• Luís Carapinha

Do outro e deste lado do Atlântico o Capital porfia e tem, sobretudo, muita pressa
O que resta de Obama
O primeiro aniversário de Barack Obama na Casa Branca foi assinalado sob o signo do descrédito e da crise. Nunca a distância entre o discurso e os factos, as expectativas e a realidade, terá sido tão grande. Mais vertiginosa que a ascensão do fenómeno Obama é a queda do mito de Obama e das ilusões por este criadas, sobre as quais o PCP desde a primeira hora acertadamente alertou.
Ainda antes das eleições que deram a vitória a Obama, Richard Holbrooke, no passado uma das principais figuras associadas ao desmantelamento jugoslavo e agora o enviado dos EUA para o Afeganistão e Paquistão, definira a futura presidência norte-americana como a mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial. A manutenção de uma hegemonia mundial que corre contra o tempo exigia ultrapassar o fracasso da era Bush e a rápida reparação dos seus estragos. Como representante da classe dirigente dos EUA, Obama não deixou os seus créditos por mãos alheias. O voto de mudança – mesmo carecendo de uma maior profundidade política – de muitos milhões de norte-americanos que o elegeram foi defraudado, mas não os interesses que ditam a agenda estratégica do imperialismo norte-americano.
Ficou claro, nestes 12 meses, que em Washington não se procuram reformistas. Do outro e deste lado do Atlântico o Capital porfia e tem, sobretudo, muita pressa.

Enfrentando a mais grave crise económica e sistémica desde a Grande Depressão, a Administração de Obama encarnou como poucas o peso institucional do sistema de partido único bicéfalo vigente no país. Com o seu eixo a fixar-se de tal forma «à direita» que a enorme derrota eleitoral republicana ameaça, afinal, converter-se numa sinecura para os sectores mais reaccionários da política dos EUA.
As medidas paliativas para contrariar a acentuada quebra de popularidade de Obama não ocultam a aposta na prossecução do milionário resgate público de Wall Street ou o novo recorde absoluto representado pelo orçamento militar para 2010. A intensificação da exploração capitalista nos EUA é uma realidade com Obama, e até a emblemática «reforma da saúde», apesar de mutilada e casada com os grandes interesses privados, poderá vir a naufragar, sendo sintomática a vitória republicana no feudo democrata do Massachusetts para o lugar no Senado, aberto com a morte de E. Kennedy.

É no plano da política externa, porém, que a vanidade do «fenómeno Obama» se revela em toda a sua plenitude. A política que Bush e os neocons já não tinham condições para prosseguir está, na sua essência, a ser retomada e reforçada pela actual Administração, que demonstra na matéria uma sanha «invejável». Qualquer que seja a frente ou região do globo tomadas, os exemplos são abundantes. O Nobel da Paz Obama anunciou o reforço da guerra no Afeganistão conduzida em conjunto com a NATO. A máquina de terrorismo de Estado estende a sua acção do Paquistão – onde, numa antevisão das guerras do futuro, aviões não tripulados assassinam diariamente – ao Iémen e corno de África. Permanece a incerteza no Médio Oriente, com a ocupação do Iraque, a escalada contra o Irão, e o silenciamento do drama palestiniano. O golpe nas Honduras, a infame ocupação militar do Haiti e as bases na Colômbia são sinais da ambiciosa contra-ofensiva com vista a retomar a iniciativa na América Latina e aniquilar os exemplos da Venezuela, Cuba e da ALBA. Não cessam as medidas de pressão sobre a Rússia, a par da acção diplomática visando arrancar «compromissos» a Moscovo. E o anúncio da nova venda de armamento a Taiwan e o apoio ao Dalai Lama sinalizam as reais intenções da agenda de Washington em relação à China, facto bem revelador do carácter e ameaças do nosso tempo.
God bless the United States. Os epígonos do Capital pedem bênçãos ao Céu. Sabem que, com todos os seus perigos, o frenesim militarista não pode reverter a decadência do EUA.
Ícone que se desvanece, Obama interpreta a matriz do poder imperialista. Restam-lhe a retórica da oratória e a exímia arte do teleponto…


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