas «houve reacção imediata dos trabalhadores».
É reconhecida a importância que teve um plenário, cujas cinco reuniões de turnos decorreram a 27 e 28 de Fevereiro de 2009, com forte participação dos trabalhadores, filiados ou não no Sinorquifa, que o convocou e para ele convidou a CT. Joaquim Costa relata que «foi aprovada uma moção, que depois foi assinada por 1020 trabalhadores e entregue à administração». Exigindo a manutenção dos turnos, com equipas de semana e de fim-de-semana, e mandatando as organizações representativas para a convocação de eventuais formas de luta, incluindo a greve, o documento expressava «total disponibilidade para discutir as propostas devidamente fundamentadas a apresentar pela empresa, acompanhadas de estudo sobre a implicação na organização da vida dos trabalhadores, bem como as medidas para resolver, minimizar ou compensar essas alterações».
A administração não chegou a apresentar as propostas reclamadas pelos trabalhadores. «Através dos supervisores das equipas de fim-de-semana, tentaram que os trabalhadores aceitassem a laboração a quatro equipas», recorda Eduardo Oliveira, técnico de uniformidade. Com 50 anos de idade e 30 de empresa, este membro da CT reconhece estar entre os mais velhos da Mabor, cujo pessoal tem uma idade média à volta dos 35 anos.
Joaquim Costa nota que o ano de 2009 «foi o primeiro em que a administração não pagou os aumentos salariais com retroactividade a Janeiro e decidiu não fazer a chamada distribuição de lucros, que para mim é uma armadilha». Mas, «se todas estas cartadas eram para pressionar, elas acabaram por fazer ricochete».

«Cheirinho» a protesto

Em resposta às manobras patronais, os representantes dos trabalhadores «alertaram para que não se assinasse nada». Às oito da manhã de segunda-feira, 9 de Março, «no final do turno de fim-de-semana, houve uma concentração à entrada da fábrica». Eduardo Oliveira salienta que «esta mobilização, que depois se estendeu aos outros turnos, foi muito importante, neste processo».
«Aquilo surgia de forma espontânea», descreve Joaquim Costa. «Com os telemóveis, é muito fácil passar mensagens, “vamos até lá fora ao portão” ou “vamos tirar o pé do acelerador” e, como os trabalhadores estavam muito descontentes, as respostas positivas eram muitas».
As reuniões espontâneas junto ao portão repetiram-se durante uma semana, com todos os turnos. «Ao fim do turno, os trabalhadores concentravam-se perto da portaria, durante uma meia hora, a conversar uns com os outros, e sempre que passava uma figura importante da empresa, saudavam e reconheciam a importância que essa figura tinha», conta o dirigente, sem denunciar o tom irónico das palavras.
Não foi só naquela semana, «aconteceu mais vezes, dizia-se que era para “dar um cheirinho” do mal-estar que se vivia». E também houve plenários, sempre muito participados, dentro da empresa. Joaquim Costa refere que «não chegou a ser necessário vir em plenário para a rua, mas viu-se bem que os trabalhadores estavam dispostos a isso».
Com o passar dos meses, «já se sentia um grande descontentamento e a vontade de muitos trabalhadores era passar mesmo a formas de luta extremas». O fim do Inverno trouxe também a necessidade de aumentar a produção. Vítor Sampaio explica que se tratava de preencher a quota de mercado que outras empresas internacionais tinham deixado em aberto, com as reduções decididas para reagir à crise. Os sinais de aumento da produção vieram tirar ainda mais razão à administração, quando invocava a crise para defender as suas intenções.
Em Maio ficou expressa a intenção da administração e iniciou-se a negociação de compensações. Notou-se, então, que a empresa queria fechar rapidamente um acordo, porque iam sendo mais visíveis factos que contrariavam a crise invocada.
«Quando entrámos em Junho, até parecia que tinha nascido o menino Jesus», diz Joaquim Costa. Já não era preciso ficar em casa, a negociação da mudança de horários podia ficar para depois das férias, foi chamado pessoal para trabalhar sábados e feriados, que não estavam previstos, já havia dinheiro para horas extraordinárias... «Passámos o Verão com a fábrica a trabalhar a 110 por cento!»
As negociações prosseguiram, «moderadamente», em Setembro e Outubro.

Sexta-feira, 13

Para os representantes dos trabalhadores, estava a começar uma fase decisiva. No dia 13 de Novembro, uma sexta-feira, exigiram saber da administração qual o montante da compensação que queria propor aos trabalhadores. Eram valores muito baixos e com pagamentos repartidos por três anos.
«A administração contava poupar cerca de três milhões de euros por ano em salários, mas se a Mabor, até no dito ano da crise, teve cerca de cem milhões de euros de lucro, não são três milhões, gastos em motivação dos trabalhadores, que vão pôr em risco o futuro da empresa», e «tudo isto foi transmitido aos trabalhadores», como conta Joaquim Costa. Os outros representantes acrescentam que, por essa altura, notava-se que a motivação foi decrescendo, foi recusado trabalho em dias feriados, as taxas de absentismo dispararam... A administração, que «só via o perigo de uma resposta dos trabalhadores», passou a recear «perder o controlo da insatisfação dos trabalhadores e ficar sem capacidade para responder à falta de pneus no mercado».
Nesse mesmo dia, a CT comunicou à administração que os valores de compensação não foram aceites pelos trabalhadores.
Teve forte impacto um comunicado que o Sinorquifa distribuiu, a meio da tarde, afirmando que estava provado não haver razão para alterar os horários e que a empresa não conseguira ainda fundamentar tal alteração.
A administração reuniu de emergência e, pelas 18 horas, emitiu um comunicado a dar por encerrada a discussão, mantendo as cinco equipas e os horários.

PCP sempre presente

O PCP manteve uma presença solidária constante, junto dos trabalhadores da Continental Mabor. «Distribuímos comunicados aos trabalhadores e aos jornais locais, lembrámos os incentivos dados pelo Estado, informámos sobre o que faziam os deputados comunistas na AR e no PE», enumerou Nuno Pereira. Com 26 anos, desde há poucas semanas com a responsabilidade do sector químico no organismo da Direcção Regional de Braga do PCP para o trabalho sindical, assinala que nas posições do Partido sobre o problema surgido na Mabor «sempre realçámos a importância que a empresa tem para o concelho e para o distrito, e apelámos à união dos trabalhadores».
Nuno concorda com Joaquim Costa, que criticara o facto de a Câmara Municipal não ter contactado, nestes longos meses, nem os representantes dos trabalhadores, nem a administração. E, comentando a coincidência da luta na empresa com um preenchido calendário eleitoral, salienta que o PCP marcou presença na empresa «quer em períodos pré-eleitorais e com candidatos, quer fora de eleições e apenas com camaradas da Concelhia», e «tivemos sempre boa aceitação».

Unidade todos os dias

A vitória conseguida na Continental Mabor «foi um exemplo de vida para os trabalhadores, mostrou que em unidade alcançamos os nossos objectivos», afirma, convicto, Joaquim Daniel, dirigente a tempo inteiro do Sinorquifa/CGTP-IN, responsável pela organização do sindicato nos distritos de Braga e Viana do Castelo. E, anota este construtor de pneus, com 37 anos de idade e trabalhador da Mabora há 18 anos, «foi um exemplo de vida também para a empresa, que no futuro terá que pensar duas vezes, antes de avançar para medidas contra os interesses dos trabalhadores».
«Mas a importância da unidade dos trabalhadores e da sua disponibilidade para a luta tem que ser afirmada todos os dias, para enfrentarmos o permanente conflito de interesses em que vivemos», alerta o dirigente sindical comunista.
Na Mabor, o índice de sindicalização é muito elevado. O Sinorquifa tem mais de um milhar de associados, e só em 2009 inscreveram-se cerca de cem novos sócios. Daniel diz ainda que «estão eleitos sete delegados e quatro dirigentes sindicais, temos uma Comissão Intersindical com o Sindicato dos Metalúrgicos, da Fiequimetal/CGTP-IN, promovemos a eleição dos representantes dos trabalhadores para a Saúde e Segurança no Trabalho»... Findou «um ano de muita actividade, sobretudo no esclarecimento e unidade dos trabalhadores, procurando que cada um se assumisse como activista, levando a mensagem a outros e alargando a disponibilidade para a luta». «Isto foi fundamental e vamos continuar a insistir nesta mensagem», assegura Joaquim Daniel.
Também para Vítor Sampaio «esta batalha ganha veio dar mais ênfase ao papel da CT, veio reforçar a união dos trabalhadores e também fez ver à administração aquilo que a organização consegue fazer». Sobre os diferentes posicionamentos sindicais, admite que, antes de ser eleito para a CT, «sabia que havia muitas divergências entre os sindicatos da CGTP e o sindicato da UGT e essas divergências prejudicaram os trabalhadores». Só que, «com o problema que se nos colocou, tivemos que definir que o essencial era o trabalhador e procurámos trabalhar em conjunto com os dois sindicatos, pedimos pareceres a um e a outro, conversámos com os dirigentes». Assim, «formou-se um ponto de vista comum e depois foi fácil as coisas fluírem bem, mantivemos as nossas divergências, mas seguimos sempre com espírito construtivo». Nesta altura, não hesita em reconhecer que «foi importante o plenário marcado pelo Sinorquifa, que convidou a CT para participar».
Eduardo Oliveira também é de opinião que «na CT, conseguimos trabalhar em conjunto, em prol dos bons resultados para os trabalhadores» e «o facto de não haver divergências entre nós também estimulou a unidade» na fábrica. Supõe até que «a própria administração terá sido surpreendida com isto, porque deve ter calculado que, havendo cinco novos elementos na CT, alguns deles pertencentes a um sindicato diferente dos que estavam na anterior comissão, o grupo iria ter pouca consistência e estaria fragilizado», «mas o ataque da administração acabou por ajudar a consolidação do nosso grupo».


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: